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De Leiria não sai só boa música. Também há grandes videoclipes

João Pombeiro, Casota Collective e Bruno Carnide são alguns dos nomes por detrás da excelente colheita de 2017.

Por Cláudio Garcia
22 Janeiro 2018, 7:00am

Still do vídeo de João Pombeiro para "Back to Nature", de Nigthmares on Wax.

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Da internacionalização de João Pombeiro com Nightmares On Wax, ao momento Bruno Carnide com Blind Zero, passando pela afirmação da identidade Casota Collective, entre outros exemplos, é caso para dizer que, de Leiria às Caldas da Rainha não há só boa música, também há bons videoclipes.

Publicado em meados de Setembro no YouTube, "Back To Nature", do projecto Nightmares On Wax, sediado em Leeds, no Reino Unido, soma mais de 330 mil visualizações até à data. E é um dos motivos por que o criativo João Pombeiro, originário de Leiria, foi nomeado na votação Personalidade do Ano do suplemento P3, do Público. Em 2017, João Pombeiro também dirigiu "Kite", para a portuguesa Nadia Schilling, escolhido para destaque ( staff pick) pelos editores do Vimeo.

Isto atraiu mais de 35 mil visualizações e a atenção da Warp Records, que edita o trabalho do produtor, compositor e DJ George Evelyn como Nightmares On Wax. E o convite para apresentar uma proposta a concurso acabou mesmo em casamento consumado.


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Agora, é aproveitar. "Em Portugal, apesar de terem saído uns 600 discos no último ano, o mercado de videoclipes é muito limitado, pois há pouco dinheiro para fazê-los. É claro que, muitas vezes, as condicionantes são excelentes motores criativos, mas dificilmente se consegue viver disso. Ao trabalhar com a Warp percebi que a realidade fora de Portugal é completamente diferente. Os orçamentos são bastante elevados e a produção é tão ou mais séria quanto a de um filme", explica o autor das colagens que animam "Kite" e "Back To Nature", que se tornaram virais nas redes da internet.

O vídeo não matou a estrela da rádio, mas, no mundo digital das partilhas e visualizações, tem mais poderes do que um super-herói. Mesmo sem comprar o álbum, não raro tropeça-se naquele videoclipe de que toda a gente fala. Ou noutros, que ninguém conhece. A imagem em movimento é a auto-estrada que leva novos refrães a um público com pouco, ou nenhum, tempo para dar. Mas que quer tudo em troca.

Em Junho último, o novo videoclipe dos Blind Zero chegou com assinatura de Bruno Carnide. "You Have Won" deu cor e textura a uma fuga tanto material como interior, com imagens captadas na Lagoa da Ervedeira, São Martinho do Porto, São Pedro de Moel e Espanha. Em 2017, Bruno Carnide dirigiu também "5 Is The Number", para a banda italiana Amycambe.

Apesar de trabalhar neste formato desde 2011, o realizador de Leiria elege os projectos com Blind Zero, A Jigsaw, Country Playground e Amycambe como aqueles que mais lhe agrada recordar. "Porque esses, relativamente a todos os outros que tenho feito, são videoclipes em que me foi dada quase 100 por cento carta branca", argumenta. Um dos objectivos do criador das curtas Em Terra Frágil ou Fugiu. Deitou-se. Caí, passa por transportar para o ambiente da música a identidade visual que tem vindo a definir em película. E, "se tiver liberdade total", procura encarar o videoclipe "num registo mais cinematográfico". Afinal, são linguagens diferentes, com lógicas próprias, mas pontos em comum.

Still do vídeo de Bruno Carnide para "You Have Won", dos Blind Zero

Mais de 30 anos depois de a MTV inventar os Video Music Awards, nos Estados Unidos, ninguém trabalha só para aquecer. Ou pro bono. Há sempre aquele momento em que os números falam mais alto. E "começa a haver mercado" em Portugal para a profissionalização da indústria de videoclipes, segundo Bruno Carnide. Mas, às vezes, não há amor como o primeiro. "Se me derem a escolher, prefiro fazer uma ficção".

Num certo sentido, a história da ligação entre a música e a imagem começa com a exibição do teledisco para "Video Killed the Radio Star", dos Buggles, em 1980. Daí para cá a chama manteve-se acesa e a relação parece mais sólida do que nunca. Melhor para quem tem um pé em cada território, como acontece na produtora Casota Collective, que junta os músicos Rui Gaspar, Pedro Marques e Telmo Soares, dos First Breath After Coma.

Com o gestor Miguel Ferraz ao volante, as restrições de orçamentos estão sempre em cima da mesa, mas nenhuma boa ideia fica para trás. "Gostamos de pensar que as nossas produções são o fim do mundo em cuecas. No espaço de um ano fizemos um cenário com três toneladas de areia a servir de chão, incendiámos um sofá no meio do mar, inundámos um quarto inteiro, pendurámos actores e artistas em árvores. Os nossos bastidores bem documentados davam um belo thriller", garantem.

Still do vídeo do Casota Collective para "On the Sand By the Sea", dos Nice Weather For Ducks

Para o trio de criativos, baseado em Leiria, o que importa, desde a primeira hora, é estabelecer uma identidade própria. "Mudam os temas dos vídeos, a música e a banda, mas, de certa forma, há uma imagem e uma forma de pensar transversais a todos os nossos trabalhos. Muitas vezes fazemos isto de forma inconsciente, mas é algo que queremos preservar o máximo possível".

Dali já saíram produções para os próprios First Breath After Coma, mas também para os Nice Weather For Ducks e os Whales, todos da editora Omnichord Records, e para os GrandFather's House, de Braga. A fechar o ano, a Casota realizou Plass, o novo single do projecto Surma, de Débora Umbelino – e se 2017 foi bom, tudo indica que vamos continuar a ouvir falar deles em 2018.


Cláudio Garcia é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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