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Sabe o que é frustração? Máquina de fazer incel

Os celibatários involuntários do Brasil já deram as caras antes da alt-right se formar como um grupo de ódio da extrema-direita nos EUA.

por Marie Declercq
15 Maio 2018, 3:29pm

Wellington Menezes de Oliveira  Alek Minassian Elliot Rodger

No dia 7 de abril de 2011, o jovem de 23 anos Wellington Menezes de Oliveira caminhou a pé até a Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, Rio de Janeiro, carregando um revólver calibre .38 e outro .32. Ex-aluno, ele já conhecia a área e soube despistar suas reais intenções logo na entrada: disse que iria fazer uma palestra para os alunos. Wellington estava bem vestido e por isso adentrou a escola sem dificuldades às oito da manhã.

Calmamente, entrou sem pedir licença numa sala de aula da 9ª série, onde os alunos estavam tendo uma dobradinha de Português, e abriu fogo. Com uma arma em cada mão e carregadores tipo speedloader, conseguiu dar trinta tiros. Apontava para os braços e as pernas dos meninos, evitando a letalidade. Já as meninas tomavam tiro na testa, sem chance de conversa.

Em alguns minutos, matou 10 meninas e feriu dois garotos, entre 13 a 16 anos. Quando caminhava para o terceiro andar, levou dois tiros dos PMs que atenderam à emergência. Um na perna e outro no abdômen. Derrotado, voltou uma de suas armas contra a própria cabeça e se matou.

Os assassinatos ficaram conhecidos como o Massacre de Realengo. Um dos pouquíssimos assassinatos em massa, típicos dos EUA, no Brasil. Antes de Realengo, havia apenas o Atirador do Cinema em 1999 no histórico.

O Massacre de Realengo foi destrinchado pela imprensa e chegou até a ser considerado um massacre com motivações terroristas por causa do discurso religioso carregado nos vídeos e na carta suicida do atirador. No entanto, as conclusões acabaram sendo as mesmas dos casos mais comuns nos EUA: Wellington era um jovem perturbado psicologicamente e teve uma criação conturbada. Perdeu os pais cedo e sofreu chacotas na mesma escola onde abriu fogo.

A intenção de de Wellington em ferir os meninos e matar as meninas foi descoberta aos poucos, a partir dos depoimentos dos jovens vítimas do massacre. Entretanto, não foi considerado um ataque misógino.

Apesar das motivações católicas que supostamente justificaram o ataque na visão de Wellington, um detalhe importante curiosamente não ganhou a atenção que deveria naquele momento. Em 2012, um ano após o massacre, a Polícia Federal descobriu que Wellington foi influenciado e incentivado por Marcello Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues Setim, ambos parte da seita cibernética Homini Sanctus – conhecida pelo ódio contra mulheres, a população LGBT, negros e qualquer outra minoria. Durante a investigação a PF também descobriu que os acusados estavam organizando outro ataque, desta vez contra os alunos de Ciências Sociais da Universidade de Brasília.

Na época, pouco se discutia sobre essa preocupante ascensão de grupos de ódio ligados à extrema-direita. Trump presidente era uma piada distante e o termo alt-right ainda estava para ser forjado. O caso de Marcelo, Emerson e os homens sanctus caiu num certo esquecimento.

Os Homini Sanctus propagavam sua mensagem através de fóruns, chans e sites criados estritamente para o fim de causar revolta aos internautas e gerar grande atenção e tráfego. Era o modus operandi mais conhecido dos trolls brasileiros que jamais davam as caras em público para destruir o que eles pensam ser os verdadeiros inimigos do homem: mulheres. Wellington mudou o jogo levando isso para a vida real e dando um exemplo nefasto para jovens que até então eram apenas pessoas tristes e perturbadas escondidas por trás de uma tela de computador.

A seita dos "sanctus" concentrou ideias e frustrações de homens misóginos em um só lugar e gerou descendentes, como o fórum Dogolachan, que ganhou escrutínio público após uma reportagem da Ponte Jornalismo. No fórum, criado em 2013, os usuários culpavam as mulheres pelos fracassos pessoais. Se julgavam vítimas do sexo feminino e, principalmente, do feminismo, por não conseguirem nutrir relacionamentos amorosos e sexuais, já que as mulheres nunca se interessariam por homens “legais” e “de bem” que nem eles. Muitos usuários, protegidos pelo anonimato, se diziam virgens por culpa delas.


Assista também nosso documentário sobre pornô de vingança:


Nos textos da época, o ódio e a tristeza se sobressaíam. Apesar dessas frustrações serem fruto da própria estrutura patriarcal que exige que o homem seja comedor e bem-sucedido financeiramente e que as mulheres sejam mães, recatadas e submissas, os sanctus defendiam essa estrutura com unhas e dentes, pouco conscientes que a figura do homem que eles veneram é tão inatingível quanto o tipo de mulheres que eles gostariam de possuir.

Por não conseguirem atender esse conceito de masculinidade, seja por condições socioeconômicas, psicológicas ou porque simplesmente essa definição é prejudicial por natureza, os homens sanctus culpavam minorias. E faziam isso disseminando guias de como estuprar mulheres, incentivando o assassinato de gays e compartilhando de ideias assumidamente racistas, sem qualquer maquiagem.

A friendzone, praticada pelo o que eles chamam de “merdalher” ou “depósito de porra”, era equiparada ao estupro. Mulher que amamenta em público está chamando atenção de um otário para sugar dinheiro. Esse discurso, munido também de uma carga religiosa católica pesada, chegou até Wellington, que procurou a seita para pedir conselhos.

O discurso da seita tem dimensão internacional hoje em dia, chamado de celibatários involuntários. Muito dessa fama se deve por causa de dois atiradores: Elliot Rodger e Alek Minassian.

Em 2014 Rodger matou seis pessoas a tiros e facadas na Califórnia, se matando em seguida. O chamado “Dia da Retribuição” era uma ação para vingar as frustrações do rapaz, virgem aos 22 anos, solitário e cheio de ódio. Ele reproduzia um discurso parecido com o que grassava no submundo brasileiro: não transou e sequer beijou uma mulher por culpa delas. E por isso elas teriam que morrer. Em 2018 outro assassino em massa com o mesmo discurso voltou a atacar, desta vez no Canadá. Alek Minassian atropelou um grupo de pessoas, matando 10, em Toronto. O jovem cumpria a chamada “rebelião incel” com os mesmos motivos declarados de Wellington e Rodgers: a virgindade indesejada e a rejeição do sexo oposto. Os grupos de Reddit, chans e fóruns que juntam esse tipo de "ativistas" usam amplamente o termo “incel”, contração de "involuntary celibates", que pode ser traduzido por "celibatários involuntários" .

Os incels são vertentes ou desdobramentos de grupos como os ativistas dos direitos dos homens (Men’s Rights Activists, em inglês) e os próprios jovens que se identificam como alt-right (muitas vezes são a mesma coisa), alimentados por usuários que simpatizam com atitudes que vão da malfadada técnica do "Pick-up Artist" até ações mais extremas como as dos atiradores em massa.

Apesar das investigações terem ligado os homens sanctus ao ataque de Realengo e também terem descoberto planos de outro ataque da mesma natureza, Marcelo e Emerson receberam uma pena branda pelos crimes. Por conta da Operação Intolerância, ambos foram condenados a uma pena de 6 anos e seis meses de reclusão pelos crimes de ódio, porém em regime semiaberto. Porém, por conta de um indulto judicial, Marcelo e Emerson foram liberados em menos de um ano de pena.

Mesmo condenado, Marcelo não se deu por satisfeito e prosseguiu dedicando sua vida ao ódio. Em 2013, no mesmo ano em que foi liberado da cadeia, Marcelo fundou o Dogolachan e iniciou a perseguição contra a professora da Universidade do Ceará e militante feminista Lola Aronovich. Ameaças de morte, xingamentos e mentiras são ainda diariamente publicadas contra Lola desde essa época, fazendo ela se tornar uma espécie de símbolo de tudo que eles odeiam no feminismo (e talvez, um espelho do que eles odeiam em si mesmos). Também os simpatizantes de Marcelo praticavam o doxxing, que é a divulgação de dados pessoais em público, contra Lola e pessoas próximas a ela, incluindo seu marido, um tipo de tática comum de trolls para prejudicar o inimigo. Em uma caso emblemático, criaram um site que postava imagens de pornografia infantil e o vincularam ao esposo de Lola - nomes ilibados da extrema-direita nacional, como os cantores Roger e Lobão, se prestaram a espalhar a mentira.

Mesmo no Dogolachan e no site Rio de Nojeira, ambos vinculados às ações de Marcelo, o discurso quase não se evoluiu desde 2013. A novidade mesmo ficou por conta do apoio de inúmeros usuários e do próprio Marcelo ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e divulgação repulsiva de fotos de Marielle Franco morta.

Após denúncias em massa e a Operação Bravata deflagrada na última quinta-feira, Dogolachan praticamente saiu do ar, assim como fóruns como o 27chan e o 55chan. No entanto, os usuários ainda aparecem em outros fóruns e agora estão contra a figura de Marcelo, com o cu na mão de serem os próximos investigados por crimes de ódio na internet.

Embora a prisão preventiva de Marcelo e a condução coercitiva de Emerson terem sido comemoradas pela internet, muitos ainda estão desconfiados se esta prisão será finalmente eficaz para brecar essa quadrilha de jovens tristes. Com o crescimento internacional de grupos fundados na misoginia e o fantasma de Realengo para nos lembrar qual pode ser o resultado final da propagação da ideologia misógina, resta pedir para as autoridades nunca minimizarem o perigo dos celibatários involuntários.

Há sempre um mártir disposto a agir.

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