reportagem

O inferno na Terra que é ser uma garota-soldado na Eritreia

“Depois dos 16 anos, sua vida não é mais sua.”

por Zoe Holman; Traduzido por Marina Schnoor
05 Setembro 2017, 5:39pm

Foto: Temesgen Woldezion/Wikicommons.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Austrália .

Dez anos atrás, como outros adolescentes no país do nordeste africano Eritreia, Luwam Estifanos foi levada para o Sawa, um acampamento militar perto da fronteira com o Sudão. Lá, onde os eritreus passam seu ano final do ensino médio, eles também embarcam no que pode se tornar uma vida inteira de serviço militar forçado.

"Depois dos 16 anos, sua vida não é mais sua até deus sabe quando", diz Luwam, que agora é uma ativista dos direitos humanos e universitária. Hoje morando na Noruega, a mulher de 27 anos descreve a Eritreia como uma prisão a céu aberto: "Na verdade é escravidão, porque o serviço militar não acaba nunca", ela explica. "Não tem fim, você pode acabar servindo a vida inteira. Você perde sua juventude lá."

A Eritreia é descrita pelo Human Rights Watch como a Coreia do Norte da África. Além de expor seus soldados a tantos outros autoritarismos — restrições pesadas de liberdade de expressão e movimento; prisões arbitrárias e tortura; perseguição religiosa —, o sistema único de serviço militar obrigatório sem fim definido para seus cidadãos faz da Eritreia um dos países mais opressores do mundo.

Desde 2003, o governo segue sua política atual ao mandar todos os estudantes do ensino médio do país, tanto meninos quanto meninas, para servir um período mínimo de doze meses. Ainda assim, a conclusão do serviço militar permanece indefinida.

Sob as leis eritreias, a idade mínima de recrutamento é 18 anos, mas como aconteceu com Luwan, a maioria dos adolescentes se veem recrutados com 16 anos ou até antes. Em áreas rurais, onde a educação formal é mais rara, o exército visita vilarejos para levar meninos e meninas que pareçam ter essa idade para começarem seu programa de treinamento de combate e trabalho forçado.

"Como meninas, éramos tratadas igual os outros soldados [homens]", diz Luwam. Um dia típico começava às 5h30, com duas horas de corrida antes do nascer do sol, seguida de 12 horas de treinamento com armas, marchas e limpeza. As garotas são obrigadas a fazer todas as atividades como os garotos — mas geralmente tendo que repetir um ano inteiro de treinamento simplesmente por não conseguirem manusear direito armamento pesado.

Uma cerimônia de formatura eritreia, como mostrado pelo canal de televisão eritreu Eri-TV.

Formas específicas de tratamento são reservadas para mulheres e meninas: "Muitas recrutas são sujeitas a abuso sexual ou assédio por militares de alto escalão", explica Luwan. "Normalmente há uma garota para cada 16 ou 17 homens, e vocês têm que dormir no mesmo quarto. Durante nosso treinamento, tomávamos cuidado para não ficar muito perto dos caras ou sozinhas com eles, mas era difícil evitar. A menos que os sirva — fazendo comida ou café —, você se torna um alvo. Depois do treinamento, ouvi várias histórias de meninas que ficaram grávidas."

Esses riscos se refletem nas estatísticas sobre abuso durante o treinamento militar. Um relatório recente da Anistia Internacional descobriu que de 14 mil pessoas que se formaram no acampamento Sawa em 2016, 48% eram mulheres que experimentaram alguma forma de violação específica de gênero — incluindo escravidão sexual, tortura e abuso.

Como Luwam explica, esse recorde notório de estupro e assédio sexual significa que oficiais de baixo escalão têm o cuidado de esconder esses tipos de comportamento. Mas vão infligir um catálogo de outras punições específicas de gênero em jovens mulheres, especialmente se elas ficam doentes. "Eles te fazem pular de um telhado, ou te batem. Se você perde a voz, eles trazem cobras e escorpiões para tentar te fazer gritar. Então se alguma de nós ficava doente, fazíamos de tudo para esconder."

Meron Estefanos, a diretora de Estocolmo do Eritrean Initiative on Refugee Rights, diz que o destino de uma garota em Sawa provavelmente acaba determinado por sua aparência. "Dentro do exército eles riem disso", ela diz. "Se você for muito bonita, um oficial de alto escalão provavelmente vai te escolher para o pelotão dele. Outras garotas podem ter um namorado que também está servindo, então se o oficial decidir que quer te punir, ele pode prender ou sumir com seu namorado para te fazer sofrer."

A natureza física e psicologicamente cruel do serviço militar no país significa que as autoridades eritreias desenvolveram um aparato nacional de repreensão e interceptação, para punir quem tenta fugir do serviço. Qualquer um pego tentando escapar do serviço militar pode ser preso por um longo tempo — geralmente na rede de prisões clandestinas, ou em contêineres sob o sol escaldante.

Se depois disso a pessoa sobreviver, desertores são mandados de novo para o serviço militar, geralmente em cargos piores. Se recrutas são encontrados na fronteira, é muito possível que eles sejam derrubados pela política de atirar para matar da polícia.

A própria Luwan sobreviveu por pouco às balas do exército quando fugiu do país sozinha em 2010. Como filha de um escritor e ativista, ela e a família eram alvos óbvios das autoridades. Quando seu pai viajou para a Noruega para uma conferência, ele aproveitou a oportunidade para pedir asilo político, logo trazendo a outra filha e a esposa, e pagando US$4 mil [cerca de R$ 12 mil] para um contrabandista pela jornada de Luwam.

"Eu sabia que era uma questão de vida ou morte, mas como tínhamos pago tanto dinheiro, eu achava que a rota seria tranquila", diz Luwam. "Não foi. Atiraram em nós enquanto cruzávamos a fronteira e tivemos que nos esconder embaixo de uma árvore até eles pararem." Depois ela fez uma caminhada de 12 horas pelo deserto do Sudão. "Fiquei tão desidratada que achei que ia morrer. Havia esqueletos e corpos pelo caminho", relembra. "Quando cheguei ao Sudão, fiquei com ainda mais medo por causa dos contrabandistas. Mulheres estavam sendo torturadas e estupradas."

"Atiraram em nós enquanto cruzávamos a fronteira e tivemos que nos esconder embaixo de uma árvore até eles pararem. Quando cheguei ao Sudão, fiquei com ainda mais medo por causa dos contrabandistas. Mulheres estavam sendo torturadas e estupradas."

Depois de um ano no Sudão, sem poder sair de casa, Luwan viajou para Uganda e depois de uma recusa e meses de espera, ganhou asilo na Noruega. Apesar da jornada perigosa e da recepção fria aos requerentes de asilo eritreus na Europa, a perspectiva de ser escravo do exército está levando um número cada vez maior de jovens eritreus a fugir. "A jornada é horrenda, mas muita gente agora está tentando escapar", diz Luwan. "No meu ano no exército, 20 mil pessoas entraram para o serviço militar e no final havia apenas 16 mil — o resto tinha fugido."

E são meninas em particular que estão cada vez mais assumindo o risco, dizem ativistas. "Normalmente eram homens que fugiam e depois traziam suas esposas, mas mais e mais mulheres [jovens] estão fugindo agora", diz Estefanos. A maioria das refugiadas que chegaram de barco a Itália em 2014 eram da Eritreia, ela diz, acrescentando que a maioria era de menores desacompanhadas.

A maior taxa de morte em naufrágios nas costas europeias também são de eritreus. Estefanos conta a história de uma garota que conheceu na ilha italiana de Lampedusa – ela era a única sobrevivente de um naufrágio em 2013 que matou mais de 360 pessoas.

"Quando tinha 13 anos, soldados chegaram ao vilarejo dela na Eritreia e disseram que ela parecia mais velha, então a levaram", ela diz. "Ela teve que passar 48 horas sendo abusada numa prisão até que sua família trouxesse documentos provando a idade dela. Depois disso ela decidiu fugir."

Refugiados eritreus com cartazes durante um protesto contra o governo do país. Foto cortesia da Human Rights Watch.

As eritreias que chegam vivas às costas europeias geralmente relatam ter sido estupradas em média três ou quatro vezes durante a jornada, aponta Estifanos. Muitas tomam anticoncepcionais potentes antes de partir por causa dessa realidade, o que pode render problemas de infertilidade a longo prazo.

Quem fica na Eritreia — particularmente a maioria que não passa na prova nacional de entrada na universidade — contempla um futuro de servidão nos escalões do exército e do governo, com um salário médio de US$10 por mês. "Geralmente, os jovens são mandados para longe de suas famílias, para trabalhar em campos ou em projetos de construção em condições precárias", explica Felix Horne, pesquisador sênior da Eritreia para a Human Rights Watch. "Esses projetos não têm valor educativo — eles essencialmente fornecem mão de obra gratuita."

Grupos internacionais, incluindo o Human Rights Watch, vêm fazendo lobby para conscientizar o mundo sobre a política de escravidão nacional na Eritreia. Em 2016, a própria Luwan testemunhou na investigação da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre o serviço militar na Eritreia — apesar de brincar que, como o país não tem petróleo ou armas nucleares, isso gera pouco interesse internacional.

Para Horne, a magnitude da repressão na Eritreia torna a pesquisa e a publicidade do abuso quase impossíveis. "Uma das coisas chocantes que vem dos relatórios dos eritreus é o impacto enorme que o serviço militar tem em garotas e mulheres", ele diz. "Não há muita nuance e isso precisa ser mais investigado, mas é incrivelmente difícil encontrar mulheres e garotas dispostas a falar. Esse é o nível inacreditável de medo entre todos os eritreus."

Há uma grande diáspora eritreia, explica Horne, mas mesmo quem consegue chegar ao final da jornada fica reticente em discutir suas experiências — mesmo em particular com amigos, quanto mais com pesquisadores internacionais. "Há esse medo de que se você falar sobre o que está acontecendo na Eritreia, seus familiares se tornarão alvos. A sensação é de que você nunca está seguro; o medo se estende por todas as camadas da sociedade eritreia."

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