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A gente esqueceu o maior jogador de sinuca do Brasil

O Carne Frita.

por Peu Araújo
30 Novembro 2015, 7:58pm


Carne Frita mostra a bola branca, sua grande arma na sinuca. Foto: Guilherme Santana/VICE

Numa casa modesta no bairro de Água Rasa, na zona leste de São Paulo, Walfrido Rodrigues dos Santos não precisa se esforçar para se esconder dos olhares de quem um dia o aplaudiu.

Aos 86 anos, o lendário Carne Frita, aquele que só faltava fazer chover em uma mesa de sinuca entre os anos 50 e 70, hoje vive em companhia de uma cuidadora e se recupera com dificuldade de uma hérnia recém-operada.

Também chamado de "Pelé da Sinuca" – alguns preferem compará-lo a Garrincha por causa do estilo –, Walfrido está vivo, ressentido e traumatizado. "O que fiz na sinuca não vai aparecer. Aonde passei, todo mundo conhece e ninguém me chama de pilantra", diz, encostado no sofá de sua casa, segundos antes de reviver a maior dor de sua vida.

"A pancada que eu levei parece que foi agora."

Com uma bolsa de urina e aspecto frágil, Walfrido parece não conseguir se desvencilhar da memória do seu maior pesadelo, o episódio que, segundo ele, desgraçou sua carreira profissional: uma agressão de um policial nos idos de 70. "Um PM me deu com soco inglês aqui [aponta para o olho esquerdo], e isso aqui é tudo remendado. Não posso mais jogar."

Seria a primeira das muitas vezes que Carne Frita evocaria o episódio durante nosso encontro. Por causa da senilidade ou do trauma, o golpe recebido se tornou uma obsessão. Mesmo quando questionado sobre outros temas, ele volta ao assunto para reviver a dor e a lembrança ruim. "Não posso me agachar pra saber onde pegar na bola", afirma.

A confusão que terminou em murro aconteceu no Edifício São Vito, o Treme-Treme, um prédio que se popularizou como o maior cortiço verticalizado da cidade de Sâo Paulo. Em 13 de junho de 1974, dia de Santo Antônio e abertura da Copa do Mundo de Futebol, no 24º andar do prédio, Carne Frita perdeu o rumo da carreira e ganhou, além do soco, uma lembrança dolorida. Frita não explica o motivo da agressão. Quando questionado, desvia como bola que leva o taco na orelha. Sai enviesado, desfaz o papo, não responde. Boatos da época diziam que envolvia mulher. Ele afirma que não, mas ainda assim despista. Encosta-se na parede, emudece.

"Chamava Nelson Gonçalves. Morreu o desgraçado."


O artilheiro da sinuca fala sobre o soco que marcou sua vida. Foto: Guilherme Santana/VICE

Ainda que se recupere de uma hérnia e de outros transtornos de saúde, Walfrido tem memória inabalável. Com calma e muitos detalhes, ele conta que só foi umbigar uma mesa de sinuca com a maioridade. "Naquele tempo, era PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e UDN (União Democrática Nacional). Menor não podia jogar, tinha que ter 18 anos. Eu ficava na porta vendo os outros", revela.

O jeito que Frita arrumou para treinar foi improvisar seu próprio joguinho. "Eu fazia sinuca de bola de gude pra arrumar dinheiro e ir ao cinema. Cobrava o tempo do pessoal. De vez em quando, passavam os soldados, bichos filhos da puta, e levavam a minha sinuquinha", recorda.

Sergipano de Propriá, cidadezinha banhada pelo Rio São Francisco na divisa com o Estado de Alagoas, Walfrido ganhou o apelido aos oito anos de idade. "Apareceu um palhaço na perna de pau, e ele foi perguntando o nome de todo mundo. Eu falei: 'Walfrido'. Acho que ele entendeu 'carne frita', e aí os colegas começaram a rir", conta, com ritmo pausado. "Por onde eu passava era. 'Ó, o Carne Frita'. Eu ficava bravo, xingava: 'É sua mãe'. E ficou."

Dono de elegância ímpar nas tacadas, Carne Frita virou astro da sinuca numa época em que o esporte era pouco popular no país. "Comecei a jogar e me dei bem. A gente nasce com o dom, né?. É igual futebol", compara. Nos anos 50, Frita virou "o taco mais forte do Brasil" e ganhou status de celebridade. Ele aparecia na televisão e era uma figura boêmia querida por artistas, cineastas e escritores. Um de seus grandes admiradores era o escritor paulistano João Antônio, que, em seu livro Malagueta, Perus e Bacanaço , de 1966, criou um encontro fictício entre os três protagonistas e Carne Frita – e não poupou elogios ao sinuqueiro:

"À esquina da Santa Efigênia toparam Carne Frita, valente muito sério, professor de habilidades. Havia na cidade e ainda noutras cidades, bons entendedores e tacos atilados com capacidade para fechar partidas, liquidando as bolas. Havia nomes e famas que corriam. Muitos, muitos. Praça, Paraná, Detefom, Estilingue, Lincoln, Mãozinha... Eram artistas do pano verde. Mas Frita... quem entendia de sinuca era ele".

Mais tarde, em 1977, o filme O Jogo da Vida, do cineasta paulista Maurice Capovilla, baseado no mesmo conto de Antônio, apresentaria Carne Frita numa cena matadora encaçapando uma bola simples e depois emendando uma sequência de 10 tacadas certeiras, concentradas e impressionantemente calmas.

Tanto Carne Frita quanto João Antônio reprovaram o longa-metragem. O escritor se incomodou com a escolha dos atores e a falta do physique du rôle. Carne Frita não curtiu mesmo foi a falta de faz-me-rir. "O João Antônio fez livro, fez filme. Onde me via, me entrevistava, mas nunca me deu um centavo", comenta Frita, que, depois de um longo silêncio, volta à noite em que foi golpeado na cabeça:

"Me fodeu pra jogar. Em pé, você não sabe onde pega na bola, tem que agachar. E eu não posso, porque me dói. Tem que usar óculos. Eu caí de produção."


Carne Frita empunhando o taco de 480 gramas. Foto: Guilherme Santana/VICE

O bilhar é mais do que um dom para Walfrido: é sua grande paixão."Eu pedia a Deus pra amanhecer o dia pra eu ir pro bilhar." E completa: "Quando eu pegava pra matar, dificilmente eu errava. Eu não perdia pra ninguém, modéstia à parte".

Enquanto Carne Frita fala, sua mão esquerda se movimenta como se estivesse esperando os 480 gramas de seu taco – uma vasta abertura entre o dedão e o dedo indicador. "Eu que me patroei", revela Frita, ao contar suas táticas à beira da mesa. "Eu gostava de jogar caro. Saía perdendo, mas na continuação ia pegando a mão."

Pegar a mão é modéstia mesmo. Na continuação, ele, como num bote certeiro de sucuri, aniquilava o adversário. O segredo, diz, era controlar a bola principal. "Meu forte é que eu domino a bola branca. Eu defendo bem e domino a que eu jogo e paro quase onde quero."

A lista dos desafetos de Carne Frita não é pequena – ela se alastra a praticamente todo mundo ligado ao bilhar. "Tinha um tal de Praça. Já ouviu falar, né? É um pilantra. Tem o Gaguinho, um pernambucano. Ele joga bem, mas o que ele é pilantra não tá escrito", critica. Ainda assim, mesmo com tantos inimigos e sem jogar, não é difícil o encontrar nas beiradas das mesas. Seu local preferido é o Big House, snooker bar encardido e com ótimas mesas próximo à sua casa. "Morei em uns 15 lugares por aqui, sempre perto do Big House", ele fala.

O taco de Carne Frita virou lenda por onde passou. Foi "o bom" em Aracaju, Salvador – e ele andou Brasil afora até conquistar uma realização pessoal. "O meu sonho era conhecer o Rio, porque era a capital da república. Fiz o nome lá. Sou conhecido em qualquer bilhar na Cinelândia." Revela que morou no Catete e viu muito, o então presidente Getúlio Vargas de bobeira por ali. Sobre sua vinda a São Paulo, se limita a dizer que foi trazido por um cara e que aqui conheceu um "pilantra que sumiu". Algumas respostas de Walfrido são vagas e desorientadas.

Apesar do ostracismo há décadas, em 2013 ele foi inspiração para Thiago França na música "Tema do Carne Frita", do álbum Malagueta, Perus e Bacanaço, que se debruça no conto de João Antônio.

Ao ouvir a música que carrega seu nome de guerra, Walfrido estranha a falta de letra e reaviva os vozeirões de seus ídolos. "Naquele tempo tinha o dance. Eu ia às vezes e ouvia umas músicas. Eu gostava de Altemar Dutra, Nelson Gonçalves", ironicamente o mesmo nome do cara que afundou a sua cara com um soco inglês. Até os conhecidos brincavam falando: 'Vai botar o cantor na cadeia'."

Hoje, a única companheira de Frita é sua cuidadora Tânia Xavier. Os dois filhos, a quem ele não se dedica muito a falar, estão decididos a interná-lo num asilo, talvez ainda neste ano. Ele não gostou da notícia. Segundo Tânia, o Pelé da sinuca está "nas mãos de Deus". "Ninguém tem tempo pra ele. Ou ele vai pro asilo, ou vai morrer aqui sozinho, na sujeira e com fome."

"Parece que eu tomei a pancada agora", ele comenta pela enésima vez num mantra de dor, confusão mental e sofrimento, antes de se despedir.


As mãos de Carne Frita preparadas involuntariamente para a ação. Foto: Guilherme Santana/VICE