Nova equipe do MEC reunida durante cerimônia de transmissão de cargo em Brasília, 2/1/2018. Foto: Luis Fortes/MEC/Divulgação

Quem é quem no bilhar do novo Ministério da Educação

Levando em conta o histórico da equipe do ministro Ricardo Vélez-Rodriguez, a nova gestão promete uma boa dose de perseguição ideológica e revisionismo histórico.

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08 Janeiro 2019, 2:18pm

Nova equipe do MEC reunida durante cerimônia de transmissão de cargo em Brasília, 2/1/2018. Foto: Luis Fortes/MEC/Divulgação

Em seu discurso de posse feito dia 2 de janeiro, Ricardo Vélez-Rodriguez, novo Ministro da Educação, exaltou os esforços do presidente empossado Jair Bolsonaro em "ouvir os mais pobres" em seu desejo por acabar com a "pregação ostensiva" do chamado Marxismo Cultural e ressaltou o orgulho de trabalhar ao lado de "jovens secretários" alinhados com a "formação humanística" dos autores Olavo de Carvalho e Antonio Paim.

A citação a Antonio Paim, escritor conhecido por suas publicações voltadas à história do liberalismo no país, por sua juventude à frente do Partido Comunista do Brasil e período no qual morou na extinta União das Repúblicas Soviéticas, foi feita pela primeira vez no novo governo no discurso de Ricardo Vélez — diferente de Olavo de Carvalho, onipresente nas falas de membros da família Bolsonaro e no discurso do ministro das relações Exteriores. A presença de Paim em um pronunciamento oficial é nova e reforça uma aproximação liberal de viés revisionista no novo Ministério da Educação.

Autor de livros como "Para entender o PT", "História do liberalismo no Brasil" e "Dicionário das obras básicas da cultura ocidental", Antonio Paim não possui currículo na plataforma Lattes — tradicional base de pesquisa de acadêmicos do ministério da ciência, tecnologia, inovação e comunicações (CNPQ) — e é frequentemente citado em blogs como Mises Brasil, onde recentemente concedeu uma entrevista via podcast, e também no Proyecto Ensayo Hispánico, site no qual sua biografia foi escrita pelo próprio Ministro Ricardo Vélez.

A influência do historiador é visível também no texto "Um roteiro para o MEC", também escrito por Ricardo Vélez em seu blog pessoal, antes de sua nomeação. No texto, Ricardo utiliza o conceito de patrimonialismo de estado proposto por Paim, onde o ministro argumenta que as estruturas públicas foram emparelhadas pela gestão petista e atuam na inserção de pautas como a chamada "teoria de gênero".

“[O MEC tornou] os brasileiros reféns de um sistema de ensino alheio às suas vidas e afinado com a tentativa de impor, à sociedade, uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista"

Assim como o novo ministro e ambos os autores citados como principais ideólogos da nova gestão, nenhum dos indicados aos cargos de confiança possui experiência prévia em gestão educacional. O anúncio dos nomes que assumem as secretarias que compõem o MEC e as autarquias federais foi feito na última quarta-feira durante a cerimônia de transmissão de cargos.

As indicações feitas ao ministério e secretarias trazem em seu discurso os tópicos já apresentados durante toda a campanha da chapa PSL, e tem como finalidade incutir no MEC uma posição de bastião da defesa da moral judaico-cristã, que sirva de resposta rápida à guerra imaginária contra o marxismo cultural.

Apesar do enfoque feito pelo Ministro durante a cerimônia de posse aos projetos de alfabetização no país, apenas três dos dez indicados apresentam alguma experiência no ensino básico. São eles: Alexsandro Ferreira de Souza, secretário de educação profissional e tecnológica, Bernardo Goytacazes de Araujo, secretário de modalidades especiais de educação Superior, e Carlos Francisco de Paula Nadalim, secretário de alfabetização. A equipe de transição do ministério que atuou nos últimos meses do governo Temer não se manteve na nova gestão, sendo Ricardo Vélez o único nome já presente no ministério antes da posse.

Carlos Nadalim é o primeiro secretário à frente da recém-criada pasta de alfabetização. Sua indicação foi feita por Olavo de Carvalho, ideólogo da família Bolsonaro a quem também foi oferecido o próprio cargo de ministro da educação. O novo secretário faz parte do grupo de indicados que são alunos e ex-alunos do autointitulado professor e filósofo que compõe a direção do MEC. A indicação de Nadalim teria sido feita graças ao seu canal de YouTube, no qual ele fala sobre educação e expõe suas ideias sobre alfabetização.

Nos vídeos do canal "Como educar seus filhos", Carlos crítica Paulo Freire, defende o ensino domiciliar para crianças e sua técnica de alfabetização chamada Método Fônico, que se diferencia da tradicional por priorizar o aprendizado dos sons antes do foco na interpretação e leitura de textos. Criado em 2013, o canal obteve relativo sucesso com 163 mil inscritos no YouTube e foi a inspiração para o lançamento de dois livros. Entre os vídeos, Carlos faz uma série de entrevistas com nomes como Olavo de Carvalho e o padre Paulo Ricardo.

Formado em Direito pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em educação pela mesma universidade, Carlos Nadalim, até a nomeação para a secretaria, atuava como coordenador da Escola Mundo do Balão Mágico, fundada por sua mãe no Paraná.

A subpasta da alfabetização foi anunciada no Twitter do presidente Jair Bolsonaro, juntamente com o fim da secretaria de diversidade, e é a única pasta inédita no ministério. Entre os demais, se destaca o número expressivo de secretários formados nos campos da engenharia, ciências da religião e em instituições como Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e Fundação Getúlio Vargas. Na secretaria de educação básica está a única mulher indicada, Tânia Leme de Almeida, com passagem na gestão de cursos de formação técnica do Centro Paula Souza, responsável pela ETEC e FATEC em São Paulo.

Nas autarquias, o instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) ficam sob a gestão dos engenheiros Marcus Vinícius Rodrigues e Anderson Ribeiro Correia, e são até o momento onde se concentram as principais medidas contra a chamada "ideologia marxista" citada por Ricardo Vélez.

Na CAPES, responsável pela pós-graduação, se estuda a aplicação de critérios eliminatórios para se conceder bolsas de estudo para formação no exterior e até mesmo o rompimento de algumas bolsas já concedidas caso os alunos não estejam alinhados ideologicamente com o novo governo, segundo o jornal O Globo.



No INEP, Murilo Resende foi indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para a formulação do ENEM. Aluno dos cursos de formação livre de Olavo de Carvalho, Murilo é professor universitário em Goiânia e autor de artigos como A Escola de Franfkurt: satanismo, feiúra e revolução e a tradução de textos como A praga do cientificismo. Em 2016, em uma audiência do Ministério Público Federal, o novo responsável pela direção do maior vestibular do Brasil afirmou que professores do ensino público pregam o aborto, incesto e pedofilia, e que escondem suas reais intenções driblando a confiança dos pais dos alunos. Em outra palestra anti-globalista feita em 2018, o professor também reclama dos desenhos animados atuais e diz que "todos os personagens são homossexuais".

Medidas como a criação de critérios ideológicos para a aprovação e desenvolvimento de carreira dos professores no Brasil, o alinhamento das instituições públicas a ideólogos revisionistas históricos e a nomeação de profissionais que não pertencem a academia levantam a questão sobre uma possível administração revanchista, que beira o punitivismo a determinados segmentos entendidos pela nova chapa como alinhados às gestões anteriores. A insistência de Ricardo Velez-Rodrigues em manter seus alunos nos cargos comissionados foi criticada por servidores do ministério e causou o desligamento de Antônio Flávio Testa da equipe de transição de governo, no dia 28 de dezembro, antes mesmo da posse.

As dúvidas sobre as implicações das novas medidas e até mesmo quais medidas serão aplicadas na nova gestão geram desconforto não somente dos membros do alto escalão do secretariado público, mas também dos professores. "Não podemos ter um ministério a serviço de uma política de governo ou uma ideologia, ainda mais quando ela é anti cientificista e revisionista histórica. A suposta proposta de critério ideológico para o financiamento de pesquisas, por exemplo, além de ser inconstitucional é muito danosa" afirma Vinicius Pintor, professor de filosofia do ensino médio.

Após as nomeações, ambos os blogs pessoais de Murilo Resende e do novo ministro Ricardo Vélez-Rodriguez foram excluídos.

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