Quem quer ser presidente

Ciro Gomes: o persistente cearense de Pindamonhangaba que quer conquistar o Brasil

Na série de apresentação dos presidenciáveis para 2018, a VICE conta a trajetória de Ciro Gomes, candidato do PDT.

por Fernando Cesarotti; ilustrado por Cassio Tisseo
31 Agosto 2018, 10:00am

Ilustração: Cassio Tisseo

Preparado. Bocudo. Inteligente. Destemperado. Honesto. Briguento. Coronel com roupagem moderninha. Você já deve ter visto essas e outras definições sobre Ciro Ferreira Gomes, o candidato de 59 anos que, pela terceira vez, a primeira pelo PDT, se lança na tentativa de ser presidente da República. Se as definições acima são discutíveis, de uma não se pode duvidar: o homem é persistente (há quem chame de teimosia).

Nascido em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, interior paulista, quase o meio do caminho rodoviário entre o Rio e São Paulo, Ciro tinha quatro anos quando a família foi morar em Sobral, uma das maiores cidades do interior do Ceará. Era a terra de seu pai, José Euclides Ferreira Gomes, um defensor público que tinha parentes comerciantes e servidores. Ciro estava saindo da adolescência quando viu a política rondar pela primeira vez: em 1976, seu pai saiu como candidato a prefeito de Sobral pela Arena, o partido de sustentação do regime militar.

A essa altura, Ciro já estudava Direito em Fortaleza e começava ele mesmo a se envolver com a militância política dentro da universidade Federal do Ceará. Em entrevista ao “Roda Viva” em 1991, contou que se aproximou da esquerda católica e do PCB, sem chegar a se filiar formalmente. De volta a Sobral, em 1982, já formado e trabalhando como professor universitário, saiu candidato a deputado estadual pelo... PDS, o sucessor da Arena. A explicação dele, na mesma entrevista: o PMDB ainda não tinha diretório municipal em Sobral e ele não quis se desentender com o pai, que tentava eleger o sucessor. Eleito, deixou o partido e se filiou ao PMDB no dia seguinte à posse.

Reelegeu-se em 1986, na famosa eleição em que o partido, impulsionado pelo Plano Cruzado de José Sarney, fez 22 dos 23 governadores — no Ceará, o escolhido, com apoio de Ciro, foi Tasso Jereissati. Com bom papel como líder do governo na Assembleia, Ciro foi a escolha natural do partido para se candidatar a prefeito de Fortaleza, nas eleições de 1988. A capital vivera dias turbulentos nos três anos de governo de Maria Luiza Fontenelle, a primeira grande experiência do PT no comando de uma capital, mas a vitória de Ciro, numa eleição ainda sem segundo turno, foi apertada: teve apenas 5.317 votos a mais que o segundo colocado, Edson Silva, do PDT — menos de 1% dos votos válidos.


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No ano seguinte, mudou de partido de novo: após a escolha do decano Ulysses Guimarães para se candidatar à Presidência em 1989, foi para o PSDB, acompanhando Tasso, para apoiar a candidatura de Mário Covas. Foi como tucano que se elegeu governador, em 1990, estimulado pelos altos índices de aprovação na prefeitura. Venceu com mais facilidade que dois anos antes, no primeiro turno, com 54,3% dos votos. Mais uma vez, porém, não completou o mandato: em 1994, foi chamado às pressas pelo presidente Itamar Franco para assumir o Ministério da Fazenda, no lugar de Rubens Ricupero, num dos momentos de maior transparência involuntária da história da República.

Ricupero, diplomata de formação, assumira a pasta após Fernando Henrique Cardoso, que deixou o Plano Real engatilhado e saiu para ser candidato a presidente. Foi ele o ministro responsável para que a nova moeda entrasse em vigor, em 1º de julho, no primeiro plano econômico bem-sucedido em anos contra a inflação. Dois meses depois, Ricupero conversava com o jornalista Carlos Monforte, da TV Globo, em Brasília, sem saber que o sinal estava sendo transmitido por satélite e pôde ser captado por antenas parabólicas dizendo, entre outras coisas, que o IBGE era “um covil do PT”, além das frases que entraram para a História sobre a relação com a mídia: “Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Gerou uma crise dos diabos e ele acabou caindo. Ciro foi escolhido para apagar o incêndio e, entre outras coisas, teve de ir à TV após a vitória de FHC, em cadeia nacional, para criticar “candidatos que tentaram desestabilizar o Plano Real”. (Um trecho pode ser visto no documentário “Arquitetos do Poder”, a partir de 1h02m30s:, no player abaixo). Era uma patada em Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, então os principais nomes da oposição.

Nos quatro meses como ministro, Ciro teve tempo de se desentender com a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que criticou a queda de tarifas de importação. “Estou pouco ligando se a Fiesp me apoia ou não. Quero ser apoiado pela população e pela minha consciência”, disse. Sem cargos no governo FHC, foi estudar em Harvard, na escola de Direito, e aos poucos foi se distanciando do PSDB. De volta ao Brasil, em 1997, filiou-se ao recém-criado PPS — uma versão remodelada do velho PCB sob a liderança do pernambucano Roberto Freire. Pela legenda, Ciro candidatou-se pela primeira vez à Presidência, em 1998. Ficou em terceiro lugar, atrás de Fernando Henrique, reeleito, e Lula, que desta vez tinha Brizola como vice. Foram mais de 7,4 milhões de votos, 10,97% dos votos válidos.

Quatro anos mais tarde, Ciro voltou a se candidatar pelo PPS. Em 2002 o cenário do Brasil era bem diferente de quatro anos antes: o país havia passado uma crise energética que resultou no infame “apagão”, com um racionamento pesado de energia elétrica, nos grandes centros, a inflação ameaçava subir e o dólar, puxado pelos especuladores, se aproximou pela primeira vez dos R$ 4. Lula era então o grande favorito; Ciro corria por fora, tentando fazer uma imagem de moderado; e José Serra saiu pelo PSDB, depois de ser ministro de FHC nos dois mandatos, tendo a palavra “mudança” como mote da campanha.

Foi então que surgiu a fama de “brigão” e “destemperado” de Ciro, que tinha se separado de sua primeira esposa e casado com a atriz Patrícia Pillar, então recém-recuperada de um câncer. Ela o acompanhou em vários eventos da campanha, e num desses dias, ao ser perguntado sobre o papel dela na campanha, Ciro respondeu: “Ela dorme com o candidato”. Foi o suficiente para receber também a pecha de machista. Os rótulos colaram — tanto que neste ano Patrícia, que está separada do político desde 2011, teve de dizer que ele não é machista numa entrevista.

Ciro, que chegou a disputar a liderança das pesquisas com Lula, acabou a eleição em quarto, atrás de Lula, Serra e até de Anthony Garotinho, que saiu pelo PSB. Ainda assim, aumentou seu capital de votos: foram mais de 10 milhões, ou 11,97% dos votos válidos. No segundo turno, apoiou Lula contra Serra, e ganhou em troca o cargo de ministro da Integração Nacional. Sua grande obra foi organizar e planejar a transposição do Rio São Francisco, concluída apenas no ano passado. Durante o mandato, trocou o PPS pelo PSB e, em 2006, candidatou-se a deputado federal.

Foi, proporcionalmente, o mais votado do país, com 16% dos votos dos cearenses, na última eleição que disputou até hoje. Como parlamentar, teve uma atuação discreta e decidiu não se candidatar à reeleição e nem disputar nenhum cargo. De lá para cá, chegou a ser secretário de Saúde do Ceará, como subordinado do irmão, Cid Gomes; chegou a fazer bico de comentarista esportivo da rádio Verdes Mares, em Fortaleza, além de ocupar empregos no setor privado — foi presidente da Transnordestina Logística, empresa ligada à CSN, mas deixou o cargo, oficialmente, para evitar represálias à empresa depois da posse do presidente Michel Temer, já que havia sido crítico feroz do impeachment de Dilma Rousseff.

Depois de deixar o PSB, Ciro filiou-se ao recém-criado PROS e depois foi para o PDT. Nos últimos anos, rodou o país em palestras, especialmente em universidades, como uma forma de alavancar a candidatura à presidência. Chegou a negociar um acordo com Lula, mas incomodou-se com a postura do PT e decidiu manter sua própria campanha, cujo destaque midiático nas últimas semanas foi a proposta de ajudar os brasileiros a limpar o nome justo às instituições financeiras.

De uma forma geral, Ciro apresenta uma proposta voltada à esquerda, apostando no desenvolvimentismo, ou seja, no governo como indutor do crescimento do país. Promete modificar a reforma trabalhista implantada no governo Temer, devolvendo direitos aos trabalhadores. No último Datafolha, obteve 5% das intenções de voto.

Ciro Ferreira Gomes
Formação: Bacharelado em Direito, pela Universidade Federal do Ceará
Idade: 60
Patrimônio: Não declarou bens
Trajetória (partidos): PDS-PMDB-PSDB-PPS-PSB-PROS-PDT
Vice: Kátia Abreu (PDT)

Acompanhe as trajetórias de todos os presidenciáveis na série Quem quer ser presidente . Novos perfis toda segunda, quarta e sexta.

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