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O que podemos esperar da passeata contra o governo federal deste domingo?

Depois de semanas tensas para o governo federal, a hipótese de confrontos reais entre a esquerda e a direita começam a pautar a manifestação que acontecerá no dia 13 de março. Perguntamos a especialistas o que esse ato significará para o país.

por Marie Declercq
11 Março 2016, 1:00pm

Foto: R.U.A. Foto Coletivo, publicada originalmente aqui.

Após semanas bastante conturbadas na política brasileira – a delação de Delcídio do Amaral, condução coercitiva de Lula, impedimento do Ministro da Justiça assumir e, ainda, o pedido de prisão preventiva mal escrito pelo Ministério Público de São Paulo contra o ex-presidente – a impressão é de que os ânimos para a passeata pró-impeachment da presidente Dilmano domingo (13) estão ainda mais acirrados e ganhando adesão após um declínio nos números de manifestantes nas edições anteriores.

Marco Aurélio de Mello, Ministro do Supremo Tribunal Federal, teme que "um cadáver" será encontrado nesse dia, considerando o pico da polarização política no Brasil. O próprio Partido dos Trabalhadores pediu para seus militantes não organizarem nenhuma mobilização no dia para evitar confrontos e o governador de São Paulo Geraldo Alckmin já avisou que não permitirá manifestações contrárias no mesmo dia, por entrar em conflito com a própria Constituição Federal. E ainda, pegando carona no status das investigações da Lava Jato, o próprio PSDB pela primeira vez convocou a ida ao ato de domingo.

As passeatas da oposição ao governo federal costumam ser altamente criticadas por conta da presença de alguns elementos preocupantes. Há pessoas que pedem a volta da ditadura militar, outras ostentam uma enorme falta de conhecimento político do funcionamento do Brasil e aumentam ou distorcem questões do país e ainda há aqueles que acreditam que o PT é, realmente, o grande culpado pela corrupção estrutural. Porém, as pessoas que reproduzem esses discursos esdrúxulos – e são memeficadas na internet sem parar, não representam necessariamente a maioria destes atos.

O filósofo e professor da USP Pablo Ortellado, que acompanha as mobilizações desde 2014, fez duas pesquisas para o El Pais em abril e agosto do ano passado e afirma que muitas pessoas estão atendendo esse chamado de grupos de direita porque não há nenhum grupo de esquerda forte o suficiente para convocar um ato contra corrupção, um assunto de muita preocupação dos frequentadores dessas marchas. Inclusive, 98% dos entrevistados nesses atos apoiam a universalidade e a gratuidade de direitos sociais e melhorias básicas na saúde, educação e transporte, que estavam na agenda de junho de 2013. "Tem muito diz-que-me-diz dos dois lados. Algumas coisas são piores do que a gente pensa, e algumas são menos ruins," esclarece.

"Até a tarifa zero pro transporte, coisa que o PT, por exemplo, tem muita resistência, entre os manifestantes deu 50% de apoio. Ou seja, eles estão à esquerda do PT nesse quesito. Eu acho que a esquerda é muito grudada no PT. Esse é o grande desafio, o nó da coisa. Embora a gente tenha um certo consenso na população sobre os direitos sociais, a gente não tem uma força de esquerda que defenda isso e possa se colocar contra o PT. A gente tem movimentos, mas eles são pontuais – os movimentos dos secundaristas, o MPL," explica Ortellado.

Agora, com o avanço da Lava Jato e a ansiedade se encurralar o ex-presidente Lula e tirar Dilma Rousseff do poder, a adesão parece ter aumentado. E considerando que os militantes governistas e os militantes da oposição tem um gosto de se encontrarem no mesmo lugar para brigar, como aconteceu no Fórum Criminal da Barra Funda, no aeroporto de Congonhas e em frente da casa do Lula, parece que todos temem algo pior no domingo.

"Acho teremos uma manifestação gigantesca nas ruas, não só porque ela está sendo convocada há muito tempo, e também porque os meios de comunicação tradicionais já deixaram claro que estão incentivando essa operação Lava Jato e que vão de fato fazer uma convocatória em tempo real", prevê o Rafael Araújo, sociólogo e professor da PUC-SP e e da FESPSP.

"É cedo para fazer um diagnóstico", adianta o cientista político e também professor da PUC-SP Pedro Fassoni Arruda. "Nas primeiras manifestações do ano passado apareceu muito mais gente que até os organizadores tinham imaginado, mas neste ano tem sido um público muito menor. Há um certo refluxo. É um fenômeno restrito a algumas capitais do Brasil, principalmente São Paulo, mesmo em termos absolutos ou proporcionais, São Paulo acaba sendo maior que outros locais, como Rio de Janeiro e Porto Alegre. É um dos maiores redutos da oposição conservadora ao governo federal."

O cientista político também lembrou que, ironicamente, a manifestação de domingo será no mesmo dia de um acontecimento histórico de 1964. Foi o dia do Comício da Central do Brasil, onde João Goulart anunciou em seu discurso a iminência de reformas agrárias e urbanas, grande temor da classe média. Sete dias depois, a direita foi às ruas com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o possível "golpe da esquerda" que acreditavam que seria implantado por Jango. Essa data, na verdade, é a data que os grupos pró-impeachment gostariam de coincidir. Porém, pelo fato desses protestos acontecerem exclusivamente aos domingos, a coincidência foi inevitável.

Ao lembrar da passeata da direita, Arruda lembra que ainda há semelhanças entre o passado e os grupos atuais levando em consideração os discursos exagerados que alguns manifestantes fazem perante à imprensa. Estes, inclusive, que costumam fomentar a teoria que o Brasil talvez esteja caminhando para uma guerra civil por conta do maniqueísmo político. "Tem pessoas que tem um perfil muito pior que conservador, que é reacionário, que querem fazer com que a história volte para trás. Se dependessem de alguns grupos de pessoas, seria sim o caso de mergulharmos numa guerra civil", diz.

Arruda complementa: "Não há nenhuma movimentação nas Forças Armadas, e creio que a maioria da população hoje repeliria um golpe militar. Mas há um clima de acirramento dos ânimos muito forte no Brasil. Não chega a uma guerra civil, mas pode desembocar em distúrbios localizados em algumas cidades."

Para Ortellado, a violência física entre os grupos opostos não é realmente desejada neste domingo, mas deve-se aguardar como evoluirão as investigações contra o governo. "Não acho que vai ter violência nessa manifestação, não necessariamente. Porém, acho que se a coisa avançar – se prenderem o ex-presidente Lula, se o processo de impeachment começa a andar –, o PT não terá outra escolha a não ser mobilizar com todas as suas forças uma situação de vida ou morte. E como o outro lado está hiper-mobilizado e radicalizado, e a situação está polarizado, eu com certeza acho que vai ter violência, acho até que vai ter morte."

"Pode ser que ocorram confrontos se, de fato, pessoas que são partidárias do Lula, não aceitarem o pedido de cancelamento das manifestações e forem para as ruas. É o maior risco que pode acontecer", complementa o sociólogo Rafael Araújo. "Existe um risco real de esses confrontos se acirrarem. A gente tem o pensamento de que essas coisas só acontecem nos livros de história, mas a gente tá no olho do furacão, exatamente um momento de acirramento dos ânimos e também da forma de se portar e de pensar que a gente tem percebido nos discursos, que é muito semelhante à conjuntura de ascensão de regimes totalitários."

Embora o PSDB tenha declarado seu apoio oficialmente à passeata, pode ser um grande tiro no pé para o partido mexer com isso. "É provável que a participação do PSDB acabe afastando pessoas, até porque várias lideranças do PDSB estão envolvidas em denúncias de corrupção. O Aécio, citado cinco vezes em delações, o governador Geraldo Alckmin envolvido no esquema de roubo da merenda escolar e superfaturamento das obras do metrô. Sem falar de políticos de outros partidos, como o senador Agripino, que é réu num processo no STF", lembra Arruda.

Enquanto a oposição ganha força nas ruas e pega carona na herança das Jornadas de Junho de 2013, cujo sequestro do seu meio para o final acabou "popularizando" para a direita a ida às ruas para se manifestar, os militantes governistas se mostram extremamente preocupados com a iminência do colapso do Partido dos Trabalhadores e também a subversão da importância história do governo Lula na redução de desigualdades sociais e desenvolvimento brasileiro.

"Para esse fim de semana, temos dois elementos antagônicos, dois processos em direção contrária," finaliza Ortellado. "Um, se a minha leitura estiver correta, vai se acentuar, porque a manifestação foi chamada por partidos políticos pela primeira vez, ela não foi só convocada pela sociedade civil. Isso gera uma desmobilização, já que as pessoas têm uma descrença generalizada em todos os partidos. Por outro lado, a condução coercitiva do Lula e a denúncia do Delcídio devem ter tido efeitos mobilizadores, que as pessoas estão vendo a coisa caminhando para um clímax."

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