Assim se vive um festival quando tens um metro e meio

Sim, cheiramos os sovacos alheios antes de toda a gente. E não, não vemos nada nos concertos.

Por Ana Iris Simón; Traduzido por Madalena Maltez; fotos por Jesús Calonge
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ago 7 2018, 3:13pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

"Um metro e cinquenta e três, como Ariana Grande". É isto que respondo de cada vez que alguém me pergunta quanto é que meço, o que ocorre com mais frequência do que gostaria. Ostento onze centímetros a menos que a média da mulher espanhola [e menos 10 centímetros que a mulher portuguesa, que nos últimos 100 anos, ainda assim, cresceu 12,5 cm!]. E podes pensar, caraças também não é assim tanto, são onze centímetros. Mas é. Dás-te conta de que é quando, se encontras alguém mais baixo que tu na rua e não é nem uma criança nem uma pessoa com acondroplasia - um anão, vá - começas a exclamar "OLHA, OLHA, É MAIS BAIXINHO QUE EU!".

Porque ser baixinho é uma merda umas vezes mais que outras e, entre aquelas ocasiões em que efectivamente é uma merda é nos festivais. Nos festivais nota-se que esses 11 centímetros são muitos centímetros e nota-se quase desde o umbral da porta, quando os teus amigos olham para trás e acham que te perderam.

Na realidade, o que acontece é que não entras no seu campo de visão se olharem em frente e têm que mover o olhar mais para baixo, algo que vai acontecer várias vezes durante a jornada. Os risos que se vão soltar à tua custa quando se aperceberem de que não é que não estejas ali, o que se passa é que és tão estupidamente baixa que não te viam, vão compensar os sustos que lhes vais dar ao longo do dia.

ser bajito en un festival
Eu, a tentar gravar um vídeo em que só aparecem cabeças

O segundo e, provavelmente, o mais evidente dos danos colaterais de medir um metro e meio num festival, é que não vemos o que se passa no palco. Às vezes vemos braços, mãos ou bocados de cabeças a moverem-se de um lado para o outro, o que se parece mais com um filme de terror do que com um concerto, outras vezes não conseguimos sequer ver os ecrãs.

Quando nos queixamos por termos investido mais de 100 paus num bilhete para vermos sovacos, nucas e cabeças, há sempre um amigo que nos diz que "não é caso para tanto". Até que o convidamos a agachar-se, pôr-se da nossa altura e comprovar por si próprio. E aí alucina, dá-nos razão e, muito provavelmente, pergunta: "Meto-te às cavalitas?". Isso é algo a que também estamos habituados, nós os que medimos menos - muito menos - do que a média: a que nos metam às cavalitas. Há, inclusive, quem o faça sem perguntar. Está-nos a fazer um favor, o que é que importa se nos espetam um ombro nas costelas, nos subam a camisola até ao pescoço ou, simplesmente, que tal coisa nos incomode.

ser bajito en un festival
Isto é o que habitualmente vejo nos concertos

Para além dos problemas de visibilidade, nós os baixos também passamos mais calor nos aglomerados de gente e isso inclui os concertos (a não ser que sejam de Iván Ferreiro às quatro da tarde num festival, nesse caso seremos praticamente os únicos).

Mas, se não é o Iván Ferreiro nem são quatro da tarde, de repente vemos-nos rodeados de ombros e cabeças, às quais lhes chega ar fresco, enquanto nós temos que conformar-nos com o dióxido de carbono que o resto das pessoas expulsa. Também nos chega antes o odor a sovaquinho e, obviamente, com mais pujança do que à população em geral. Há alturas em que a melhor opção chega a ser sentarmo-nos no chão. A verdade é que vemos o mesmo e passamos o mesmo calor, mas, pelo menos, descansamos as pernas.

Outra cena fodida com a qual nós, as pessoas pequenas, nos deparamos nos festivais é a impossibilidade de gravar um vídeo decente. Como não vemos nada do que ocorre no palco, para o captar temos que levantar muito os braços, fazer muito zoom e tratar de acertar o foco no vulto que supomos que se move - a olhar para o ecrã do telemóvel, claro, porque como já relatei, o palco não o vemos. Também não chegamos bem aos bares, às vezes a nossa cabeça sobressai só uns centímetros, o que nos obriga constantemente a estar em bicos dos pés para que nos atendam.

ser bajito en un festival
Sim, os balcões são altos, sobressaio muito menos que o resto das pessoas, como neste caso

E, por último, mas não menos importante, está a dificuldade de mijar nas casas-de-banho portáteis tipo Poly Klyn, se a condição de medir 1,50 m convergir com o facto de ser mulher. Porque nós não podemos fazer o mesmo que as outras: de pé, pernas ligeiramente flexionadas e deixar sair o jacto sem que os nossos músculos rocem demasiado a retrete e mantendo o equilíbrio.

Se queremos acertar no alvo e não apoiar o rabo nem as pernas na retrete, a única opção que nos resta nestas casas-de-banho portáteis que, ainda por cima, são maiores que a média, é pôr-nos de pé em cima da retrete, agachar-nos e mijar de cócoras.

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E tenho de me pôr em bicos dos pés para que me dêem atenção

Mas, nem tudo são queixas: medir metro e meio tem partes positivas, normalmente relacionadas com as características que as pessoas, de maneira totalmente irracional, atribuem às pessoas de estatura baixa, simplesmente por serem de estatura baixa: inocência, ingenuidade, vulnerabilidade... Por exemplo, a malta assusta-se quando me meto no meio de um pogo. Assustam-se muito e suponho que zelam mais pela minha integridade física por causa disso. Normalmente, há duas ou três pessoas que ficam a olhar por mim desde fora, procurando com os olhos a ambulância mais próxima e suspiram de alivio quando me vêem a sair da confusão.

Depois, há a parte da atitude que assumes. Eu gosto de lhe chamar o cumprimento da máxima de Marx: "De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades", mas na realidade traduz-se em que os baixos - parem de nos infantilizar ao chamarem-nos baixinhos - passamos à frente das filas com muito mais facilidade do que qualquer pessoa alta.

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Por outro lado, a nossa capacidade de nos metermos pelo meio das filas e passar à frente é muito maior

Nos bares, por exemplo, sabemos esgueirar-nos até à primeira fila antes de qualquer um e nem sempre jogamos limpo. Normalmente, as pessoas não se atrevem a dizer-nos nada graças a/por culpa dessas qualidades que pressupõem que temos por sermos baixos, como mencionei anteriormente.

Mas, a maior das vantagens, o auge das regalias de medir um metro e cinquenta num festival é que, normalmente, às vezes até sem pedir, as pessoas deixam-te passar à frente para conseguires ver. Convidam-te a ir para a frente porque, por muito que saltes, não vais interferir no seu campo de visão. E isso, foda-se, isso faz-te recuperar a fé na espécie humana, essa da qual és o mínimo expoente.

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