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Quem faz as fantasias dos furries?

A indústria por trás das “fursonas”.

por Mark Hay; Traduzido por Marina Schnoor
08 Agosto 2017, 10:00am

Todas as fotos por Zak Krevitt.Todas as fotos por Zak Krevitt.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

O fandom furry é uma comunidade grande (e muito mal compreendida e interpretada), que abarca não só aqueles que se identificam com animais — reais ou fictícios — mas todo mundo que aprecia criaturas antropomórficas. Furries expressam suas afinidades através de arte, literatura, RPG em fóruns e pessoas como várias "fursonas". Mas de longe, o elemento mais conhecido e onipresente do fandom são as fursuits, o traje de animal humanoide que alguns furries fazem para habitar mais completamente uma fursona.

Apesar de menos onipresentes no fandom, e bem menos sexualizadas do que séries como CSI e meios de comunicação como a Vanity Fair as fizeram parecer, as fursuits continuam importantes na cultura. O jornalista de longa data do fandom (e um furry husky) Patch O'Fur se refere a elas como "a alma teatral do furry", reconhecendo que, desde o meio dos anos 2000, elas se tornaram uma "grande tendência furry".

Enquanto a maioria reconhece os furries por esses trajes, poucos fora da cena pensam de onde as fursuits vêm. Você pode achar que elas são fantasias de mascote recicladas — mas estaria errado. Fursuits têm, você repara quando inspeciona de perto, um caimento muito bom e são bastante intrincadas, feitas para mostrar individualidade. O que levanta uma questão: quem está colocando todos esses trajes excepcionais e criados com exclusividade para furries no mercado?

A história das fursuits é relativamente curta e tem hoje um pouco mais de 30 anos, tecnicamente. (Falo sobre isso mais adiante.) Os grandes fabricantes que emergiram nos primórdios da cena são gente como Mixed Candy, Don't Hug Cacti, One Fur All e Made Fur You, todos transformaram essa pequena cultura num empreendimento viável. Outro desses notáveis fabricantes de fursuit é Phoenix. Uma furry também (ela se veste como um malamute roxo), Phoenix começou a fazer os trajes em 2008, aos 15 anos, e agora comanda a The Phoenix Nest, uma pequena fábrica no Minnesota com um cuidado incrível com detalhes — "os trajes são feitos com aparência e durabilidade em mente", diz o site. "Ficamos muito felizes em trazer suas criaturas adoráveis à vida."

Phoenix, que acredita que sua fabriqueta tem um tamanho médio diante de fabricantes estabelecidos, diz que aceita pedidos encomendas de fursuits uma vez por ano. "Recebo cerca de 200 pedidos", diz. Ela aceita cerca de dez encomendas, o que explica com a questão do tempo; mas também trabalha com clientes e como as ideias se misturam.

Cada fabricante tem seu próprio estilo e processo. Alguns só modelam seus trajes em animais reais e optam por características naturais, outros investem mais no lado fantástico e cartunesco. O preço do traje pode variar muito, mas trajes completos feitos à mão de raposa, cachorro ou unicórnio (ou o que você quiser) geralmente ficam entre um e três mil dólares. Segundo o Dogpatch Press, um site de notícias furry, US$4.500 é "a taxa básica para encomendas padrão". No Brasil, como explicamos na matéria linkada acima, a fabricação de uma fursuit pode custar algo entre R$ 500 a R$ 3 mil.

E os fabricantes bolam todo tipo de extras nas fursuits capazes de aumentar ainda mais o preço das peças. Você pode acrescentar sistemas de refrigeração, câmera e áudio, olhos hiper-realistas que acompanham o movimento das pessoas, pálpebras controladas por ímãs, e mandíbula que acompanha o movimento da fala. Como prova disso, não precisa ir muito além do que esta chita altamente especializada feita pela Primal Visions, que apresenta um sistema de arduino que move os olhos e a boca, e libera rosnados. Comprada por um furry chamado Spottacus em 2014, o preço foi de US$17.500 [cerca de R$ 45 mil] . E Spottacus não parou por aí — atualmente ele está dando lances num traje que custa US$25 mil.

"Me disseram que efeitos especiais de Hollywood, coisas com animatronics e tudo mais, acrescentam outro zero nos preços já altos de fursuits", disse O'Furr, o que significa que um traje pode atingir os seis dígitos depois de todas as customizações.

Isso é extraordinário quando você considera que as fursuits nem sempre foram parte do fandom, que brotou de círculos underground de quadrinhos e zines nos anos 60 e 70 e se cimentou nos 80, com os furries inicialmente circulando zines e cartas. O próprio termo só foi cunhado em 1993.

Um prototraje fez uma aparição na primeira convenção furry, a ConFurence 0 em Costa Mesa, Califórnia, em 1989: Hilda, the Bambioid, criação de um cara que trabalhava como mascote da Disney chamado Robert Hill, tendo como base uma personagem antropomórfica sexualizada daquela era do fandom. Mas as convenções seguintes, segundo o historiador furry (e fã que não usa traje) Fred Patten, não contaram com nenhuma fursuit, nem mesmo outra aparição da Hilda. Em vez disso, os furries do começo dos anos 90 usavam caudas e orelhas, que eles podem ter assimilado da sobreposição com os circuitos nascentes de cons de anime e sci-fi.

Mas furries que trabalhavam com mascotes (como Hill), especialistas em figurinos de Hollywood (como Lance Ikegawa), ou simples fãs com um desejo forte de habitar suas fursonas aplicando um pouco de corte e costura, lentamente começaram a ganhar atenção. No meio dos anos 90 os trajes eram toscos. Mas começaram a se estabelecer na comunidade. Por volta da mesma época, o circuito de convenções furry se expandiu e a nascente internet juntou o fandom, facilitando o compartilhamento de ideias.

"Quando a coisa pegou ritmo", diz Jurann, um urso polar parte do fandom desde 1994 e que conseguiu seu primeiro traje em 2000, "em poucos anos você já tinha pessoas se promovendo como fabricantes de fursuit e fazendo trajes a cada um ou dois meses".

Esses primeiros fabricantes de fursuits praticavam experimentações intensas, compartilhavam técnicas e criando guias para os novatos, o definitivo sendo Critter Costuming, um manual de 2004 de Adam Riggs, a.k.a. Nicodemus Rat.

Algumas pessoas ainda usam esses guias para criar seus trajes de maneira caseira e mais barata. Mas no meio dos anos 2000, a fabricação tinha se tornado tão especializada e a demanda dentro do fandom tão alta que alguns fabricantes conseguiram transformar a criação de fursuits em um meio de vida.

Dali em diante, muitos fabricantes de trajes, incluindo Phoenix, vêm operando no modelo de encomendas, com os furries mandando suas especificações ou pedidos em aberto para os designers. Se um fabricante assume um design, ou concorda em inventar alguma coisa, ele pede medidas precisas para criar um caimento perfeito. Muitos fabricantes oferecem trajes parciais, com cabeça, cauda e patas; a opção três quartos, que acrescenta um tipo de calça que é usada com uma camiseta larga ou uma regata estilo mascote esportivo; ou traje completo, o mais visível e conhecido de todos. Os trajes podem levar de semanas há meses de trabalho minucioso para criar cada elemento da fursuit do zero.

Vários sites de reviews de fursuits surgiram para ajudar os furries a encontrar seu estilo ideal, mas também para podar fabricantes plagiando outros, golpistas ou que não oferecem qualidade suficiente. "Pode haver uma rotação de nomes bem alta" diz O'Furr, especialmente com pessoas se aventurando na indústria só para descobrir quanto trabalho isso envolve e quão difícil é desenvolver um estilo próprio. Mas os especialistas com quem falei sugeriram que há algumas centenas de fabricantes ativos sempre, com uma centena tendo longevidade suficiente para continuar no ramo. Só um punhado pode exigir preços altos e ganhou respeito dentro da cena.

Fora desses níveis, há um grande mercado para trajes sem encomenda de grandes fabricantes, ou trajes usados, com leilões em sites como o FurBuy, que emergiu enquanto a comunidade se focava numa alternativa ao cavernoso eBay. Eles geralmente estão produzindo até 200 trajes por leilão. Sites menores de leilão e lugares como o Etsy também contam com alguns trajes a venda o tempo todo. E convenções de furry sempre têm feiras com trajes a venda.

Considerando tudo isso, parece que milhares de trajes são criados e trocam de mãos todo ano, correspondendo a milhões de dólares em vendas.

"As pessoas estão constantemente comprando novos personagens e fursuits", explicou Phoenix sobre o mercado, especialmente com designs ou mods novos. "Algumas pessoas têm uma dúzia de fursuits de diferentes personagens."

Também já há mercado para as habilidades em fabricação de fursuits fora do fandom. "Com os trajes ganhando uma qualidade cada vez maior, e os fabricantes fazendo seu nome, o pessoal mais conhecido já é abordado por times de esportes para fazer mascotes", disse Jurann. E isso também parece verdade para agências institucionais e outras organizações.

Mas o mercado também é alimentado pelo crescimento perpétuo do fandom – e da popularidade dos trajes. Novas convenções surgem pelo mundo quase semanalmente, aponta o especialista na cena Fred Patten, e os estigmas sociais que pesavam sobre os furries estão finalmente começado a cair. A maioria dos novos furries estão no ensino médio ou na faculdade, segundo Jurann, então provavelmente vão começar a gastar mais com os trajes no futuro. E mais deles comprarão trajes que no passado, com a possibilidade de adquirir vários. Patten suspeita que a cobertura da mídia focando nas fursuits expôs mais pessoas ao fandom furry e provavelmente vai aumentar a popularidade delas, assim como a cobertura de convenções de anime, quadrinhos e sci-fi com foco no cosplay ajudou a tornar essa a norma.

Considerando isso, a fabricação de trajes provavelmente vai crescer não só em volume, mas em complexidade e renda circulando. "O mercado de fursuits vai continuar a crescer", disse Patten.

Então, se você está querendo comprar uma fursuit, a hora é agora. A coisa só vai ficar mais louca e cara com o tempo.

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