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Como Poderá Ser a Intervenção Ocidental na Síria?

Eis o que Estados Unidos e França provavelmente farão com seus mísseis.
4.9.13

Fotos ensanguentadas de Bashar al-Assad. (Foto por Sunil Patel)

A guerra na Síria pode estar chegando ao ápice. Nas últimas 24 horas, enquanto o número de refugiados tentando escapar desse conflito sórdido chegou a dois milhões de pessoas, o gigantesco porta-aviões nuclear USS Nimitz da marinha norte-americana tomou a rota norte através do Mar Vermelho. Apesar de uma votação recente ter descartado o envolvimento da Inglaterra na crise, os exércitos norte-americano e francês parecem propensos a entrar na história na próxima semana. Ambos estão esperando pelo sinal verde de seus líderes políticos em Washington e Paris.

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Como você já deve saber, esse último estágio do pesadelo na Síria começou há duas semanas quando uma enxurrada de uma suposta arma química atingiu Ghouta, uma área comandada pelos rebeldes a leste da capital síria, Damasco. Centenas de pessoas morreram no ataque, que – pelo menos de acordo com os governos dos Estados Unidos e França – certamente envolveu armas químicas proibidas (provavelmente o sarin). Como o uso de armas químicas constitui uma violação sólida da lei internacional, o caso se tornou uma desculpa conveniente para que o Ocidente tirasse seus caças dos hangares e rumasse para o leste mais uma vez.

Na última semana, o Pentágono ordenou que os destroyers USS Ramage, USS Barry, USS Gravely e USS Mahan da sexta frota com base na Europa se movessem até uma distância de ataque da Síria. A fragata antiaérea francesa Chevalier Paul não está muito atrás e o porta-aviões Charles de Gaulle aguarda novas ordens. Cada um desses navios está carregado com mísseis Tomahawk, desenvolvidos idealmente para destruir alvos em solo.

O Nimitz foi o último a chegar na região e, talvez, represente um sinal da intenção cada vez mais séria de Obama em desmantelar a máquina de guerra de Assad. Agora, ele aguarda a aprovação do Congresso, particularmente por causa da derrota do primeiro-ministro britânico David Cameron na mesma questão em Londres na semana passada. Obama receberá a “permissão” para intervir, provavelmente depois do final de semana. Ele acabou de ganhar o apoio de republicanos importantes do Congresso, o que é muito incomum – é mais normal que uma simples vingança política impeça os partidos norte-americanos de concordar em qualquer coisa importante.

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Então, no momento, numa distância curta da costa Síria, as forças ocidentais estão esperando. Os porta-aviões franceses e norte-americanos têm centenas de caças e outras aeronaves, prontas para usar mais poder de fogo se necessário (o que será decidido provavelmente depois do ataque inicial). Talvez, surpreendentemente, os sírios tenham algum equipamento realmente perigoso, quem sabe o míssil supersônico antinavio P-800 Yakhont e uma variedade de mísseis terra-ar russos. No entanto, mesmo que o regime use seus melhores equipamentos, ele não conseguirá se defender das contramedidas defensivas dos navios norte-americanos e franceses.

Um míssil antinavio supersônico P-800 Yakhont em ação.

Alguns especulam que os mísseis ocidentais estariam voltados diretamente para o estoque químico de Assad, mas especialistas discordam. De acordo com Karl Dewey, editor de proliferação do Jane's Information Group da IHS, a única maneira de destruir realmente os estoques químicos seria com algo chamado munição Agent Defeat – uma arma parecida com o napalm criada para queimar a uma temperatura alta o suficiente para destruir totalmente armamentos químicos.

O problema, segundo Karl, é que não há garantia de que isso vá funcionar de forma efetiva: “Armas Agent Defeat só foram usadas em testes controlados até agora, então, há o risco de que os bunkers contendo as armas não sejam completamente destruídos. Se isso acontecer, os agentes químicos podem vazar na atmosfera e se espalhar pelos arredores. Mesmo um vazamento pequeno poderia causar grandes problemas para a população próxima”.

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“Outro perigo é que as armas possam matar os guardas ao redor do local ou forçá-los a fugir, deixando a instalação sujeita ao saque dos mesmos agentes químicos que as forças ocidentais querem destruir”, continuou ele.

A opção mais provável, então, é que os navios norte-americanos e franceses disparem contra a infraestrutura de “comando e controle” da Síria – prédios, acampamentos, campos aéreos e outros pontos usados pelo governo sírio para organizar a guerra contra seu próprio povo. Bases militares seriam os melhores alvos, já que Assad não pode escondê-las. Jeremy Binnie, editor do semanário de defesa do Oriente Médio do Jane's, me disse que o ataque da coalizão tomará provavelmente a forma de um “ataque curto e punitivo”, pensado para mostrar a Assad que o uso de armas químicas é inaceitável.

Os ataques podem até incluir o prédio do Ministério da Defesa sírio em Damasco, dizem, mas Jeremy não acredita que os governos ocidentais sejam arrastados para o fundo disso: “Os britânicos e os norte-americanos estão em posição de realizar esse tipo de ataque com segurança e riscos mínimos. Isso mandará uma mensagem sem necessidade de envolvimento num prazo indefinido”.

Prédio bombardeado na Síria. (Foto por Rick Findler)

Binnie rejeitou a sugestão de que os Tomahawks possam ser usados contra as forças jihadistas como bônus – um rumor que vem circulando em vários canais de comunicação extremistas recentemente. “Esses alvos não são tão substanciais”, explicou Jeremy, “e os Tomahawks são caros. Para matar guerrilheiros com eles, você precisaria de inteligência muito precisa e muito recente, o que eles provavelmente não têm”. Alguns sugerem que um ataque Tomahawk sobre o conjunto antiaéreo bastante sólido da Síria seria seguido por ataques aéreos.

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E a Rússia não está feliz. Moscou tem sido o maior, mais importante e (principalmente) mais assumido aliado da Síria desde que a guerra começou há dois anos, fornecendo a maioria dos armamentos de Assad e apoio político. Putin afirmou que as acusações de que o regime sírio teria usado armas químicas eram “absolutamente absurdas”. Um navio espião russo se juntou a festa no leste do Mediterrâneo, dando ao caso um sabor distinto de Guerra Fria. Outros fazem paralelos históricos ainda mais assustadores; quando falei com o membro do parlamento do partido conservador inglês David Davis na semana passada, ele disse que “a situação no Oriente Médio têm conotações de 1913 e 14”, acrescentando que “se isso escalar e atacarmos Assad enquanto a Rússia, a China e o Irã fornecem armas ao regime, podemos acabar numa situação similar ao Vietnã”.

Mais recentemente, Putin disse que vai apoiar a intervenção se ficar provado “acima de qualquer dúvida razoável” que Assad foi o responsável pelos ataques químicos. Como isso é quase impossível (os inspetores da ONU não têm permissão para dizer quem eles acham que está por trás do ataque), é provável que ele esteja somente enrolando. Por enquanto, todos os lados estão esperando e assistindo. Espiões britânicos e as Forças Especiais que estariam supostamente definindo os locais a serem atacados alguns dias atrás ainda podem oferecer ajudar por trás da cena. O governo francês afirmou que a desistência da Inglaterra não vai afetar sua decisão e os EUA vão – como sempre – fazer o que quiserem. O clima em Damasco é tenso e Assad alertou ontem que a intervenção pode desencadear uma guerra regional no “barril de pólvora” do Oriente Médio.

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Cerca de 110 mil pessoas morreram na Síria desde que a guerra estourou. A ONU diz que a guerra é “a crise humanitária do século” e que os países vizinhos estão “sucumbindo diante da pressão” de gerenciar os refugiados. Cerca de um terço dos sírios foram deslocados tanto dentro quanto fora do país, o preço do pão triplicou desde que a carta da intervenção foi posta na mesa e o conflito têm alimentado a violência no Iraque e no Líbano.

Não há resultados positivos, mas a intervenção e a “degradação” das forças de Assad podem ajudar a mudar a maré para aqueles que vinham sofrendo abusos e humilhações sob décadas de ditadura. Ou então, outra possibilidade é arrastar a região para uma guerra ainda mais longa. Se os mísseis norte-americanos e franceses vão mesmo iluminar os céus do Mediterrâneo na semana que vem, ainda não é certo, mas não há sinais de um final rápido para essa que é a pior guerra dos anos mais recentes.

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