O turismo temático do Harry Potter está acabando com Edimburgo

A cidade está cheia de armadilhas toscas para turistas sobre o mago celebridade.

por Liam Turbett; Traduzido por Marina Schnoor
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23 Janeiro 2018, 10:00am

Foto por Liam Turbett.

Matéria originalmente publicada pela VICE Reino Unido.

“O que acontece quando morremos?” é uma das questões existenciais que os humanos se perguntam desde que se conscientizaram sobre a própria mortalidade. Poucos de nós já pensaram que nossos nomes podem ser apreendidos das nossas sepulturas por uma escritora de best-sellers, colocado num mago malévolo fictício e nosso local final de descanso ser transformado numa atração turística para fãs de uma popular franquia de fantasia.

Mas esse é o destino do falecido Thomas Riddell, que morreu em Edimburgo, Escócia, em 1806. Seu túmulo, localizado no Greyfriars Kirkyard da cidade, se tornou um ponto de peregrinação para centenas de visitantes todo dia, que vão até o lugar para ver a inscrição que possivelmente inspirou o nome de um personagem de um livro.

O nome de Riddell, como você pode ver, parece com Tom Riddle, conhecido mais como o mago vilão Lorde Voldemort, o principal antagonista da série Harry Potter de J.K. Rowlings. Em outra tumba próxima, alguém rabiscou “Sirius Black, 1953 – 1996”, uma referência a outro personagem da série.

Turistas no túmulo de Thomas Riddell. Foto por Liam Turbett.

Essa parte do cemitério agora está lotada de visitantes; a grama já virou lama por centenas de visitas diárias à tumba obscura. Esse é só mais um sintoma de uma tendência emergente: turismo temático do Harry Potter está se infiltrando cada vez mais em Edimburgo, na Escócia.

O ano mal tinha começado quando foi revelado – numa misteriosa mudança de letreiro da noite para o dia – que o conhecido pub no centro da cidade, o Conan Doyle, agora é J.K. Rowling Pub. No caso do ponto precisar ser ainda mais martelado, uma placa pendurada na fachada mostra o retrato da autora sentada para uma refeição de três (três!) ovos cozidos num apartamento de aparência austera. Aparentemente, isso teve a ver com um festival de arte com tema de literatura, portanto uma mudança temporária, mas também um golpe publicitário inteligente, que gerou cobertura da imprensa no mundo inteiro.

Espera aí, né. Foto por Liam Turbett.

Os donos do pub não são os únicos a perceber o potencial viral de oferecer algo relacionado com HP. No último ano, um número crescente de empreiteiras tentaram surfar a onda Potter.

A cidade agora conta com duas lojas devotadas a merchandise – as duas fachadas afirmam representar a “inspiração” para o Beco Diagonal, o centro comercial imaginário do mundo dos magos. Uma tour diária passa por pontos da cidade ligeiramente ligados à série, com estudantes de teatro excitados de pijama – desculpa, togas de magos – liderando a excursão. Começando em fevereiro, um bar pop-up temático HP também vai abrir na cidade por três meses.

Inevitavelmente – numa cidade onde as moradias se voltam cada vez mais para o Airbnb – até um apartamento de luxo temático de Harry Potter está disponível para locação. “Encomendei uma placa dizendo 'Magos bem-vindos (Trouxas tolerados)'”, a dona disse para um site imobiliário recentemente, ao revelar que também já tem planos para um segundo apartamento temático “Sonserina”. A febre Potter se estende até a um nível institucional, com uma excruciante personalidade americana do YouTube recebendo dinheiro do ministério de turismo escocês para andar pelo país fazendo cosplay de Hogwarts ano passado.

Foto por Liam Turbett

Aí você tem o café Elephant House, onde, diz a lenda, Rowling escreveu parte do primeiro livro. O café dá vista para o Greyfriars Kirkyard e, de algumas mesas, provavelmente tem uma das melhores vistas do Castelo de Edimburgo da cidade. Para ajudar mais ainda, o lugar também tem um enorme aviso colorido na vitrine – numa fonte que eu achei que tinha morrido com o Windows 98 – gritando que o café é o “Local de Nascimento” de Harry Potter.

As coisas não melhoram muito lá dentro, onde você é imediatamente recebido com uma daquelas lousinhas irritantes dizendo “Não temos WiFi, conversem entre si como se fosse 1995!”, o ano em que Rowling escreveu seu primeiro romance. O que é um pouco irônico, considerando que a maioria das pessoas veem aqui para se taguearem no Instagram.

Se você está escrevendo um livro, o Elephant House agora provavelmente é o último lugar do mundo para fazer isso, a menos que você goste de ser vigiado por fotos da J.K. e cercado por turistas espanhóis boquiabertos e universitários de Edimburgo usando cachecóis das casas de Hogwarts.

O banheiro no café Elephant House. Foto por Liam Turbett.

Outro exportação cultural de Edimburgo dos anos 90 – Trainspotting – afirmava mostrar o pior banheiro da Escócia. Mas não é verdade. O pior banheiro da Escócia é claramente o do Elephant House, o espaço confinado mais perturbador em que você já pisou.

Na crença provavelmente muito otimista de que um dia J.K. Rowling vai sair de trás da cerca gigante da casa dela e retornar ao café onde escreveu partes do primeiro livro, seus fãs transformaram o banheiro do café num covil coberto de pichações desesperadas para sua escritora idolatrada. Você já sentiu o desejo de se agachar sobre uma lata de lixo e escrever “Jo, você é meu patronus, meu sonho é te conhecer e fazer compras com você”, ou talvez “Dez pontos para Grifinória” acima do chão sujo do reservado? Então esse é o banheiro perfeito!

Alguns anos atrás, houve alertas de que o grande número de turistas em Edimburgo, junto com o crescimento rápido de vagas não reguladas e construção de mais e mais hotéis, estava tornando o Centro Velho da cidade cada vez mais hostil para seus moradores, e está até ameaçando seu status de patrimônio histórico. Mês passado, outro titã da literatura de Edimburgo, Alexander McCall Smith, alertou que a cidade estava correndo o risco de se tornar “uma terra vulgar devastada por lojas turísticas, grandes hotéis e mais nada”, com famílias tendo que se mudar. O aumento súbito do turismo temático do Harry Potter parece ir no coração disso, comemorado pela secretaria de turismo local e negócios, mas tendo pouca relação real com a cidade de Edimburgo e seus habitantes, fora a única que importa: J.K. Rowling. Na Irlanda do Norte, medidas drásticas de fechamentos de estradas já foram tomadas depois que o país recebeu mais do que tinha barganhando quando hordas de turistas de Game of Thrones começaram a aparecer em locais que não estavam preparados para o massacre.

Se o turismo Harry Potter parece vazio, é porque ele é construído sobre fantasia. Novamente, Edimburgo – e mesmo Greyfriars Kirkyard – começou a jogar merdas fantásticas para os turistas, exploradas cinicamente pelos comerciantes locais e incentivados pela imprensa. Mas a cidade já faz isso há 150 anos. A história de Bobby Greyfriars, o leal terrier que manteve uma vigília na sepultura do dono – famoso pela estátua e pelo filme – na verdade foi uma história inventada por um comerciante local pra lucrar. Quando a história se tornou uma sensação dos jornais da Edimburgo vitoriana, ela se mostrou tão lucrativa que, quando o primeiro cachorro morreu, eles colocaram outro como substituto.

No domingo, os dignatários locais apareceram para comemorar os 146 anos da morte do cachorro. Talvez nos próximos séculos, as pessoas farão o mesmo por Thomas Riddell.

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