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Coquetel molotov e jornalistas ameaçados no 7º dia de ataques no Ceará

O saldo de violência da última terça (8) aponta que o número de prisões aumentou no estado.

por Alfredo Henrique
09 Janeiro 2019, 12:34pm

Caminhão da Enel pegando fogo. Imagem feita por moradores.

Durante o sétimo dia de ataques no Ceará, ocorridos na última terça (8), criminosos continuaram incendiando veículos, distribuindo panfletos ordenando “toque de recolher”, além de ameaçarem o trabalho de jornalistas em Fortaleza e na região metropolitana.

Coquetéis molotov (bomba incendiária caseira) também foram encontrados ao lado do prédio onde funcionam as Coordenadorias de Assistência Farmacêutica e de Vigilância em Saúde do estado, após uma testemunha denunciar “movimentação estranha” de quatro suspeitos ao lado do imóvel.

“Um cara [que passava nas proximidades do prédio público] viu quatro criminosos manipulando combustível perto do muro [das coordenadorias]. Ele denunciou isso para a primeira viatura da polícia que viu. Os policiais viram vestígio de gasolina no chão”, disse uma funcionária do local, em condição de anonimato. Ela disse que a polícia realizou varredura em todo o muro e encontrou uma mochila com quatro coquetéis molotov.

Os criminosos também usam de estratégia para realizar os atentados. “O comandante [da PM] explicou pra mim que uma equipe [de criminosos] prepara os coquetéis e outra vem depois para atacar”, mencionou a funcionária.

O policiamento foi reforçado no entorno do imóvel pois nele são estocados medicamentos de alto custo.

Qualquer um pode ser alvo

Um cinegrafista cearense, que trabalha em um canal de televisão local, afirmou que foi orientado para que as equipes de reportagem da empresa saiam em carros “descaracterizados” e que os profissionais de comunicação também não usem identificações. “O negócio tá bravo por aqui em Fortaleza”, afirmou.

Ele disse também ter recebido ameaças por telefone, nas quais os prováveis criminosos falaram sobre atear fogo em uma antena de transmissão. “Mas tem algumas [emissoras] que estão com coragem de andar [com identificação], mas nossa equipe, por precaução, está andando com tudo descaracterizado”.

Além de ônibus e prédios públicos, criminosos também estão incendiando carros particulares, além de empresas que prestam serviços na capital. Segundo imagens enviadas à VICE, um caminhão da ENEL (antiga Companhia Energética do Ceará) foi incendiado por volta das 13h30 no Bairro Cristo Redentor.

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Van que vendia churros foi incendiada pelos criminosos. Imagem feita por moradores.

Nem uma van que vendia churros escapou de ser incendiada pelos criminosos.

Prisões crescem

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará informou que, até o fim da tarde de terça, subiu para 185 o número de prisões de acusados de envolvimentos nos atos criminosos. Do total de presos, 14 foram por conta de coação a comerciantes, para que fechassem as portas de seus estabelecimentos. Entre os detidos, 11 eram maiores de idade e três eram menores.

“O policiamento ostensivo continua reforçado nos locais estratégicos e dentro dos coletivos de Fortaleza e Região Metropolitana”, diz trecho de nota da pasta.

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Caminhão de lixo sendo escoltado pela PM. Imagem feita por moradores.

Prova da insegurança que paira pela capital cearense é a imagem de um caminhão de coleta de lixo que foi escoltado pela PM, também na terça-feira, na avenida Mister Hull.

A secretaria de Segurança do Ceará informou ainda que 191 internos foram indiciados por desobediência, resistência e motim dentro da Casa de Privação Provisória de Liberdade 3 (CPPL 3) e na Casa de Privação Provisória de Liberdade Agente Elias Alves da Silva (CPPL 4), em Itaitinga, que fica na região metropolitana de Fortaleza.

Fim dos ataques

Conforme noticiado pela VICE, um “salve” circulou entre segunda e terça-feira (8) na capital cearense e em cidades adjacentes. No documento assinado pelo “crime do estado”, é afirmado que os ataques serão interrompidos somente após a saída do secretário de administração penitenciária Luís Mauro Albuquerque.

O salve é usado para tornar pública uma ordem e também, nos bastidores do crime, para repassar informações e encaminhar ordens de superiores de dentro dos presídios (para execução de desafetos, inimigos, para que situações sejam resolvidas). A forma "clássica" do salve é feita mediante papel, mas os criminosos usam também o WhatsApp para alguns tipos de mensagem.

Denúncias

A população pode contribuir com as investigações repassando informações que possam ajudar na localização dos suspeitos. As denúncias podem ser feitas pelo número 181, o Disque Denúncia. O sigilo é garantido.

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