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Uma entrevista com Danny Brown sobre rap, drogas e sua cidade natal

O rapper de Detroit falou com sinceridade sobre os seus 15 anos de hip-hop.

por Zach Goldbaum
04 Julho 2016, 6:00pm


Danny Brown no NOISEY Detroit

Nos encontramos com Danny Brown em uma aula de poesia que ele ministrava como professor convidado, perto do centro de Detroit. Ele estava contando a uma turma de estudantes do ensino médio sobre seu processo de escrita, que comparou ao de cozinhar uma carne de panela. Você pode dar uma chegada no McDonald's, mandar tudo pra dentro, e curtir. “Mas, se eu me permitir o longo tempo de preparar uma carne de panela”, disse ele, “vai ser uma coisa muito gratificante, você vai comer toda a proteína que precisa, e na hora de requentar vai estar delicioso!” Faz quase três anos que Danny soltou um disco pela última vez, e, embora ele tenha dado a entender que concluiu um novo disco, não há pressa de lançar. Ele, contudo, já sugeriu que vai ser uma carne de panela de primeira.

Enquanto a música dele fica lá marinando, Danny se mantém ocupado em sua casa, nos subúrbios de Detroit, criando a filha e passando um tempo com a família, na região de Linwood, onde cresceu. Danny será sempre uma criança presa em um desengonçado corpo de adulto, mas ele também amadureceu e passou a adotar um papel de irmão mais velho na cidade. Está promovendo seu colega de gravadora (a Bruiser Brigade), ZelooperZ, que conheci numa festa em um loft, com um ou dois tanques de óxido nitroso, o gás hilariante, e uns poucos rappers trocando versos em palcos improvisados. É esse o tipo de encanto de Detroit: prédios que um dia foram abandonados proporcionam hoje um enorme espaço estranho. E não ter pressa pressa sendo esquisito, é exatamente o que Danny sempre foi e continua sendo.

Conversei com Brown do lado de fora da casa de sua mãe, em Linwood, sobre rap, família, drogas e sua cidade natal. Acompanhe.

Noisey: Que tal é esse bairro aqui?
Danny Brown:
Dá pra viver. É bom. Porra. É como todos os outros bairros de Detroit, tá ligado? Teve um tempo que era bom, mas agora tá todo fodido.

Como foi passar a infância em Detroit?
Acho que isso foi tipo final dos anos 80 ou início dos 90, então muita droga circulava ainda. Tipo, o crack ainda estava a pleno vapor, tipo, hoje as pessoas não tão fumando essa porra. Não tem mais cracudo roubando a TV da sua casa. Você tem que lembrar o seguinte, foi naquela época que a parada tava desse jeito, tá ligado? Não era pouco; era uma coisa incerta. Você entrava numa loja e qualquer coisa podia acontecer. Nessa região aqui tem mais família, famílias unidas. Todo mundo daqui está aqui desde sempre. Minha mãe nasceu nos anos 60, então ela está aqui desde os anos 60. Naquela época todos os vizinhos que estavam aqui estavam desde sempre também. Ou a família deles ou alguém dali, então esse é mais um bairro família, mais do que era a parte leste da cidade. Então eu podia ir andando até a loja ali e talvez até conhecesse alguém, mas o nego sabia que aquele era o filho [da Toya]. Tá ligado?

O que mudou quando o crack desapareceu?
O que mudou quando o crack — não estou dizendo que o crack desapareceu de verdade. [Risos] Tipo, início dos anos 2000 eu vendia crack, então você tá falando dos anos 80, início dos 90, então. Não houve nenhuma mudança, nenhuma mudança, o que você quer dizer? Tipo, eu não entendo.

Foi uma epidemia nos Estados Unidos.
Ah, então as pessoas começaram mesmo a fumar crack e tal? Tipo, não necessariamente fumar crack, mas acho que na época, pra mim, vendo a coisa de fora, acho que sempre vejo como se tipo esse lance todo de crack tivesse começado como uma coisa que se fazia em festas. As pessoas só se ligaram de uma coisa. Pessoas que começaram a usar crack sabendo que o crack ia foder com a vida delas. Começou com uns negos idiotas farreando, se divertindo, e eles cheiravam cocaína, daí apareceu o crack e eles começaram a usar. Então surgiu a geração do crack e pá, pá, e aí toda a nossa geração foi educada a dizer não às drogas. Faça o que quiser com a sua vida, só não usa a porra do crack. Pode sair por aí roubando uns bancos. Tô nem aí se você fizer isso, é uma coisa que eu não faço, mas não use a porra do crack, ou ninguém vai querer chegar nem perto de você, você vai ser só tipo um merdinha.

Então a nossa geração toda não fumou crack, e você tem que considerar que surgiu todo o lance da maconha. Quando saiu The Chronic, do Dr. Dre, tudo mudou. Todo mundo com um banza na boca. Banza pode fumar, ninguém tinha que mexer com essa porra de crack porque a gente sabia que o lance era fumar maconha.

Banzas são bem mais inofensivos.
Tenho poucas dúvidas de que eles fumavam maconha nas festas também. Mas aí o crack apareceu com algumas outras porras, tipo o que temos hoje em dia — hoje em dia temos molly, tipo rola uns molly ou xarope. Saca? Galera experimentando, eles começam a usar essas paradas novas e aí a gente vê o efeito que essas porras têm, mas a maconha continuou sendo uma parada fiel, passou no teste do tempo.

Também vi um monte de gás nitroso aqui.
É um lance mais social, é tipo uma coisa social, de festa. Em Detroit, sempre tem essa parada tipo uma comunidade de drogas, um lance social, de festa, de rave, porque você sabe que arranja um ecstasy e um molly e usa, isso é droga de festa. Então a gente sempre teve aqui essa cultura de drogas de festas. E isso rola por causa das paradas. Quando a parada tá um tédio e você sabe que fez merda, a vontade é não fazer nada, tá ligado, mesmo se você vai pra porra de uma festa, nem precisa ser isso tudo, mas umas paradas. Toma um molly, um ecstasy, daí tu sai pensando que tá em Vegas e tem dinheiro chovendo do teto.

Sim, um pouquinho de molly….
Eles sabem que eu tô falando a verdade. Você fica ligado para a festa. Na festa, onde isso é normal e pronto. Na sua cabeça, é como você tivesse de férias. Todo mundo vestiu as roupas, sua mãe fica falando, você vê a fumaça sair ali, ela fuma quando eles falam, tá ligado? Eles ligam praquela mina, mas você acha que eu vou entreter você. Você tá suando e tal. Você tá rebolando a noite toda, então acho que isso é que é Detroit, é isso o que rola aqui. E também a música, ela combina com as drogas — o techno e a porra do ghetto tech. Essas porras todas combinam com a música. Então é um extra cultural.

Você cresceu ouvindo techno ou ghetto tech?
Sim. Lembro de uma vez, quando saiu “There's Some Hoes in this House”, eu tinha só um trecho de tipo uns 30 segundos, você pode pegar a fita e fazer tipo um remix em cima, tipo quando você faz uma parada em loop, tipo isso. O loop da fita? Eu fiz aquela porra durar tipo três minutos. De um trecho de noventa segundos, “There's some hoes in this house!” eu fiz três minutos. Do-doo-do-do, assim. E eu tava tipo na sétima série ou uma porra dessas.

A cena do hip-hop se dava bem com a cena do ghetto tech?
Não, acho que muito do — olha, ainda sou novo, então você tem que lembrar, não sou da época do Hip-hop Shop nem nada. Então acho que, no caso deles, quando isso tava rolando, foi tipo eles tavam tentando tipo se rebelar contra aquilo, e aquilo era tipo a nossa cultura, e eles queriam que a coisa fosse tipo Nova York. Eles queriam que fosse tipo A Tribe Called Quest e Open Mic, e batalhas de rap, e na real não queriam respeitar se você dançava o jit, você era podrão. Eles acham que o hip-hop tem que ser, tipo, comprar mixtapes do DJ Assault.

Por que você colava em caras tipo o DJ Assault?
Essa não foi minha época. Do Hip-Hop Shop e tal. Minha época foi do DJ Assault porque quando a gente ia pras porras das festas nas casas dos outros, pras porras das escolas de dança, era aquele tipo de música que a gente usava pra dançar. Nossas paradas não tocavam no Top 40 das rádios. Quando você entrava no seu carro e ouvia um mix de três, eles não tavam tocando sucessos da Billboard porra nenhuma, estavam tocando — e, se estivessem, a coisa era acelerada para 145 rpm. Eram músicas que eu nem sabia como eram tipo na velocidade normal. Achava que a velocidade normal era aquela. Tipo, caralho, aquelas porras eram lentas demais.

Onde você mora hoje em dia?
Moro em Farmington Hills. Moro no subúrbio. Você devia ver a minha casa, a parada é séria. Mas eles queriam o bairro. Quero só que você veja o bairro, mas às vezes também quero muito mostrar o que Michigan tem de bom.

Entendo.
Aparece uns cervos no meu quintal. E tem umas nogueiras crescendo e tal. E umas paradas sérias de ficar ao ar livre tipo cabana de madeira, lareira sempre acesa. Gostoso e torradinho. Tenho um tapete de couro de cavalo. Tenho um cobertor de coiote, tá ligado? Sou muito de ficar ao ar livre, sério mesmo. É, é assim que eu tô vivendo.

Na natureza.
Eu e meus gatos bengal. Tenho a minha menina. Minha mãe mora comigo também. E minha filha acabou de começar o colégio, então agora ela mora comigo.

Que idade tem sua filha?
14.

Ensino médio, né?
Ela acabou de começar a nona série. E você sabe que as escolas públicas de Detroit são uma merda, então tive que matricular ela numa ótima escola, por isso ela vai ao colégio perto de onde eu moro. Então isso é provavelmente uma das melhores coisas que posso fazer pela vida dela. Mesmo que agora ela esteja se ferrando no colégio, mas acho que isso é porque ela é a filha do Danny Brown e todo mundo sabe disso. Tipo imagina eu entrando assim nessa porra de ensinar. Não sei ser outra coisa, então quando vou pegá-la depois da aula e quero ir falar com os professores, tô com essas roupas, e os garotos ficam olhando tipo, mas que porra é essa? Esse é o pai dela? Então acho que eles ficam tratando ela de um jeito meio diferente, talvez.

O que você achou das aulas de poesia que ministra e que nós fomos assistir hoje mais cedo?
É muito bom. Deu inveja. Quando estava crescendo, queria ter tido a uma aula desse tipo. Pra mim, isso é só uma coisa que me encorajou a ser corajoso na minha escrita. Eu não tive acesso a nada desse tipo. Ninguém me disse que eu era bom na parada. Tipo, as pessoas me dizem que eu era um bom rapper, mas não fui encorajado, porque os outros não chegavam a pensar que a coisa poderia dar certo. Em Detroit esse é um objetivo meio que viajado. E em Michigan, no geral. No centro não tem tipo gravadoras, tá ligado? Tínhamos a Motown e coisa, mas isso foi 50 anos atrás, porra.

Parece que muitas crianças não necessariamente são encorajadas a fazer rap, e elas nem mesmo sabem que a indústria tem outras coisas a oferecer, além do rap. Tipo elas não sabem que outros caminhos criativos existem.
Isso, então, pra mim, tipo, eu não sabia mesmo o que ia fazer. Então em alguns casos era só um hobby. Se alguém te diz que você é bom em alguma coisa, é tipo, você tem a maior vontade de — sei lá, dá vontade de se dedicar mais. Mas aí, quando se trata de uma coisa que eu realmente amava pra caralho... Cada um tem a sua praia. E o rap era a minha praia — era a minha fuga. Era tipo, a nova tape saiu, ou chegou o novo número da Source, se eu não arranjasse uma pra mim era como se o mundo tivesse parado. Tipo eu pegava os meus últimos três dólares e usava a porra do dinheiro da passagem de ônibus, ia a pé pra casa e comprava a Source e lia inteira no caminho.

Do que você estava fugindo?
Da realidade como um todo. Todo mundo tem seu próprio jeito de fugir. Quando você vê um filme, são três horas de fuga, você ficou preso naquela história. Quando joga videogame, tipo, essa é uma maneira de escapar. Você fica preso, então, pra mim, o rap era a minha maneira de escapar da realidade. Eu ia para a cama, botava pra tocar os meus discos favoritos todas as noites, na hora de ir dormir, e ficava ouvindo eles no repeat, e quando acordava tava a mesma coisa — ainda mais que eu não vivia a parada, e ainda faço isso. É essa que eu acho que é a grande diferença. Eu vivo o hip-hop. É um estilo de vida mais do que eu ficar lá só escrevendo a porra de um rap. Realmente vivo a parada. Tudo o que eu faço se transformou em rap.

Você estava dizendo no evento de poesia, hoje mais cedo, que até começou a fumar maconha por causa do hip-hop. Como foi que isso aconteceu?
Nas, meu rapper favorito, e Nas sempre falava sobre fumar banzas e beber Hennessy, saca, e tal. Todo mundo à minha volta fumava maconha, é claro. Experimentei algumas vezes, mas não aguentei o tranco. Foi na época que saiu o I Am. O lançamento foi uma coisa enorme. Lembro do dia que foi lançado, comprei pra mim — eu nunca tinha bebido aquele tanto — comprei pra mim meio litro de conhaque Hennessy, arranjei um pouco de maconha, e falei, vou sentar nesse canto aqui e ouvir essa porra.

E juro, aquela porra tinha um gosto nojento pra caralho, quando provei o Hennessy pela primeira vez. Eu não conseguia acreditar naquela porra. Tinha gosto de bunda, tá ligado? Mas eu bebi e fumei e fiquei ouvindo o disco. E aí fiquei chapado. Tipo, chapado mesmo. Mas foi tipo, eu ouvi a música. Nunca antes na minha vida ouvi uma música como aquela. Alguma coisa clicou dentro de mim, tipo essa porra soa como, sei lá, teve algum efeito, fez com que eu fizesse rap na minha cabeça ao mesmo tempo, enquanto ouvia as músicas, e as ideias iam vindo.

Você fica pensando em que influência tem sobre as crianças, do mesmo modo que Nas teve sobre você?
Não, porque, como eu disse, ainda sou o garoto de 13 anos que ouvia rap, então não posso ir contra o que a coisa foi. Sei que a música que eu gostava era a música que tinha uma coisa de me chocar, e foi uma coisa louca. Eu não tinha nem como compreender, caralho, você não conseguiria nem entender de que porra aquele cara estava falando. Então foi isso o que me intrigou na parada. Então, no final das contas, ainda quero preservar a essência da coisa, porque o rap é isso. Isso não é porra de folk, não é country, não é jazz — é rap. É para ser uma coisa cáustica, é pra ser mesmo uma parada que você não deve ouvir perto da mãe ou da avó. Não é para elas gostarem. Então quero manter essa coisa porque agora, se você não prestar atenção, o rap está começando a ficar de um jeito que você pode ouvir com a sua mãe, ou até a sua vó pode gostar daquela porra. Mas no meu caso, eu quero preservar aquele elemento que é tipo, não, não é pra você colocar isso para tocar em público. Para mim, o rap é isso.

Parece que isso é mais verdadeiro ainda no caso de Detroit. O hip-hop que sai daqui sempre foi super dark. O que você acha que essa cidade tem que gera esse tipo de música?
Não sei. Não acho que o Big Sean seja super dark.

É verdade. Parece que a coisa está mudando.
Talvez. A melhor coisa, eu diria, é que quando você faz música, é meio que tipo a trilha sonora de alguma parada. Então acho que a maioria desses caras fazem música e daí têm que colocar pra tocar nos próprios carros e sair andando por Detroit. Cacete. E eles ficam andando de carro por Detroit e tão lá ouvindo aquelas porras. Essa é a trilha sonora da cidade. Tipo, se você ouve esse tipo de música, se você ouve a música, ela combina com o visual disso aqui. Não dá pra fazer uma parada estilo palmeiras da Califórnia quando você tá vendo essas coisas pela janela.

Qual é o espírito da cidade?
As coisas estão mudando bem debaixo do meu nariz. Acho que todo mundo tem esperança. É isso o que está rolando, porque dá pra ver com os próprios olhos. Tipo, eu, não fico muito aqui, e quando estou, como eu disse, tô no subúrbio, então não venho para a cidade tanto quanto costumava, e não saio pra farrear. Então, quando finalmente venho pra cá, e o tanto de vezes que venho, sempre vejo alguma coisa diferente, tipo aquela ali é uma loja nova, ou caralho, aquilo ali tá bonito, ou aquilo ali acabou de abrir, então posso ver as transformações bem na frente da minha cara. De dez anos atrás até hoje, a progressão que vem rolando tem vindo num ritmo veloz, nos três últimos anos vi uma porrada de mudanças no que diz respeito ao visual do centro da cidade. E acho que até mesmo no tipo de gente que você vê frequentando esse lugar. Antigamente, a qualquer hora, você podia ir a uma boate no centro da cidade e arrumar uma briga, e podia ficar lá brigando por 20 minutos. Eu acho que você hoje em dia não consegue nem uma briga de três minutos aqui no centro. Tipo, porque a polícia aparece e tal.

Por que você acha que essa mudança está rolando agora?
Porque Detroit é meio que tipo, acho que a gente cansou de — não sei se era tipo uma parada cool, as pessoas falam sobre como curtiam as ruínas e tal. Detroit sempre foi um desses lugares maneiros pra isso. Mesmo que a gente tenha uma cultura muito grande da Motown e que tem a ver com o techno e tal, tem muita cultura, tem muita coisa que a gente cria aqui. Então acho que, por um longo tempo, tivemos sempre a presença das coisas tristes e foi sempre uma coisa tipo: “por favor, ajudem a gente. Por favor, Detroit! A gente tá se dando mal aqui, por favor ajudem! Somos uma cidade grande; foi aqui que começou a indústria automotiva. Se não fosse por nós, a América não seria o que é! Por favor, deem uma ajuda!” Então acho que agora está chegando ao ponto em que as pessoas estão começando a ficar tipo, quer saber? Detroit não deveria fazer assim. Tem uma porrada de cidades nos EUA que estão se saindo muito melhor do que Detroit e que não deram uma contribuição ao país. Então bora olhar para trás e cuidar de Detroit, então acho que é isso o que está rolando agora.

Algumas das pessoas com quem conversamos se mostraram céticas em relação a algumas das mudanças. Parece que muita gente vem pra cá de fora da cidade e causa mudanças. Os empregos estão indo para pessoas que estão vindo de fora da cidade. A gentrificação do centro. Você também é cético em relação a alguma das mudanças que estão acontecendo?
Com licença. Detroit foi um lugar fodido pra caralho por muito tempo. Eu fico muito feliz de ver a cidade prosperar de alguma maneira e progredir. Porra. O filho da puta quer se mudar pra cá, o filho da puta quer arrumar um emprego. Manda ver! Foi assim que a minha família, foi assim que eu vim pra cá, tá ligado? O meu bisavô era tipo do Arkansas e tal. Ele arranjou um emprego na fábrica. Eu estou aqui. Então é assim que o mundo funciona.

Você acha que alguns dos aspectos de Detroit, que fazem dela a cidade mais sinistra, estão sendo deixados de lado?
Eu não me importaria com isso. Não gosto que seja conhecida como uma cidade sinistra. Quem quer viver no sinistro? Eu quero viver é no conforto. Então quero que as pessoas digam que Michigan é um lugar confortável, porque é aí que está pra mim. É o que você faz dele. Sempre disse que sempre fui tipo muito grato ao lugar do qual eu venho, porque Detroit é o tipo de cidade que vai revelar quem você é, seja lá quem você for. Se você é o tipo de cara — a gente vai descobrir se você é um malandro, a gente vai descobrir. Qualquer coisa que você queira ser na vida, a gente vai sacar, e mandar ver nesse sentido. Então quando você chega aqui e tenta pagar de alguma coisa, sempre vai acabar mal pra você, tentar ser uma coisa que não é. Então foi isso o que eu aprendi. É isso o que você pode ver que está na minha personalidade, acho, a maneira que as pessoas me percebem na indústria, em algum sentido, é essa, eu sou um cara tipo ame ou odeie. É bem desse jeito que a coisa rola por aqui, porque se não for, você vai ser desmascarado.

As pessoas sempre me falaram dessa autenticidade aqui, e do que ela significa.
Acho que isso é o rap como um todo. A gente tá só olhando de frente, tipo certas situações, tipo, se você olhar alguém como eu. Acho que minha parada toda sempre foi sobre drogas. Minha família toda usou drogas, vendeu drogas, tal, mas o que a minha música é agora, eu agora ganho dinheiro pra caralho, então agora uso pra caralho — muito mais drogas. Então essa é que é a queda da coisa. Taí a minha história nisso. Então a faca de dois gumes do que você acabou de dizer tipo, que, tipo, estava tudo de boa quando eu não tinha grana. Eu tava fazendo músicas fodas e estava feliz, tá ligado, mas agora é tipo, tem muita pressão em cima de mim, estou muito estressado, e onde antes as drogas pra mim eram uma diversão, agora elas são só uma maneira de lidar com o trabalho.

Isso alguma vez virou um problema para você?
Como assim?

Usar drogas.
É um problema. Tipo, xarope era o que eu mais tomava, e isso eu larguei.

Era muito pauleira na época que você tomava o xarope?
Era ruim no que diz respeito a ser produtivo. Mas o que eu faço não é inteligente. Faltar a entrevistas e ficar sentado quando se está na estrada porque você não pode beber. São as pequenas coisas como essas, então eu tive que parar mesmo com o negócio. Isso foi o mais difícil. Todas as merdas que eu faço são, como eu digo — é para fins de trabalho. Tá ligado? Ritalina é para escrever. Alprazolam é pra dormir nos voos longos. Mas eu ainda uso drogas. Mas foi uma coisa que começou por causa do trabalho, de fazer isso.

Entendo.
Está piorando. Então você se sente tipo quando quer fazer sucesso, e sair disso tudo, e não ser parte da coisa, e aí você consegue e é muito mais cheio de prazeres e excessos agora. Eu nem preciso comprar. A coisa chega de graça nas minhas mãos. As pessoas me dão as drogas, então é ainda pior, tá ligado? Então é uma faca de dois gumes, tipo, eu fiz um monte de música sobre drogas e mais isso e mais aquilo e agora estou vendo o que acontece em relação a isso. A arte imita a vida.

Certo. Chega uma hora em que a parada cobra o preço.
Se for de verdade. Eu já tenho uma certa idade agora, e tenho muitas responsabilidades, então agora sei como administrar. Mas não estou dizendo que é uma coisa boa. Gostaria que não fosse desse jeito.

A parada das armas aqui me parece muito insana. Nunca vi tanta arma na minha vida.
Cara, e é fácil de arranjar, saca, a parada das armas, deixa eu dizer pra você o que acabou de acontecer quando, eu sinto que tipo, você arranja seu porte agora, não tem que carregar um documento. Então o que acontece com isso é que você tem um monte de gente — as pessoas que têm mais chance de conseguir o porte são as que não têm ficha na polícia, e na verdade nunca fizeram nada nas ruas, e coisa assim. Então você tem gente que é, tipo, gente assustadora. Caras que não são durões, quando eles tão armados, então agora é uma situação, porque agora eles são assustadores e apelões, podem acabar te dando um tiro e te matando. Então não precisa mais se preocupar com os bandidos. Tem é que se preocupar com o cidadão normal, médio, porque bandido tem ficha na polícia. Ele não vai carregar uma arma, mas dá pra ver o sujeito que aparenta ser normal se metendo num incidente de briga de trânsito, e daí é capaz de ele perder a cabeça e te mandar um pipoco. Você tem que tratar todo mundo — esse é o lance de Detroit. E eu percebi isso em outros lugares. Você vai pra tipo Europa ou pra Londres, tipo as pessoas ficam gritando umas com as outras que nem loucas, dizem qualquer maluquice pro outro, e eu tipo, caramba, mano, você não pode falar assim com ninguém. Saca? Pode acabar morrendo. Então a gente trata todo mundo como se estivesse armado. Se você levar a vida desse jeito, dá certo.

Eu não ia nem sair de casa.
Não estou dizendo que eles fariam algo contra você. Todo mundo tem o direito de andar armado e se proteger. Se você respeitar todos os seres humanos como se eles tivessem essa vantagem sobre você e que poderiam matá-lo naquele mesmo instante, então você nunca ia arrumar encrenca com ninguém.

Então você fica de boa com todo mundo andar armado?
Não estou dizendo que fico de boa. Mas porque muita gente simplesmente não tem limites. Ficam bebendo. Muitas vezes as pessoas fazem merda e se arrependem, é sempre assim. Uma discussão pode virar prisão perpétua. Então é isso que eu não estou dizendo. Minha parada toda com esse lance de ter uma arma é não, você não precisa de uma arma se não tem planos de usar. As pessoas não têm licença para matar. Eles vão armados pro mercado. Vão no Walmart sem qualquer motivo e tal. E quando você vai ver, puta merda, eles começam a se estapear na porra da fila do caixa ou coisa assim. E aí eles mandam um balaço em você, no estacionamento, tá ligado? Merdas assim acontecem porque as pessoas têm armas que na verdade não precisam ter. As pessoas têm armas, tipo, você nem é tretado com ninguém nem nada. Não tem com que se preocupar, ninguém tá inventando de fazer coisa com você nem nada, mas tá lá você com a arma.

As pessoas veem as coisas como problemas em Detroit, os prédios abandonados, a ruína — mas isso também é algo que gera a cena.
No final das contas, como eu disse, é uma coisa que ajuda também. Tipo, me ajudou porque eu não seria um rapper tão bom se vivesse em Nova York ou Los Angeles, onde teria muita coisa pra fazer. Então é tipo, o que eu tenho pra fazer além de ficar em casa e arranjar alguma maneira de me distrair? E o jeito de eu me distrair era ouvir rap, e no fim das contas comecei a tentar fazer rap eu mesmo, e a aprender como fazer rap. Então eu queria estudar. Então foi uma coisa que me deu muito tempo para estudar e aperfeiçoar o meu rap.

Você tinha isso em que se concentrar, mas como foi que entrou nas paradas que geraram problema para você e o levaram para a cadeia?
Tipo, é só Detroit, o lugar que você vai ao colégio e com quem você passa o seu tempo. Uma coisa sobre mim é que eu sempre curti essas coisas de roupas e de moda. Eu queria ter um estilo cool. Quando você tá no ensino médio e é cool, quem mais precisa ser cool? Os caras tão vendendo drogas e simplesmente começaram a fazer isso, tá ligado, porque a maioria dos pais deles não tinham como comprar aquelas roupas todas, eles começaram a trabalhar. No final das contas, acabei andando com a turma errada. Foi só isso. Se fosse uma turma – é como eu digo, se fosse uma situação em que eu fosse endireitado, e fosse uma turma que curtisse escrever e fazer rap e coisas parecidas, eu provavelmente nem teria me metido nessas paradas. Mas nem sei, porque é como disse, eu ainda queria ser cool, mas hoje adoro tanto essas coisas que poderia ter sido um nego cool de qualquer jeito. Mas acabei me ligando demais no lance das roupas.

Normalmente o que você faz quando sai à noite?
Eu fico em casa. É como eu digo, minha filha acabou de começar o ensino médio, tá com 14 anos, então no momento eu de qualquer forma não vou muito pra farra, então pra mim, a minha diversão é essa, passar tempo com ela, ir ao cinema, fazer compras, jogar videogame com ela. Nesse momento a minha melhor amiga é a minha filha, então ela é que é minha companheira nas horas livres. Comigo é aquele esquema de queridinha do papai. Esse homem na sua frente te ama, então cê nunca vai precisar ir embora. Não quero que ela fique por aqui. Não se brinca com a minha menina, então eu não deixo de marcar presença.

O que ela está tentando fazer? Ela faz música?
Não sei. No momento, ela precisa se preocupar é com o colégio. Ela é igualzinha a todas as outras adolescentes — quer ficar no computador o dia inteiro, fica falando no telefone com as amigas, essas coisas. Ela gosta muito de Panic! at the Disco. O rapper favorito dela é o Macklemore. E eu fiz ela ir fundo, tipo por favor não quero ouvir “Fight Night” tocando no seu quarto. Fica ouvindo um Macklemore maneiro o dia todo, tá ligado. E ele também é um dos meus melhores amigos também, então quando o Macklemore cola em D., ele tem que dar uma passada no meu apê e contar as novidades para a minha filha, porque ela adora ele.

O que Detroit tem que você ama?
O que Detroit tem que eu amo? Eu amo corned beef [prato semelhante ao rosbife]. Adoro o alligator voodoo [carne de jacaré frita] do Fishbone. Tô falando só de comida agora.

Você acha que a cidade algum dia vai voltar a ser o que foi no passado?
Acho que as chances são bem menores que outras merdas. Eles nunca vão voltar a ser o que era nos anos 60, porque eu acho que os anos 60 foram tipo, a gente tinha uma indústria vigorosa, uma indústria automotiva forte. As pessoas se mudavam para pegar os bons empregos, nunca mais vai ser desse jeito outra vez, mas sou de achar que o que vai acontecer é igualzinho ao que vai acontecer com muitas outras cidades que tão na mesma situação com Michigan, ficar tipo, tá ligado. Espero que liberem a maconha. A mesma coisa que rolou em Denver vai ter em Detroit, a gente vai queimar a maconha, vamos fumar gostoso. Muita grana vai circular. É isso aí, legalizem a maconha, Detroit vai melhorar.

Zach Goldman é o apresentador de NOISEY no VICELAND. Siga-o no Twitter.

Tradução: Marcio Stockler

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