20 anos de 'OZ': a série que mudou a TV para sempre

No final do último milênio, a HBO deu sinal verde para um drama de prisão diferente, e a televisão nunca mais foi a mesma.

|
09 Junho 2017, 7:00pm

J.K. Simmons como Vern Schillinger. Foto: Larry Riley / HBO

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Esta matéria é sobre uma série mais velha que o Jaden Smith, então naturalmente tem spoilers.

Em 12 de julho de 1997, a paisagem da televisão – e o jeito como consumimos e nos relacionamentos com o entretenimento – mudou para sempre. Naquele dia estreou uma nova série dramática chamada OZ, que contava as histórias da unidade experimental Emerald City numa prisão fictícia de Nova York chamada Penitenciária Estadual Oswald. A série era sobre os carcereiros que a policiavam, os oficiais do governo que tentavam controlá-la, os médicos e padres tentando curá-la, e os prisioneiros que tentavam destruí-la. O programa foi criado por Tom Fontana enquanto ele ainda era roteirista de outra série, Homicide: Life on the Street, e foi o primeiro drama de uma hora de duração na TV a cabo. "Éramos esse posto avançado solitário na HBO", diz Fontana, "porque fomos a primeira série dramática lá, e naquela época estávamos fazendo o que achávamos certo – mas não sabíamos se alguém ia se interessar".

Antes de Fontana levar sua ideia para a HBO, o canal era voltado apenas para filmes. "Eles passavam longas, comprando bibliotecas de filmes dos estúdios", diz Fontana. "Na verdade, quando levei a ideia para Chris Albrecht [ex-presidente e CEO da HBO] e ele disse que queria OZ, fiquei exultante. Eu disse 'Sim! Vai ser incrível!', e todos os meus amigos na indústria disseram 'Por que você quer uma série na HBO? É um canal de filmes, ninguém vai assistir'. E eu dizia 'Bom, sim, mas eles vão fazer a série que eu quero fazer, então não me importo se ninguém assistir'. Como eu disse, era um lugar solitário há 20 anos."

Hoje em dia, a ideia de que seria ruim a HBO escolher sua série é inimaginável. Desde a estreia de OZ, o nome do canal se tornou sinônimo de programação de qualidade (fora Entourage e Vinyl – ninguém é perfeito). As séries que eles produziram – e continuam produzindo – dominam as conversas em torno do formato que eles levam o crédito por criar. Mas isso não é apenas um formato: as séries dramáticas – junto com a ascensão do DVD, capaz de armazenar mais episódios por disco que uma VHS, com qualidade maior – criou uma nova onda de consumo de TV.

OZ foi a gênese dessa maré de mudanças.

"Uma ideia muito repetida é que fui presciente", diz Fontana, "e sempre digo que não fui. Não havia uma grande visão para o futuro da TV a cabo – eu só sabia que esse cara ia me deixar fazer uma série louca de prisão, e sem nenhuma censura".

Vinte anos atrás, a televisão era bastante restrita pela atitude casta da América do Norte média, então séries como OZ eram uma ideia arriscada. Mas para Chris Albrecht, não era nem preciso pensar.

"Ele estava no clima para uma série de prisão", me diz Fontana. "Acho que ele viu o valor daquilo para seu público; eles tinham tido sucesso na HBO com documentários sobre prisões. Com tudo que faço, sempre começo com um personagem, então comecei a contar quem seriam os personagens principais ali. Ele disse 'Não me importo que eles sejam gostáveis ou não, desde que sejam interessantes'. Esse era meu mantra." E Fontana não teria problemas para encontrar atores interessantes para interpretar esses personagens. Na verdade, ele escreveu muitos dos papéis com pessoas específicas em mente.

Tom Fontana (esquerda) e Dean Winters no set. Foto: Eric Liebowitz / HBO.

Dean Winters – que interpretava o irlandês-americano manipulador e romântico Ryan O'Reilly – trabalhava num bar em Upper East Side em Nova York com o irmão, Scott, que interpretaria o irmão deficiente mental de Dean, Cyril, na série. Isso foi em 1992, quando Dean estava pensando seriamente em largar a carreira de ator, até que Fontana – que sempre bebia no bar de Winters – o visitou no set do thriller político de Mel Gibson Teoria da Conspiração.

"Eu estava no meu trailer, realmente achando que a vida de ator não era para mim", ele me diz por telefone. "O Tom veio e disse 'Olha, não desista ainda – estou fazendo uma série experimental para a HBO; é a primeira série deles e escrevi um papel incrível pra você'. Tom baseou meu papel em duas coisas; o personagem Iago de Otelo, e me ver atendendo no bar. Quando era bartender, eu tinha um mantra na minha cabeça: 'Se você sair do meu bar com o dinheiro do táxi, então fracassei'. Acho que o Tom viu algo cozinhando entre esses dois mundos, e foi assim que o personagem Ryan O'Reilly nasceu."

Winters não era o único membro do elenco que serviu Fontana numa vida passada. "Eu não sabia exatamente o que ele fazia", diz Lee Tergesen, que interpretava Tobias Beecher, um tímido homem de família alcoólatra que se tornava um amante psicótico. "Eu sabia que ele era um cara legal que sempre pedia peito de frango." Fontana encontrou Tergesen numa lanchonete em Chelsea, Manhattan, e foi assistir uma peça que ele estava fazendo.

"Ele frequentava a lanchonete. Eu e ele fazíamos piada um com o outro. Eu estava numa peça no centro com um bando de amigos. Na última noite, do nada, o diretor entrou e disse 'Tem um produtor [da série médica em que Fontana trabalhava] St. Elsewhere na plateia!' E quando ele disse o nome, pensei 'Quê?!' Isso foi em 1990."

Mas Tom Fontana encontrou todos os seus atores em bares e lanchonetes?

"Ele é um degenerado!", ri Tergesen.

Terry Kinney, que interpretava Tim McManus, atrás das câmeras. Foto: Eric Liebowitz / HBO.

Mas nem todo mundo foi fácil de elencar. Um dos personagens mais fascinantes na série era Kareem Saïd, interpretado pelo ator britânico Eammon Walker.

"Eu estava com muita dificuldade para achar alguém para aquele papel, porque os atores negros que vinham ler o roteiro ainda eram muito 'de rua'", explica Fontana. "Eu estava tentando achar alguém que tivesse uma – não uma santidade, mas uma certa nobreza. Estava muito difícil, e o começo das filmagens estava se aproximando. Um dia eu estava no telefone com Lynda La Plante [criadora de Prime Suspect], falando sobre o problema de achar alguém para esse papel, e ela disse 'Meu querido, conheço o ator perfeito. Vou mandar ele aí'.

"Agora, ela disse 'vou mandar ele aí' como se ele estivesse na 58th Street e ela só precisasse colocar o cara num táxi para a 13th Street, mas ela queria dizer que ele estava em Londres e ela o mandaria para Nova York. Eu disse 'Por favor, não faça isso', porque achei que o coitado ia descer do avião com jet lag, começar a ler o roteiro e seria uma droga, e eu ficaria péssimo por ele ter vindo até aqui. Mas ele entrou na sala e leu umas cinco linhas, e eu sabia que ele era o cara. A Lynda estava certa, claro."

"Cheguei lá e [Fontana] disse: 'Sabe, só estou falando com você porque adoro a Lynda, sei que você também adora a Lynda, então, ei, por que não fazer um teste'", diz Walker. "Fiz o teste para o personagem do Terry [Kinney], e [Fontana] me ligou pessoalmente enquanto eu ainda estava em Nova York e disse 'Não vai dar certo para esse papel, mas como seu teste foi extraordinário, vou te escrever um papel quando começarmos'. E eu disse 'Não precisa fazer isso, cara – não precisa ser simpático', e ele riu e disse 'Você realmente não sabe quem eu sou! Vou escreveu um papel pra você'. Levou uns dois ou três meses, e ele escreveu o Saïd para mim."

O personagem Kareem Saïd é excepcional de várias maneiras. Meio Malcolm X, meio Louis Farrakhan (pelo menos ele se acha), Saïd se vê como totalmente magnânimo, mas considerando a duplicidade de seu ambiente, sua devoção é eventualmente derrubada quando ele comete o pecado capital de se apaixonar por uma mulher branca. Era o tipo de personagem que Fontana nunca tinha concebido antes, talvez por isso tenha sido tão difícil achar um ator para ele.

"A coisa no muçulmano negro, juro por Deus, nunca tinha ouvido nem falar em algo assim quando comecei a ir para prisões [para pesquisar o papel]", ele diz. "Até li o Corão para tentar entender os fundamentos do Islã e não escrever nenhuma bosta."

J.K. Simmons como Vern Schillinger, durante a produção de Macbeth na prisão. Foto: Larry Rilley / HBO.

"Foi uma grande oportunidade para vários caras que não tinham muita experiência. Na verdade, eu era um dos mais velhos do grupo", diz JK Simmons, que interpretava o neonazi estuprador Vern Schillinger, a coisa mais próxima que a série teve de um vilão clássico. Simmons já tinha interpretado um nazista maligno em Homicide – que parece ter sido um campo de testes para o futuro elenco de OZ – e estava um pouco apreensivo em ficar marcado como esse tipo de personagem. "Pensei 'Pode ser uma série icônica, OZ', mas fiquei preocupado em acabar interpretando um bastardo nazista atrás do outro pelo resto da vida. Eu não queria isso, então, ao mesmo tempo que foi uma oportunidade gigantesca para mim, eu ainda estava um pouco preocupado."

As preocupações dele não só nunca se materializaram como foram na direção oposta. De todos os alunos de OZ, Simmons é o que tem a carreira de maior sucesso no mainstream desde que a série estreou, levando um Oscar por seu papel no estressante filme sobre bateria de jazz Whiplash.

Assim Fontana tinha seu elenco de atores jovens e relativamente inexperientes de detentos experimentais, e alguns profissionais calejados para a equipe do presídio, como Ernie Hudson e Rita Moreno. As primeiras temporadas também contavam com Edie Falco como a problemática mas estoica carcereira Diane Whittlesey. Falco receberia uma aclamação muito merecida por seu papel como Carmela Soprano, e como Jackie Payton em Nurse Jackie.

Tematicamente, OZ se equilibrava na linha estranha entre realidade bruta e ficção quase delirante. Havia muitos exemplos de violência típica de cadeia – brigas na academia, pessoas esfaqueadas, estupros, etc. – que eram cortados por trechos abstratos de narração e flashbacks saturados e confusos. Um dos exemplos mais famosos desse formato é o personagem Augustus Hill de Harold Perrineau, entregando seus sermões em cada episódio dentro de uma cela de acrílico.

"Queríamos que ele estivesse num espaço nulo", diz Fontana, "mas não queríamos cortinas pretas nem nada assim – queríamos algo com movimento e personalidade".


Augustus Hill era como um guia da série. Ele nem sempre estava na caixa de acrílico – às vezes era um faraó sendo abanada por escravas, ou outra referência histórica poética – mas sempre pontificando sobre as minúcias da vida, e como isso sempre se relacionava, de um jeito ou de outro, com a prisão. Fontana queria que o personagem de Hill também fornecesse uma visão maior das maquinações e contusões da humanidade, então o colocou numa cadeira de rodas.

"Uma coisa que veio de todas essas visitas a prisões é que os detentos não se abriam", me diz Fontana. "Eles tinham que se proteger, então não havia muitas discussões filosóficas entre eles, porque isso poderia expor algum tipo de vulnerabilidade. Tendo feito Homicide, onde os dois detetives apareciam dirigindo para a cena de um crime ou saindo dela, sempre conversavam filosoficamente sobre morte, vida, dinheiro ou qualquer coisa assim, percebi que eu não poderia fazer essas cenas em OZ, então pensei 'Bom, vou roubar dos gregos antigos e ter um tipo de coro grego, mas só um cara'.

"Eu queria que ele fosse negro ou latino, porque queria que o personagem fosse de uma minoria, mas aí o coloquei numa cadeira de rodas porque queria que ele estivesse numa minoria ainda menor, se você preferir. Como alguém que sofreu preconceito e o desafio de estar numa cadeira de rodas, achei que isso daria ao personagem de um tipo de conhecimento amplo de mundo; se ele fosse só um punk do Brooklyn, faria menos sentido. Fez sentido para mim que esse afro-americano numa cadeira de rodas teria mais entendimento de mundo que qualquer outra pessoa."

Também é importante notar que o personagem Augustus Hill é um dos – se não o – personagem negro deficiente mais visível da história da TV (fora, talvez, Stevie Kernarban em Malcolm in the Middle). A diversidade chocante em OZ não foi uma decisão consciente de Fontana para tornar a TV mais representativa, mas seus efeitos não foram menos importantes.

"Eu só estava tentando refletir a diversidade da população carcerária que vi quando estava fazendo a pesquisa nas cadeias", ele diz. "Para mim, essa parecia uma parte essencial da história – tinha toda essa nação americana resumida, colocada num único prédio, e eu queria dar uma ideia real de quão variada é a população ali."

Macbeth em OZ , com o personagem regular da série Craig Grant, AKA muMs da Schemer (esquerda), interpretando o Poeta, um dos poucos personagens que sobreviveu a todas as temporadas. Foto: Larry Riley / HBO.

A teatralidade da série é um de seus aspectos mais gloriosos. Muitos sucessos da TV hoje têm algo de extravagante (Game of Thrones sendo o exemplo óbvio), mas OZ fez isso muito mais descaradamente. Por exemplo, num dos pontos mais centrais da série: o assassinato de Vern Schillinger por Tobias Beecher durante a produção de Macbeth. Essa inteligência no tema muitas vezes se perde na memória coletiva do que foi OZ. Muitas pessoas com que falo sobre isso se referem à série como "cheia de estupros". Ela passava de madrugada no Reino Unido, e geralmente era assistida por garotos que não deveriam estar vendo.

"Sinto que a brutalidade do material e os choques que vinham um atrás do outro são a parte mais lembrada da série", diz Terry Kinney, que interpretou o chefe de Emerald City e a grande esperança branca Tim McManus (e também dirigiu alguns episódios). "Uma das coisas que as pessoas me dizem é 'Ah, eu queria assistir, mas não consegui olhar', e eu achava uma pena. Você perdeu o roteiro lindo e essas cenas longas. O roteiro era o principal elemento do que fizemos, não a brutalidade."

O coro de um homem só não era o único elemento de influência grega na série. O relacionamento tumultuado entre o sociopata Chris Keller (Chris Meloni), e o personagem Beecher de Lee Tergesen era de um amor vingativo como o de Aquiles e Pátroclo. Aquela também era, segundo Tergesen, uma época de muito homofobia na cultura popular.

Chris Meloni, Lee Tergesen e Tom Fontana. Foto por Eric Lieowitz / HBO.

"Na época, Will Smith fez um filme chamado Seis Graus de Separação onde Denzel Washington o aconselhou a não beijar um homem na tela", ele diz. "E ele não beijou, mesmo estando no roteiro [no filme a cena do beijo entre Smith e Anthony Michael Hall foi criada usando truques de câmera]. Tinha toda essa homofobia rolando, então eu disse: 'Ei, Chris, vamos sair para jantar [para falar sobre o enredo]', e a gente só se encontrou mesmo. E eu disse 'Olha, essa série é difícil, é violenta, feia e crua – deveríamos tentar fazer essa parte ser sexy'. Ele olhou pra mim e disse 'Uauu!' [risos]. Mas acho que conseguimos! E fico feliz de podermos ter feito do jeito como fizemos."

Foi outra primeira vez na história da TV – dois homens falando abertamente sobre transar um com o outro, num cenário tóxico de uma prisão de segurança máxima.

O relacionamento amistoso entre Meloni e Tergesen fora das telas não era um caso único em OZ. Algo que todos os atores mencionaram foi as amizades que eles compartilharam durante a duração da série. Todos disseram que a vibe era sempre boa. Mas claro que deve ter havido um ponto de tensão, uma pegadinha no set que deu errado? Uma facada quase real?

"Não lembro de nenhum momento assim, sabe? Todo mundo se dava bem", diz Kirk Acevedo, o ator por trás do gangster latino perturbado e emotivo Miguel Alvarez. "Nunca teve nenhum problema. Você se encontrava com pessoas diferentes todo dia e o trabalho era incrível. A gente arrasava em NovaYork, sabe? Éramos uns 20 caras, com uma diferença de cinco anos entre nós, mas saíamos quatro ou cinco noites por semana. Todo mundo tinha 20 e poucos anos. A gente trabalhava junto e ainda nos encontrávamos depois do trabalho! Tínhamos a noite do boliche, ou íamos assistir uma luta na HBO. Nunca vi nenhuma confusão."

Acevedo foi, além de Edie Falco, o primeiro membro do elenco a realmente colher os frutos do crescimento da HBO. Conforme as temporadas passavam, mais séries entravam em produção – Sex and the City, The Sopranos e Six Feet Under, só para citar algumas. Mas o "grande sucesso de bilheteria" com o nome da empresa veio com a minissérie épica da Segunda Guerra Mundial Band of Brother, com produção de Stephen Spielberg. Avecedo conseguiu um papel como o sargento Joe Toye. Mas Band of Brothers era uma operação totalmente diferente de OZ. A amizade e camaradagem do set de Fontana não estavam ali; agora, Acevedo estava trabalhando num ambiente mais sério, com alto valor de produção, e não conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

"Falei com Tom Fontana e disse 'Olha, consegui um papel – é Spielberg, cara; são 11 meses e é uma grande oportunidade'. Meu representante disse 'Vamos fazer a ligação', mas para mim – e tenho certeza que para muitos dos outros caras também, como o Dean e o Lee – nunca deixaríamos nossos representantes ligarem para o Tom em nosso nome para fazer uma pergunta ou exigir alguma coisa. Eu disse ao meu pessoal 'Tenho que falar eu mesmo com o Tom'. Então fui até o escritório dele e contei. Ele olhou pra mim e disse 'Você ainda quer fazer parte da série?' E eu disse 'Claro!' E ele disse 'Você quer escapar? Depois te capturamos de novo?' E eu disse 'Sim!' E ele respondeu 'Certo, vamos fazer'. Eu sabia que o Tom queria fazer isso com [outro personagem, o Simon] Adebisi, mas não queria fazer com uma pessoa atrás da outra porque enfraqueceria a série. Essa é a diferença entre OZ e Band of Brothers, fora a escala, claro, as pessoas, a massa... Tem uma intimidade e confiança numa equipe menor que você não consegue numa equipe grande."

Funcionários e prisioneiros da Penitenciária Oswald se preparam para assistir Macbeth. Foto: Larry Riley / HBO.

E essa união de toda a equipe não acabava nesse senso de irmandade. No final da segunda temporada, o personagem de Acevedo, Alvarez, fura os dois olhos de um guarda a mando do chefe de sua gangue, Raoul Hernandez (interpretado por Luis Guzmán). E tudo porque Hernandez questiona a lealdade de Alvarez por ele ser mais branco que os outros membros da gangue – uma cena que foi o resultado incomum do relacionamento colaborativo entre elenco e produtores.

"Depois de cada temporada, Tom sentava com a gente – o que é inédito, aliás; os produtores não fazem isso, e trabalho na indústria há vinte anos", diz Acevedo. "Foi o único produtor que, depois de cada temporada, sentou comigo, e com o elenco inteiro individualmente, e perguntou 'O que você achou da temporada? O que você acha da progressão do seu personagem? O que você quer fazer na próxima temporada?'

"Uma das coisas que vi quando garoto – sou porto-riquenho, e fui criado em South Bronx. Como cultura, temos todas as formas, tamanhos e cores. Eu tenho essa piada, o pessoal do Caribe – significando Cuba, República Dominicana e Porto Rico – fomos fodidos por todo mundo, certo? Tenho tios que são negros, primos loiros de olhos azuis. Crescendo no Bronx, eu tinha uma pele mais clara. E briguei várias vezes porque me chamavam de 'garoto branco' ou algo assim, o que eu não era. Mencionei isso pro Tom e ele escreveu todo aquele arco na segunda temporada."

Tom Fontana em Emerald City. Foto: Eric Liebowitz / HBO.

A única coisa mais evidente entre o elenco que sua amizade no tempo que passaram juntos em OZ é a reverência universal ao criador da série, Tom Fontana. Ele aparece como um patriarca gentil, guiando seus atores pela adolescência de suas carreiras, um beijo gay, uma facada no banho, uma cena de sexo na cela, uma infecção intencional por HIV, uma execução, um suicídio, um estupro, um assassinato, um casamento, uma fuga, uma peça do Shakespeare feita por presidiários de cada vez. É essa admiração por Fontana e o que ele criou sentida pelos atores da série é o que gera episódios explosivos como o de Dean Winters no The Artie Lange Show, quando um ouvinte ligou para dizer que os primeiros episódios da série eram clichês.

"É algo muito pessoal para mim", ele diz. "Conheci o Tom em 92 e começamos a filmar em 97, então já tínhamos uma irmandade de cinco anos. Meu irmão interpretava meu irmão. Meu outro irmão era um dos roteiristas [Brad Winters]. Além de tudo isso, a coragem da pessoa de se referir ao primeiro episódio como 'clichê' – você está louco? Não tenho tempo pra essa gente, esse pessoal sem educação, gente que votou no Trump. Tenho zero paciência, zero respeito e zero tempo para eles... Eu estava lá desde o começo. Fui com o [Tom] assistir Romeu + Julieta porque ele estava pensando em escalar Harold Perrineau, e o Tom disse 'Quero sua opinião sobre esse cara'. Eu estava lá desde o comecinho, então é algo muito pessoal. Quando alguém começa com uma frase idiota como 'é clichê', só penso 'vai se foder'. Tudo que o Tom toca – sexo, religião, drogas, família, violência, ética, moral – é com um toque de mestre, e levo para o lado pessoal quando alguém quer resumir isso numa palavra."

Parece que é preciso uma pessoa estranha e única para fazer uma série tão estranha e única. A abordagem de Fontana para fazer OZ, e fazer do seu jeito, é o que dá ao programa uma estranheza prazerosa fenomenal. É como uma viagem de cogumelo, mergulhamos numa realidade temperada com toques de peculiaridade. É um estilo de fazer TV que nunca foi realmente replicado, um big bang de ideias que formou as constelações e galáxias que vemos na TV e online hoje. Sem os riscos que OZ assumiu, a televisão não seria a mesma.

Porque não é uma questão de fazer algo diferente; é preciso fazer com excelência. Se não for excelente, por que tentar?

Agradecimentos especiais a Bill Butler, Diego Aldana, Andrew Loane e Matthew Nemeth pela ajuda com este texto.

@joe_bish

Tradução: Marina Schnoor