Ilustração: Cassio Tisseo

Como o WhatsApp virou uma realidade paralela (e perigosa) no Brasil

A brecha para escoar notícias falsas foi aberta quatro anos atrás. Ninguém a aproveitou tão bem quanto a campanha de Jair Bolsonaro.

por Leandro Beguoci; ilustrado por Cassio Tisseo
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out 17 2018, 4:20pm

Ilustração: Cassio Tisseo

Eis-me aqui mais um dia, vendo as imagens que amigos e familiares compartilham no WhatsApp sobre a grande fraude que estão querendo esconder de você. Às vezes, antes de dormir, toco um vídeo em que alguém passa minutos intermináveis falando sobre uma ameaça terrível preparada por comunistas internacionais cheios de maldade no coração. Respiro fundo e abro um outro grupo. O fim do Brasil está próximo porque todos serão obrigados a cometer pedofilia.

Volto no tempo. Então me lembro da sensação que tive ao assistir Matrix e Blade Runner, no final dos anos 1990. Na minha imaginação adolescente, um possível futuro distópico era povoado por robôs gigantes e formas descontroladas de inteligência artificial. A realidade paralela era terrível, mas tinha algum glamour. Era uma luta do bem contra o mal.

Brasil, 2018. Quase 20 anos depois, o futuro distópico chegou, mas não na forma como eu imaginava. A guerra à realidade, a criação de um presente paralelo, se concretizou na forma de memes escandalosos, vídeos mentirosos e áudios altamente virais compartilhados por tios queridos, primas admiradas e amigos enfurecidos.

As eleições mostraram que, sim, é possível criar um universo alternativo e atrair milhões de pessoas para dentro dele. Pior, esse universo é impulsionado por pessoas que você ama (mas não necessariamente alimentado por elas). Não existe luta do bem e do mal dentro de um grupo de WhatsApp, apenas gritaria, dedo na cara e “eu acredito em quem eu quiser".

Acompanho a criação dessas realidades paralelas faz muito tempo. Começou como um hobby no começo desta década. Eu fazia mestrado em liberdade de expressão na Inglaterra e acompanhava as eleições presidenciais no Brasil à distância. Eu ficava chocado com os absurdos que muitos adoradores fanáticos do ex-presidente Lula publicavam no Twitter. Era tanta mistificação que resolvi acompanhar algumas dessas pessoas e tabular as ideias delas. Afinal, sempre desconfiei da adoração religiosa que muitas pessoas devotam a políticos de estimação.

O tempo passou, a tabulação continuou, chegaram as eleições de 2014. Ali, começou a briga de faca com notícias falsas. A primeira grande porta para uma realidade paralela foi aberta quando a campanha de Dilma Rousseff atacou Marina Silva com o terrível vídeo do prato de comida e inventou o Pessimildo, o personagem para contar lorotas.

Pois bem, olho para aquele passado não tão distante e fico pensando como eram bons os tempos das notícias falsas ingênuas, da mistificação raiz, da mentirinha feita num bom editor de vídeos. O que aconteceu nas eleições deste ano atingiu níveis inacreditáveis e altamente perigosos. Para entender, precisamos dividir o problema em etapas.

O tamanho do buraco

A conta é da agência de checagem Aos Fatos. Só no dia 7 de outubro, dia das eleições, notícias falsas foram compartilhadas 1,7 milhão de vezes no Facebook - o alcance é muito maior, já que cada compartilhamento pode atingir milhares de pessoas, multiplicando o impacto.

O Instituto de Internet da Universidade de Oxford, na Inglaterra, foi atrás dos dados do Twitter. Os pesquisadores analisaram quase 1,5 milhão de tuítes e descobriram muita notícia falsa — mas profissionalmente produzida, com padrões claros de produção e reprodução. Nos dois universos, salta os olhos certo profissionalismo das campanhas políticas e de seus apoiadores.

Esses números podem não parecer muito grandes num país com 200 milhões de habitantes. Porém, essas pesquisas não conseguem pegar o problema mais sério e particular desta eleição no Brasil, notada tanto por Aos Fatos como pelos pesquisadores de Oxford. Há uma diferença crucial para outras eleições em que as redes sociais tiveram grande força, como o pleito que levou Donald Trump à Casa Branca e a disputa que selou o Brexit na Inglaterra. Nelas, o grosso da produção de notícias falsas e disseminação de conteúdo daninho era rastreável.

Como a disseminação acontecia no Facebook e no Twitter, plataformas relativamente públicas, foi fácil chegar às organizações que comandaram a caça à realidade (sim, o mundo concreto também entrou em cheque nestes países). Primeiro, descobriu-se a famosa Cambridge Analitica, a empresa que furtava nossos dados no Facebook para manipular emoções com posts apelativos — e que tanto ajudou Trump e a campanha do Brexit. Depois, a linha avançou até a suposta interferência russa nas eleições americanas.

No Brasil, embora exista muita coisa no Facebook e no Twitter, está claro e cristalino que as campanhas de notícias falsas ocorreram nas sombras do Whatsapp e do Facebook Messenger, plataformas fechadas e imunes, até agora, ao escrutínio público.

"O que mais me preocupa neste momento é a completa e absoluta omissão do WhatsApp na disseminação de informação falsa, difamatória e virulenta. Não defendo que haja limites à liberdade de expressão e informação, mas que essa garantia seja assegurada a todos. Isso não está acontecendo”, afirma Tai Nalon, diretora do Aos Fatos. “Desta vez, não temos um algoritmo para culpar, como foi na eleição dos EUA. Não há um mecanismo tecnológico de recompensa amparado em emoções. Temos, na verdade, uma multidão invisível de perfis que não sabemos ser reais ou não nem para quem trabalham. O WhatsApp insiste no mote de que conecta pessoas, mas não estamos mais certos se são pessoas mesmo que fazem o trabalho sujo das campanhas mentirosas que temos acompanhado. Enquanto isso, corporações, empresas e projetos que trabalham com informações factualmente corretas não conseguem fazer circular informação verificada porque a plataforma se isenta em dar condições equivalentes”, conclui ela.

E é aí que entra o perigo.

A campanha de Bolsonaro previu a brecha

Antes de tudo, é preciso reconhecer os méritos da campanha de Jair Bolsonaro. Pelo que se sabe até agora, ele conseguiu articular um discurso sedutor para milhões de brasileiros, ofereceu esperança concreta de dias melhores e criou um jeito inédito de fazer disputa eleitoral no Brasil ao usar o WhatsApp como nunca antes na história deste país. (É bom deixar claro: não entro no mérito da mensagem nem do que Bolsonaro representa, que estão bem distantes do que acredito. O ponto é entender o que aconteceu.)

“Bolsonaro começou essa campanha faz muito tempo. Muitos desses grupos de WhatsApp, muitas das páginas de apoio a ele estão no ar há anos. Muitos dos apoiadores dele se conheceram nas manifestações pelo impeachment, trocaram telefones e pronto. As primeiras redes começaram a ser criadas ali”, diz Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, centro de pesquisa em Internet e direitos.

“A campanha dele é intrigante. Ela tem uma parte que é de baixo para cima, feita com voluntários dispostos a distribuir a mensagem dele com todo o ardor desse mundo. Nesse sentido, lembra um pouco a campanha do Obama nos EUA, em 2008, que surpreendeu o Partido Democrata. Bolsonaro nunca conseguiria esse impacto todo se precisasse criar uma campanha centralizada para controlar os grupos”, continua Brito Cruz.

Por outro lado, nem tudo é voluntarismo na campanha de Bolsonaro. No começo de 2017, o deputado apresentou dois projetos de lei, ainda não aprovados na Câmara, que destoam da sua atividade parlamentar e que dão pistas muito interessantes sobre o que seria a campanha. Um deles diz que só juízes do STF podem derrubar aplicativos e redes sociais no Brasil, começando pelo WhatsApp. O outro impede as operadoras de oferecer planos de internet com dados limitados, o que impactaria usuários de aplicativos. Nos dois casos, a justificativa de Bolsonaro é a mesma: derrubar aplicativo na justiça ou cortar o acesso aos dados do usuário representam ameaça à livre circulação de ideias no Brasil.

Independentemente do mérito (ou falta de) dos projetos, as iniciativas chamam a atenção. É justamente nessas plataformas que Bolsonaro fez sua bem sucedida campanha até agora. E, como mostra sua atividade parlamentar, às vezes ele gosta de legislar em causa própria, como no projeto que retira armas de fiscais do Ibama. Bolsonaro apresentou o projeto após de ser multado por fiscais, como reporta a Folha de S.Paulo.

Além disso, surgem mais indícios de que o plano Whatsapp pode ser bem profissional. A mesma Folha de S.Paulo mostrou que empresasestão comprando pacotes gigantescos de disparos de mensagens pelo WhatsaApp para apoiar Bolsonaro e atacar seus adversários. Elas usam agências especializadas em operar o aplicativo em massa.

Isso traz dois problemas. Um, para o Brasil. Outro, para Bolsonaro. Para o país, mostra o tamanho das brechas no aplicativo e como as nossas leis de proteção de dados não estão funcionando. Afinal, muitas das bases de dados usadas pelas agências são ilegais. Para o candidato, abre uma brecha para a cassação da candidatura. Afinal, isso é doação ilegal para a campanha - as doações empresariais são proibidas. Dificilmente isso vai acontecer esse ano, mas é o flanco mais grave aberto na candidatura de Bolsonaro até agora.

De qualquer forma, isso mostra o quanto Bolsonaro e seus apoiadores entenderam o aplicativo muito antes dos seus adversários.

Eles julgaram que usar o WhatsApp era impossível. A plataforma é árida para disseminação de mensagens centralizadas, justamente para evitar a contaminação pelos spams que destruíram os emails pessoais. Porém, ela foi desenhada para conectar anônimos com interesses comuns, dispostos a conversar sobre música clássica, gatos sem pelo ou dar infinitos “bom dia, grupo!”pela manhã. É neste ponto que a campanha de Bolsonaro surfou. Ela deu um sentido, um senso de urgência e uma missão a milhares de grupos de WhatsApp pelo país.

“A distribuição parece ser feita por voluntários, mas a produção de conteúdo tem estratégia, segue um caminho claro, as mensagens estão ali. Isso tem cara de campanha”, afirma Brito Cruz. "Porém, tem de ter cautela. Até essa produção de conteúdo tem cara do empreendedorismo à brasileira, com pessoas fazendo conteúdo e disputando entre si para ver quem chega mais longe, para ver quem é mais retransmitido pelo ídolo. Bolsonaro dificilmente controla tudo, mas ele sabe como fomentar esse discurso”, conclui.

Nesse caso, o alerta laranja precisa ser ligado porque o WhatsApp mostrou que tem um poder tremendo no Brasil. Ele foi a plataforma usada por caminhoneiros para parar o país durante a greve no primeiro semestre e, agora, é o espaço onde acontece a campanha do favorito nas pesquisas de intenção de voto. É enorme, misterioso e, até agora, incontrolável.

Como voltar à realidade?

Ninguém sabe o que acontece nos grupos. Criado com a boa intenção de proteger a privacidade das comunicações privadas, o WhatsApp é a antítese da antiga esfera pública. Nela, os cidadãos discutiam questões comuns em um espaço aberto e transparente, especialmente por meio dos veículos de comunicação ou em organizações comunitárias. Hoje, o WhatsApp articula uma série de pessoas em grupos invisíveis. Juntos, esses grupos são muito poderosos.

Se a gente vivesse numa ditadura como a chinesa, era fácil de resolver: acaba a privacidade, pronto, feito. Como não vivemos numa ditadura, ainda bem, essa é uma questão difícil de resolver. Afinal, ninguém quer o governo dentro do nosso zap. Se você quer se sentir travado, a hora é agora.

Ao mesmo tempo, é complicado lidar com os efeitos colaterais de uma plataforma usada por 120 milhões de pessoas no Brasil. Somos um dos maiores mercados do Whatsapp no mundo. O produto, controlado pelo Facebook, está na rotina de todos nós (usei muito para fazer esse texto). Esse problema, aliás, não é só brasileiro. A Índia, outro país viciado no aplicativo, também está sofrendo. Por lá, notícias falsas transmitidas pelo WhatsApp têm levado a linchamentos, como mostra essa reportagem da BBC.

Já fui um brasileirinho cheio de esperanças com as potencialidades das redes sociais. Continuo acreditando que elas têm algum impacto positivo no mundo, mas seus lados ruins têm me assustado cada vez mais. Nessas horas, lamento não ter levado tão a sério dois livros do começo desta década.

Um deles é de Jonathan Zittrain, professor de Harvard, nos EUA. Na obra, que se chama “O futuro da internet e como pará-lo”, ele alertava, dez anos atrás, sobre os problemas de uma internet murada, com cercadinhos controlados por poucas grandes empresas. Exatamente como é o cenário de hoje. O argumento central de Zittrain é que, durante muito tempo, a internet e suas aplicações estavam relativamente sob controle dos usuários. Comunidades de desenvolvedores em plataformas abertas trabalhavam juntos para encontrar soluções para a rede. Esse espírito colaborativo, com inspiração hippie, esteve nas origens da internet.

Porém, com o desenvolvimento comercial da rede, o poder migrou dos usuários para as grandes empresas. O poder, no passado, era difuso. Hoje, é concentrado. Por mais que muitas empresas tenham boas intenções, o monopólio é inegável. Pense comigo: uma empresa só tem nas mãos uma ferramenta capaz de influenciar decisivamente as eleições numa das maiores democracias do planeta. Essa é uma das razões pelas quais a discussão sobre o Whatsapp é tão difícil. Por mais que a sociedade possa pressionar, o Whatsapp é do Facebook e atende às políticas da organização. "Ah, então estatiza o Whatsapp", diriam alguns amigos. Bem, lamento dizer, isso já existe na China - e não é bom, não.

O outro livro se chama "Net Delusion” (Desilusão com a Internet, em tradução livre), de Evgeny Morozov, ex-pesquisador sobre internet e sociedade na Universidade de Stanford, no Vale do Silício. No livro, publicado em 2011, Morozov defendia uma tese absurdamente exótica à época. Ele mostrou como a democracia corria riscos num mundo tão conectado. Na época, a percepção era diametralmente oposta. Com as revoltas no Irã e no norte da África, as redes sociais pareciam ferramentas para libertar as pessoas e promover as liberdades civis. Tudo bobagem, dizia um solitário Morozov. Na época, ele já alertava tanto para a manipulação de mensagens por governos autoritários quanto para a vigilância eletrônica (alô, Black Mirror, alô, programas que rastreiam todas as suas compras). O futuro não era necessariamente promissor por causa da tecnologia. Hoje é difícil discordar dele.

O fato é que, em 2018, temos uma realidade paralela sendo construída numa plataforma inacessível e que pouca gente tem ideia de como lidar com ela. Não sabemos como será o futuro. Apenas sabemos que a realidade está sob ataque. Neste momento, manter a calma e separar fato de boato ganha áreas de missão urgente — e inescapável. Essa será uma das maiores lutas da nossa geração.


Assista ao nosso documentário "O Mito de Bolsonaro"


Atualização: Esta matéria foi atualizada depois da reportagem da Folha de S.Paulo que descobriu o esquema de disparo de mensagens no WhatsApp financiado por empresários.

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