Foto por Thomas Holm. Todas as imagens cortesia dos artistas.

Posar nua me permitiu viajar pelo mundo

Essa indústria tem seus pervertidos e suas armadilhas, mas eu amo a liberdade e a criatividade que ela oferece.

por Sienna Hayes; Traduzido por Marina Schnoor
|
20 dezembro 2017, 11:00am

Foto por Thomas Holm. Todas as imagens cortesia dos artistas.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Já posei entre ruínas maias na Península de Iucatã, reclinada sobre praias de areia branca em Queensland e me equilibrei em pedras num lago irlandês cristalino ao pôr do sol. Posei na proa de um barco encalhado na Califórnia e montei nua num cavalo nos desertos de Utah. Esses são só alguns exemplos dos lugares inacreditáveis a que meu trabalho me levou nos últimos dois anos e meio. Aos 24 anos, tive o privilégio de visitar 32 países em cinco continentes – algo que eu nunca teria conseguido sem o trabalho freelance de modelo artística.

Foto por Dan Van Winkle

Tudo começou em 2011, quando eu tinha 18 anos e morava nos arredores de Toronto. Uma amiga estava fazendo sessões “trade for print” (TFP), onde não há troca monetária, para fotógrafos amadores. Uma foto em particular que ela me mostrou, adorei. As imagens eram nus artísticos, fotografadas com luz natural e processadas em preto e branco. Modelar parecia algo divertido de se fazer nos finais de semana, então fiz uma conta no Model Mayhem e marquei algumas sessões TFP na área.

Minhas primeiras sessões de fotos foram vestidas. E sendo honesta, foram meio constrangedoras. Eu não era nada natural, e não entendia ainda como posar e agir. Apesar disso, adorei os resultados. Isso realmente ajudou minha autoestima. Pensando agora, acho essas imagens bem vergonhosas hoje, mas quando eu tinha 18 elas eram incríveis.

Foto por Adrian Holmes

Depois de um tempo, um fotógrafo com quem eu já tinha trabalhado me abordou para fazer uma sessão nua num cenário que ele tinha construído. Ele tinha uma grande caixa de madeira com luzes no estúdio dele. Ele queria que eu posasse dentro da caixa para imagens de silhueta. Nudez nunca me incomodou, e gostei da ideia dele, então decidi topar. Fiquei surpresa em descobrir que me sentia muito mais confortável posando nua do que vestida. Comecei a marcar sessões de foto nua nos finais de semana entre minha agenda da faculdade. Logo isso se tornou minha única fonte de renda. Quando me formei como assistente social, passei a maior parte do tempo modelando enquanto procurava empregos na minha área.

Foto por Alex Images

Fiz minha primeira “turnê como modelo” por duas semanas e meia durante o verão de 2015. A turnê me levou para o oeste do Canadá e me deu o primeiro gostinho de modelar em tempo integral. Adorei a experiência de trabalhar com um grupo tão diverso de fotógrafos num período tão curto. A criatividade deles era inspiradora.

Foi durante essa turnê que comecei a considerar seriamente a possibilidade de modelar em tempo integral. Eu imaginava que se isso não desse certo, eu ainda tinha meu diploma, então decidi tentar.

Não levei muito tempo para perceber que, para conseguir ganhar a vida assim, seria necessário viajar o máximo possível. Quando você fica num lugar só, sua base de clientes é limitada, e há menos oportunidades de sessões. Mas se você vai para várias cidades num curto período, a demanda é mais alta, e você pode trabalhar todos os dias durante a duração da viagem. Hoje em dia, passo pelo menos metade do meu ano em turnê. Minhas taxas ficam confortavelmente entre US$ 125 por hora e US$ 800 por dia, o que me dá liberdade financeira para fazer dois meses de viagens pessoais por ano (além das turnês como modelo). Uma modelo iniciantes, por outro lado, tipicamente pode esperar de US$ 50 por hora a US$ 300 por dia, enquanto as modelos mais requisitadas ganham mais de US$ 150 por hora ou US$ 1 mil por dia.

Foto por Andrew Balfour

Muita gente acha que essas turnês são “glamourosas”, mas na maioria das vezes não é esse o caso. Um dos grandes equívocos é que as pessoas me pagam para viajar para esses lugares incríveis – mas na verdade isso é raro. Como não tenho uma agência, normalmente posso decidir onde quero trabalhar. Como muitas no meu campo, pago pela viagem e acomodação do meu próprio bolso. Aí informo os fotógrafos que estarei na área deles postando em várias redes sociais, ou mandando mensagem privada. É assim que consigo encher minha agenda e ter lucro.

Foto por Foto Kammer

Quanto aos clientes, os meus são bem diversos, mas eles geralmente caem em uma de quatro categorias. Os mais comuns são os amadores, cujo hobby é a fotografia. Foto Kammer, por exemplo, é engenheiro de software. Trabalhamos juntos pela primeira vez no Canadá, mas ambos acabamos migrando para a Califórnia, então foi lá que a maioria das nossas colaborações aconteceu. Nossas sessões se focam em nus artísticos, e quase todas foram realizadas em lindas paisagens. Falando no geral, a maioria dos amadores com quem trabalhei não focam em ter suas fotos publicadas, já que estão fotografando principalmente por prazer.

Foto por Foto Kammer

O segundo grupo que tende a me contratar são os profissionais de tempo integral, que ganham a vida com um gênero diferente de fotografia. Quando conheci o fotógrafo de Toronto Adrian Holmes, sua principal fonte de renda vinha de fotografar eventos, interiores e retratos pessoais se corporativos. Trabalhamos juntos muitas vezes para seus projetos pessoais, todos envolvendo nus artísticos em locais fechados, como uma mansão grandiosa, um bunker abandonado e uma casa histórica. Alguns dos nossos trabalhos já foram expostos em eventos de arte em Toronto.

Foto por Adrian Holmes

Algumas vezes por ano, também tenho chance de trabalhar com fotógrafos de arte conhecidos como Steve Richard. Steve me contratou para modelar em um de suas oficinas de dois dias em Hamilton, Ontário. Na oficina, ele ensina técnicas de fotografia e iluminação de estúdio. Esse é o cenário mais comum onde trabalho com fotógrafos de arte profissionais, apesar deles às vezes me contratarem para seus projetos também.

Ocasionalmente também trabalho com tipos mais tradicionais de artistas, como pintores e desenhistas. Em março, tive o privilégio de trabalhar com Sergio Lopez em seu estúdio de Santa Rosa numa série de fotos de referência. Depois ele usou as imagens para criar pinturas a óleo surrealistas que recentemente foram expostas na Rehs Contemporary Galleries em Nova York.

Falling in Love, 2017. Óleo sobre linho de Sergio Lopez.

Apesar da maioria dos meus clientes serem gente boa, tem sempre uma maçã podre aqui e ali. Recomendo conferir as referências da pessoa, mas tenho que admitir que com o volume de sessões que faço – aproximadamente 250 por ano agora – simplesmente não tenho tempo de pesquisar toda pessoa com quem trabalho. Sendo assim, as ferramentas mais importantes que tenho para me manter segura são minha intuição e bom senso. Pessoas que elogiam demais, mandam mensagem “só para conversar” em horas aleatórias, pedem “serviços adicionais”, que parecem estar usando um portfólio falso são sinais vermelhos para mim. Simplesmente evito trabalhar com essas pessoas, o que tenho certeza que me poupou de muitos encontros negativos.

Apesar de tentar usar meu melhor julgamento, às vezes acabo em situações desconfortáveis. Já levei palmadas, fui comida com os olhos, e tive fotógrafos fazendo intencionalmente fotos que mostravam mais do que tínhamos concordado antes. Uma vez em Los Angeles, um fotógrafo queria que eu assinasse um acordo dizendo que não tinha me obrigado a fazer nada contra minha vontade antes da sessão sequer começar. Quando recusei, ele me disse que era ex-militar, e que se quisesse me machucar, ele poderia bloquear todas as saídas. Felizmente ele estava blefando. Comparadas com as de muitas outras modelos, minhas experiências têm sido moderadas. Apesar dos riscos, adoro meu trabalho e não trocaria por nada no mundo.

Foto por Foto Kammer

Infelizmente, sei que minha carreira tem uma data de validade. Apesar da área de modelo freelance acomodar uma grande variedade de aparências e tipos físicos, geralmente é importante ter uma visual jovem. Por essa razão, acho prudente ter um plano de aposentadoria. Até recentemente eu pensava em voltar a ser assistente social, mas me acostumei com a liberdade de trabalhar por conta própria. Felizmente, meus pais me ensinaram a ser responsável com dinheiro, então estou muito perto de conseguir minha primeira propriedade de investimento. Meu plano é ter pelo menos dois ou três imóveis gerando renda quando eu me aposentar como modelo. Enquanto isso, planejo fazer o máximo dos anos que ainda tenho, criando a melhor arte que posso em mais cantos do mundo.

Visite Sienna Hayes no site dela, Instagram, Patreon e Model Mayhem.

Mais VICE
Canais VICE