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Shevchenko & Elloco fazem o som e o estilo do bregafunk 2019

Depois do hit “Gera Bactéria”, a dupla recifense se tornou porta-voz da nova geração do gênero. Com a 24 por 48, também se tornaram ícones da moda.

por GG Albuquerque; fotos por Igor Marques
26 Fevereiro 2019, 3:52pm

Shevchenko, durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da 24 por 48, marca criada pela dupla. Foto: Igor Marques/VICE

É praticamente impossível andar pelas ruas do Recife sem ouvir a voz de Shevchenko & Elloco. Músicas como “Tomo na Pepeka” e “Tome Empurradão” tornaram-se parte fundamental da trilha sonora do Carnaval de rua da cidade, cantadas por milhares de pessoas à plenos pulmões na alegria da festa. No entanto, isso é apenas a ponta do iceberg. Os MCs se tornaram o principal porta-voz da nova cara do bregafunk, com uma nova legião de fãs.

Mas nem sempre foi assim. Entrevistei Shevchenko e Elloco em abril do ano passado. Embora seu nome estivesse cravado na história do bregafunk e fossem respeitados no meio, a dupla vivia um momento de baixa na carreira. Há tempos não emplacavam um hit. Seu estilo ostentação maloka (de músicas como “Sou Favela”) fora ofuscado pelo batidão romântico de novas estrelas como MC Elvis e MC Bruninho, que dominavam não apenas a cena pernambucana como estavam em expansão nacional, fechando contrato com grandes produtoras de São Paulo.

“Gera Bactéria” foi a música que virou o jogo. Lançada em junho, a faixa trazia toques agudos e sampleava o pontinho robótico do paredão paulistano Megatron, introduzindo assim uma nova sonoridade na cena brega. Produtor da faixa, Geison Santana, o GS, conta que o som de “Gera Bactéria” é um desdobramento de seu trabalho anterior com o MC Troia. “Tudo começou com essa sonoridade semelhante ao sino com a música “Flexiona a Tcheca”, do MC GW regravada por Troia. A ideia do ritmo da música do Shev e Elloco foi tirada de “Popozão”, de MC Petter e Aldair Playboy. Eu já tinha em mente usar o beat em alguma música para dar uma diferenciada no movimento, que na época estava na febre do batidão”, detalha.

Mas além dos novos timbres e da batida, havia um outro apelo especial: a música falava o idioma da favela. “‘Gera Bactéria’ é uma gíria da quebrada”, explica Elloco. “Do nada um moleque comprou um tênis novo, a galera olha e fala: ‘Eita, olha o tênis dele! Gera, bactéria!’ É o cara que fez os corre dele e conseguiu, é o cara que anda sempre no estilo”. A música ainda provocou um impacto diferente nas redes sociais. “Antes a galera mandava vídeo ouvindo as nossas músicas pra gente postar. Depois de ‘Gera Bactéria’ a galera mandava vídeo dançando passinho. Na sequência fizemos “Meu Barraco” e no clipe já chamamos os grupos de passinho de Santo Amaro, de Jaboatão, de Olinda e foi expandindo mais ainda. O moleque que antigamente jogava bola, hoje em dia quer mais formar seu bonde, botar uma camisa e meter passinho.”

O passinho dos maloka tornou-se um movimento quase que independente, com seus próprios eventos, ídolos e influencers capazes de viralizar músicas — como ocorreu com “Barulho da Kikada”, dos MCs Niago e Seltinho ao ganhar coreografia do grupo Magnatas do Passinho S.A. O fenômeno cresceu ao ponto de inverter a ordem das coisas: não são mais os dançarinos que se encaixam na batida das músicas, mas os MCs e produtores que criam os sons tendo em mente os movimentos corporais.

“Esses moleque trouxeram uma base diferenciada. Já faz a música com esses sininho agudo justamente pensando na galera do passinho”, diz Biel Xcamoso, MC de 20 anos que estourou fazendo feat com Shev & Elloco em “Tome na Pepeka”. GS confirma: “Quando vou produzir música para passinho, tenho que me colocar como se fosse eu que fosse dançar. Não é simplesmente montar de todo jeito. Eu tento imaginar eu fazendo o passo ou alguém dançando em certos momentos da música, como aquelas paradinhas antes da batida”.

O êxodo dos principais produtores musicais da cena para São Paulo — DG e Batidão Stronda foram contratados pela GR6 e Dany Bala foi para Start Music — abriu espaço para o surgimento ou consolidação de novos talentos dos estúdios, como Marley no Beat, JS e Barca. Esses caras inventaram um método particular de usar o software de produção musical Fruity Loops, sem muito apego às regras harmônicas e melódicas, formando um nova gramática musical. Uma característica marcante é a desconstrução do ritmo fixo, estável e repetitivo da música eletrônica mais ortodoxa como o techno e o house. Os beats do bregafunk 2019 são acelerados, quebrados e imprevisíveis, quase impossíveis de serem contados — à seu modo, lembram as experimentações eletrônicas suingadas de Jlin e RP Boo em torno do footwork.

“O bregafunk ficou mais rápido nesses últimos tempos e, por isso, ficou mais dançante do que era antes”, diz Marley no Beat, que produziu hits do passinho como “Tome na Pepeka” e “Potoki” (de Shev & Elloco), “Deixe Eu Te Empurrar” (de Chefe Coringa) e “O Meu Nome é Gabriel” (de Biel Xcamoso) em 170 BPM. Ex-produtor de rap, Marley revela que as viradas rítmicas quebradas e as levadas sincopadas são influência do psytrance, o famigerado ritmo eletrônico que mais particularmente ficou associado à “rave fritação” do começo dos anos 2000. “Tenho inspiração em música do psy e tento incluir isso no brega, deixar mais eletrônico. No psy, tem o crescente, que vai subindo até a quebra e o drop do beat. No meu caso, dropa o beat de brega”, detalha.

Elloco. Foto: Igor Marques
Elloco, durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca da dupla, 24 por 48. Foto: Igor Marques/VICE

24 por 28

Além da música e do passinho, Shevchenko & Elloco tornaram-se ícones no visual do bregafunk com a sua marca de roupas e acessórios, a 24 por 48. No último dia 10, rolou a reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca. Um evento mega esperado, com presença do paredão Sucatão e praticamente todos os grupos de passinho de Pernambuco. Entre as 7h e 18h daquele domingo, milhares de pessoas enfrentaram o sol infernal do verão recifense e uma longa fila para entrar na loja, espremida entre uma banca de apostas e um bar pega-bêbado às margens do canal de esgoto que corta o bairro do Arruda, Zona Norte da cidade. Mas todo mundo saiu satisfeito com seu novo outfit — que, ao contrário do que a maioria pensa, não é tão barato assim; uma regata custa R$ 50, o boné sai por R$ 70 e para pegar uma bolsa lateral é preciso desembolsar R$ 150 (sim, mais caro que uma Adidas).

Reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da 24 por 48, marca criada por Shevchenko e Elloco. Foto: Igor Marques/VICE
Reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da 24 por 48, marca criada por Shevchenko e Elloco. Foto: Igor Marques/VICE

A marca foi criada por volta de 2008 para que ele e sua dupla pudessem inventar e apresentar um estilo próprio em seus clipes. “Queremos criar o estilo da gente, mano. Como rapper de fora que sai fazendo a própria marca. Antigamente eu usava muito Quiksilver, Shev usava muito Nike — tanto que antigamente era Shevchenko da Nike & Elloco da Quik. Mas eu queria era me destacar. Tanto que a primeira roupa que a gente fez era uma camisa preta aí botou o 24 em amarelo limão e o 48 rosa”, conta Elloco.

De início, as roupas eram peças únicas para os MCs. Ou então circulava entre a torcida e jogadores do Tropa 24 por 48, o time de futebol de várzea comandado por Shev. Após o sucesso de “Gera Bactéria”, com os meninos usando a roupa da marca no clipe, todo mundo voltou a perguntar onde era possível comprar essas roupas, e então a 24 por 48 voltou a todo vapor.

Molecada do bairro do Arruda durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca de Shevchenko e Elloco, 24 por 48. Foto: Igor Marques/VICE
Molecada do bairro do Arruda durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca de Shevchenko e Elloco, 24 por 48. Foto: Igor Marques/VICE

Designer responsável pela criação das estampas da marca, Ronald Artes diz que passa de cinco a seis dias para desenvolver uma estampa para os MCs. “Tem um trabalho de marketing por trás, a gente tem que saber o público que vamos atingir. Agora a moda é o passinho, aí a gente bota negócio de favela, diferenciado, com várias cores neón e eles vão fazendo os duelos dele. É muito diferente dos vídeos de funk de São Paulo que a camisa é branca, preta ou vermelho. A gente foca nas cores vivas pra ficar em destaque”, salienta.

Até o momento a marca tem duas coleções. A primeira é a Sem Olhar, que traz o universo das peladas de futebol em estampas como “jogador não olha pra foto” e “pela passada é jogador”. A outra é a Eu Tô Só Calado, bordão da dupla que sintetiza o perfil come quieto. Ou como diz uma frase recorrente em seus posts no Instagram: “Nóis trabalha no silêncio e deixa o sucesso fazer barulho.”

Chapéus e bonés da 24 por 48 na Braba de Milionário, loja oficial da marca criada por Shevchenko e Elloco. Foto: Igor Marques/VICE
Chapéus e bonés da 24 por 48 na Braba de Milionário, loja oficial da marca criada por Shevchenko e Elloco. Foto: Igor Marques/VICE

Mas qual é a referência para se criar as peças? “A minha referência sou eu mesmo”, responde Shevchenko, à la Kanye. Elloco indica que as ideias surgem do clima de “escamação”. “‘Escama’ é a palavra forte da favela. 'Escamoso' é o cara que gosta de botar a beca, a roupa massa, com uma cor massa. Às vezes a galera fala que escama é só de peixe, aí a gente diz: ‘É os peixes que tá no bolso’”, explica.

Carnaval

Embora domine a internet, as ruas, todas as festas (na periferia ou no centro) e movimente uma enorme setor da economia criativa de Pernambuco, o brega continua fora dos principais palcos da Prefeitura do Recife no Carnaval. Há dois anos, a chamada “lei do brega” transformou o ritmo em expressão cultural legítima de Pernambuco e determinava a sua presença em festas públicas, ao lado de expressões como manguebeat, caboclinho, maracatu, ciranda e frevo.

Biel Xcamoso usando 24 por 48. Foto Igor Marques/VICE
Biel Xcamoso usando 24 por 48. Foto Igor Marques/VICE

Oficialmente reconhecido como cultura, não havia mais desculpa para a ausência do brega nas festividades carnavalescas. Mas não foi o que aconteceu. O Estado continua negando violentamente parte da identidade de boa parte da população, insistindo numa visão limitada, folclórica e higienista da cultura popular. E a violência simbólica acaba virando violência física. No fim de janeiro, um jovem de 18 anos teve de retirar o olho após levar um tiro de borracha de um policial militar na saída de um evento de passinho. Como diria o filósofo colombiano Martín-Barbero, é o ideal de cultura que vai permitir à burguesia cindir as práticas sociais em moderno/atrasado, nobre/vulgar.

“A galera bota brega como cultura e pá, beleza. Mas tem o preconceito. 'ah, periferia é um povo meio feio'. Aquelas pessoas de mente fechada, tá ligado, meu mano?”, insiste Elloco. “Não adianta, você tem que colocar [no palco] coisa que o povo gosta. Às vezes paga um cachê altíssimo pra artista de fora mas não vem aqui na região fazer o peneirão, escutar as pessoas para saber o que elas tão ouvindo”, diz, aludindo à nomes como Jota Quest (que tocou no palco principal do Marco Zero em 2016, 2017 e tocará novamente este ano) e Gaby Amarantos (que cantará no Marco Zero pelo quarto ano consecutivo).

Jovens dançam durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca de Shevchenko e Elloco, 24 por 48. Foto: Igor Marques/VICE
Jovens dançam durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca de Shevchenko e Elloco, 24 por 48. Foto: Igor Marques/VICE

Festival aberto que ocorre durante o Carnaval (embora com curadoria e produção próprias), o Rec-Beat foi o primeiro a quebrar o silêncio em torno do brega, escalando o MC Tocha, no ano passado. Este ano eles continuam a linha com o MC Shevchenko & Elloco, o que dividiu opiniões — de um lado, elogios por abarcar a real diversidade cultural de Pernambuco; do outro críticas racistas e classistas como “isso não é cultura”, “é isca de bandido” e afins. “É natural esse tipo de resistência, ocorreu também no início do Rec-Beat quando trouxemos Devotos, Nação Zumbi, Siba, Faces do Subúrbio”, observa Gutie, o diretor do festival. “As pessoas não conhecem, não querem sair de sua zona de conforto e ficam associando à violência. Trazer o brega nada mais é do que a manutenção do conceito e da filosofia do festival, que sempre trouxe artistas que estão, de certa forma, no subterrâneo”.

Ele salienta que, no show de Tocha no ano passado, não houve qualquer tipo de confusão. “Acho que quando você dá uma estrutura boa, o artista e o seu público se sentem representados e respeitados. O bregafunk é uma celebração popular, como o samba, o frevo e o maracatu eram em sua origem e passa pelos mesmos problemas que esses ritmos passaram”, analisa.

Molecada do bairro do Arruda durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca de Shevchenko e Elloco, 24 por 48. Foto: Igor Marques/VICE
Molecada do bairro do Arruda durante reinauguração da Braba de Milionário, loja oficial da marca de Shevchenko e Elloco, 24 por 48. Foto: Igor Marques/VICE

Não obstante, os MCs passam a se movimentar e criar seus próprios palcos, reinventar seus espaços para driblar as censuras cotidianas. Shevchenko, por exemplo, não quer mais depender da boa vontade da prefeitura ou da visão dos festivais e pretende partir para tática do faça você mesmo. “Eu tô criando minhas ideias de fazer meu próprio festival. Alugar meu canto, só com minhas bandas tocando, com minhas roupas. Aí compra a camisa e já é o ingresso do festival. Tô com uma ideia assim pra tentar entrar nos locais que a turma tá tendo travar”, finaliza.



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