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Ataco, logo existo: Facções criminosas enfrentam o governo no Ceará

Após secretário declarar que "facções não existem", crime organizado fez cerca de 100 ataques a prédios públicos, bancos, comércios e ônibus em 33 cidades do estado.

por Ives Aguiar
07 Janeiro 2019, 2:21pm

Força Nacional de Segurança Pública faz policiamento em ônibus em Fortaleza. Foto: José Cruz/Agência Brasil

O estado do Ceará começou o ano de 2019 sob inúmeros ataques a veículos, prédios públicos, bancos e comércios, por facções criminosas. Esses ataques se iniciaram na quarta-feira, 2 de Janeiro. Até o presente momento, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPD) do estado contabilizou 110 presos acusados pelos 98 ataques espalhadas por 33 cidades. 34 dos presos são adolescentes. Um suspeito de destruir um radar de trânsito foi morto na quinta (3) em confronto com a polícia, e dois suspeitos morreram em uma tentativa de incendiar um posto do DETRAN na madrugada do domingo, dia 6.

As últimas medidas tomadas para fortalecer o combate ao crime são apontadas pelo próprio governador do Ceará, Camilo Santana, como a motivação para os ataques. No entanto, o verdadeiro estopim pode ter sido a declaração de Luís Mauro de Albuquerque no dia em que tomou posse como Secretário de Administração Penitenciária (SAP). O novo secretário declarou não reconhecer as facções criminosas. "Quem manda é o Estado. Eu não reconheço facção, o Estado não deve reconhecer facção, a lei não reconhece facção, então nós vamos aplicar a lei”‘, afirmou Albuquerque em entrevista.

O secretário também se mostrou ativo em acabar com a presença de celulares em unidades penitenciárias, ordenando, no dia 5 de Janeiro, um pente fino para que fossem removidos quaisquer tipos de aparelhos de comunicação, incluindo rádios e televisores. Membros de organizações criminosas utilizam os celulares para ordenar assassinatos e ataques. A tentativa de bloquear o sinal em prisões teria sido um dos motivos para a represália que aconteceu no ano passado.

Mauro de Albuquerque foi coordenador da Força de Intervenção Penitenciária Integrada (FIPI), sendo o responsável por ajudar a conter a crise penitenciária no Ceará em 2016 e ajudou a retomar o controle da prisão de Alcaçuz no Rio Grande do Norte em 2017.

Na madrugada de quinta-feira, poucos dias depois da declaração do secretário sobre as facções, os primeiros ataques começaram com ônibus incendiados e uma explosão em um dos pilares do viaduto da BR-020, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.

Uma carta foi achada no local. O texto, redigido por membros do crime organizado, pede trégua na guerra contra seus “inimigos imundos” e que foquem seus esforços em combater o estado. Para eles, “o sistema do estado do Ceará está controlado” e vão “reagir com todo o vigor contra essa barbaridade que o Camilo que fazer contra nós.”

As facções repudiam a vontade do governador Camilo Santana de trazer de volta a FIPI. A carta é datada do dia 23 de Dezembro, dia no qual Mauro Albuquerque foi nomeado oficialmente para pasta da SAP.

No dia 5 de Janeiro, muros de um posto saúde e de uma escola municipal no bairro Presidente Kennedy, em Fortaleza, foram pichados com ameaças de que os crimes só vão parar depois que o secretário sair do cargo.

O governo do Ceará recorreu ao novo ministro da justiça, Sérgio Moro, que autorizou o envio de 300 homens da Força Nacional de Segurança Pública, com 30 viaturas, para atuar no estado durante 30 dias, sendo possível prorrogar o prazo. As equipes estão alojadas no Centro de Formação Olímpica, em Fortaleza, desde o último sábado.

Camilo Santana também adiantou a nomeação de 220 agentes penitenciários, que estava prevista para Março, e formou 371 novos policiais militares. Além disso, fez um acordo com o governador da Bahia, Rui Costa, que mobilizou 100 policiais para o Ceará.

O governo cearense ainda está no aguardo de mais 2000 agentes que vão chegar nos próximos dias das Forças Armadas Brasileiras (FAB), da Força de Intervenção Penitenciária (FIP) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

O secretário nacional da Segurança Pública, General Theophilo, em entrevista ao O POVO Online disse que vai partir para o confronto direto e que previa alguma movimentação das facções criminosas, já que o Presidente Jair Bolsonaro declarou combatê-las.

O presidente parabenizou a agilidade do ministro Sérgio Moro no envio da Força Nacional e aproveitou para ressaltar sua rusga com o PT, partido ao qual pertence o governador do estado. Disse que não vai se opor ao povo cearense, apesar da forte presença do Partido dos Trabalhadores no estado.

No domingo, o resultado do pente fino pedido pelo secretário Mauro Albuquerque foi a apreensão de 407 aparelhos celulares e centenas de televisores em diversos unidades penitenciárias espalhadas pelo estado. A noite, o governo do Estado divulgou que conseguiu 60 vagas em presídios federais para começar a movimentar líderes de facções e outros 19 membros para evitar que mais crimes aconteçam.

Em Icapuí, no litoral do Estado a 200km de Fortaleza, uma estação ambiental onde funciona o projeto De Olho Na Água foi incendiada na noite do domingo. A diretora da fundação que mantém o programa afirmou que pichações referentes à sigla de uma facção criminosa foram deixadas próximas ao local do incidente.

Ainda no domingo a frota de 1.810 ônibus urbanos e 350 metropolitanos, foram reduzidos para 108 veículos em 77 linhas. Essa redução da frota foi para que seja possível colocar três policiais em cada veículo, como estava sendo feito desde sexta-feira.

O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus), emitiu uma nota onde informa que concluiu um planejamento de segurança juntamente com a polícia do estado para garantir que o transporte público volte a funcionar normalmente em Fortaleza e na região metropolitana no dia de hoje, dia 7 de Janeiro.

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