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Ilustrações por Ashley Goodall.

A depressão rouba sua alma e depois leva seus amigos

PorNot In UseTraduzido porMarina Schnoor

É fácil cortar amizade com alguém difícil, distante e decididamente “diferente”. Especialmente se a pessoa se afasta primeiro.

Ilustrações por Ashley Goodall.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Austrália .

A depressão é uma ladra. Ela rouba seu tempo, seus pensamentos e seu senso de eu. Mas antes de tudo, ela leva seus amigos.

Diferente do suicídio, a depressão opera num ritmo lento mas constante. Um suicídio é um ruído alto que rasga vidas desconectadas: isso é reconhecido e sentido instantaneamente. Mas afundar no isolamento antes do suicídio, no pântano da doença, raramente é tão notado. Geralmente discutimos a escuridão, não o crepúsculo. Sendo assim, é difícil para os amigos saberem como interagir emocionalmente com a depressão, especialmente porque ela se desenvolve durante um longo tempo.

Para mim, a combinação de bipolaridade, transtorno boderline e depressão criam uma cápsula de cianureto que seguro constantemente entre os dentes em todos os relacionamentos. Infelizmente, isso é quase uma garantia de que uma hora minhas amizades acabam todas envenenadas.

E eu entendo. Para aqueles ao meu redor, é muito mais fácil cortar amizade com alguém difícil, distante, desagradável e decididamente "diferente". Especialmente se a pessoa se afasta primeiro.

Revivi essa história na minha cabeça milhões de vezes: um dos meus melhores amigos – um escritor incrivelmente talentoso e um cara muito legal – começou lentamente a retroceder para dentro de si mesmo. Ele tirou todos os amigos do Facebook, parou de responder ligações e mensagens de texto, e depois se trancou em seu quarto como um ermitão. Todo mundo sabia o que estava acontecendo. Amigos me ligavam perguntando "Você tem visto o X? O X está bem? A gente deveria visitar o X?"

Mas ninguém realmente foi visitá-lo. Isso foi dois anos atrás e nenhum de nós o viu ou falou com ele desde então. Ele não morreu, mas não está mais presente. Trancado na cabana na montanha de sua própria mente. Perder um amigo assim é como ver um fantasma passando pelas duas paredes de um corredor – um desaparecimento que te deixa com um sentimento de incerteza.

Ano passado, caí de volta no meu próprio sono depressivo, e comecei a copiar os mesmos comportamentos. Fui basicamente queimando pontes pelo caminho, o que em seis meses me fez perder mais amigos do que alguém que se orgulha publicamente de ter votado no Trump.

Uma hibernação depressiva não é como um exílio proposital, mais um lento trancar de portas. Quando sua mente está grogue e seu dia é um loop de inação e pensamentos desesperados, é difícil juntar forças para ir à festa de um amigo, tomar um café ou simplesmente responder uma mensagem. Na minha própria experiência, a doença te convence tão bem do quanto você é escroto, que você começa a ver sua ausência como um favor deformado que faz aos seus amigos.

Você se cala por medo de que seu grito interno perturbe a vibe dos outros.

Ilustrações por Ashley Goodall.

Esse medo de estragar a diversão dos outros se enrola num cobertor de culpa. Depressivos – os loucos em geral – carregam muita culpa. Você acaba colocando as pessoas pra baixo. A depressão é um turbilhão com uma força gravitacional pegajosa. Entes queridos que são alegres, empáticos e preocupados com você vão se gastando como pedregulhos numa praia. É impossível colocar tanto amor e preocupação numa pessoa incapaz de ser recíproca, e sabemos disso. Quantas vezes senti minha língua inchar e vacilar numa tentativa de dizer um simples "obrigado".

Gratidão pode ser desconfortável e embaraçosa por várias razões. É difícil dizer para a sua namorada que só de estar ali, assistindo desenhos animados com você, ela está te mantendo vivo, porque isso coloca um peso exagerado no que deveria ser uma tarde comum. Isso também coloca um fardo sobre a pessoa que não tem – e não deveria ter – a capacidade de te carregar e curar o incurável.

Tenho muito medo que minha gratidão, ou aparente falta dela, leve a uma desculpa infinita. Já me vi me desculpando com alguém que amo por ser o que sou, e há uma erosão constante na fé interpessoal quando um parceiro ou amigo é incapaz de entender a razão para o outro amá-lo.

Nessa descrença, a doença intoxica. Já disse a amigos que a companhia deles me enjoava, já disse aos meus pais que eles deformaram meu cérebro, já disse para a pessoa que eu amava que ela tinha permitido que eu roubasse uma fração da vida dela, e que isso a tornava, de algum jeito, culpada.

É verdade que a depressão é tanto universal como fundamentalmente solitária. Ela refrata a identidade como um cristal negro, e o que nos ensinam é que a experiência neuroquímica sentida por muitos é obstinadamente única e só sua. Você sente isso de maneira tão forte que pode convencer àqueles ao seu redor de que esse é o caso. Aí, de repente, todas as partes te entendem como um caso perdido.

Ativistas da saúde mental sempre repetem a narrativa de estender a mão – para pedir ajuda e ajudar. Mesmo concordando que esse é o melhor método, a maioria das pessoas não está equipada para fazer isso, e a culpa que brota dessa fenda de deficiência é em si altamente destrutiva. Senti isso de maneira aguda quando fui incapaz de ajudar meu amigo, e sinto isso agora sendo incapaz de pedir ajuda para mim.

A razão para o Dia Mundial da Saúde Mental ser apenas um dia por ano é que as pessoas têm uma paciência limitada para doenças mentais, e nove entre 10 normais (ou neurotípicos) acham que você está assistindo 13 horas de Frasier por dia porque é preguiçoso.

A realidade perturbadora é que a depressão sozinha não pode fazer uma pessoa desaparecer. Os amigos têm um papel nesse desaparecimento. E é essa verdade desconfortável a razão para não conversarmos sobre isso. E também porque a simpatia não é infinita.

Acho que se aceitarmos que, nem os doentes, nem as testemunhas são culpáveis, podemos encontrar uma aparência de paz. Nessa admissão difícil, podemos ver a depressão como a ladra que ela é, e interromper o fluxo de loucura e sofrimento nas nossas vidas.

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