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Entretenimento

Rita Lino transforma-nos em "voyeurs" do seu corpo

Actualmente sediada em Berlim, depois de passar por Barcelona, esta portuguesa de espírito itinerante fala sobre realidade e intimidade.
26.12.15
Todas as fotografias são da autoria de Rita Lino.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D.

À medida que exploras as suas redes sociais, especialmente o Instagram, vais percebendo que esta artista nunca mente, não posa, não cria cenários forçados. Tudo é real e é sempre ela. Rita Lino faz com que te sintas um voyeur. Ninguém te diz que olhes, mas é difícil que não o faças.

Actualmente sediada em Berlim, depois de passar por Barcelona, esta portuguesa, de espírito itinerante, desfaz todas as nossas dúvidas: Rita e as suas fotografias, Rita e os seus vícios, Rita e o seu corpo, Rita e a naturalidade, Rita e eu.

Quem é a Rita Lino das tuas fotografias? Uma personagem de ficção, ou um processo documental? Que parte é ficção e que parte é realidade nas tuas fotografias?
No meu trabalho não crio limites entre as minhas ficções e a realidade. Tudo é verdade. Não posso separar as personagens da pessoa que sou, apenas tento controlá-las, dominá-las e, depois, libertá-las quando é preciso. A documentação do meu trabalho é fundamental, mas não é um diário. É, sim, um projecto para colocar-me à prova, observar a partir de diferentes perspectivas, reinventar-me, sentir tudo de maneira diferente.

A maior parte do teu trabalho são auto-retratos onde apareces nua, ou quase nua. De onde é que vem este exibicionismo, esta necessidade de mostrares o teu corpo?
É tudo uma questão de perspectiva. Para mim tirar a roupa não é exibicionismo é retratar a realidade. Observar as mudanças do meu corpo através dos anos não tem nada a ver com exibir um corpo; na nudez não há barreiras, más interpretações, ou falsas simbologias.

Achas, então, que esse retratar da realidade é uma forma de existires? Qual é a presença da fotografia na tua vida diária?
Totalmente, é a minha forma de existir. Fotografar é uma extensão de mim própria. Partilhar a minha própria intimidade é uma obsessão, um vício. Preciso de ver-me, observar-me e estudar-me e, embora pareça fatalista, é assim.

Que relação existe entre o teu trabalho e as redes sociais? Que tipo de relação estabeleces, através da tua obra, com os espectadores online?
Não é fácil separar o pessoal do trabalho, por isso faço o que me apetece sem pensar muito no assunto. Uso as redes sociais para me conectar com a minha família e amigos, para partilhar os meus últimos trabalhos, projectos futuros, backstage… No início, os meus perfis podem parecer estranhos, mas, depois, as pessoas habituam-se. Neles não existe distinção entre trabalho e aspectos pessoais.

Que reacções gostarias de provocar nas pessoas que vêem as tuas obras, especialmente nas redes sociais?
Adorava que toda a gente partilhasse o meu trabalho e os meus projectos.

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Mostrares-te ao espectador dá-te de alguma forma uma sensação de erotismo? Gostas que o espectador tenha essa perspectiva de que está a ver algo erótico?
Como disse antes, é tudo uma questão de perspectiva. Há quem veja as minhas fotografias como algo raro, belo, erótico, real…. Mas, não sou eu quem tem de dizer-te como tens de senti-las, ou olhar para elas; é verdade que existe emoção e, muitas vezes, sou eu quem induz uma sensação furtiva de voyeurismo e intromissão, da qual inclusive desfruto, mas se é erótico ou não, quem tem que dizê-lo é o público.

No teu processo de criação, haverá, certamente, muitas fotografias que nunca chegam a ver a luz do dia. É material que guardas na intimidade, ou a tua intimidade é inexistente e aquilo que vemos é tudo o que existe?
Há muito de mim que ainda não se viu. Tenho muitíssimas fotografias e ideias guardadas na manga. Trabalho sempre de uma forma em que coloco alguns projectos de lado durante um tempo para poder voltar a eles mais tarde.

Ultimamente, em projectos como Herself.com, as mulheres mostram-se nuas para adquirirem o controlo do seu corpo, para deixarem de ser objectos/sujeitos passivos. O que é que achas? Sentes-te identificada com essa perspectiva?
Não conhecia, mas parece-me fantástico. É incrível que as mulheres se sintam bem na sua pele; há todo um caminho a percorrer para alcançar esse controlo e projectos como este ajudam. Sobre se me sinto identificada, dir-te-ia que sim, pela questão de poderes ter o controlo sobre algo que é teu. Para mim, ter o controlo do meu corpo nunca foi um problema. No entanto, ter o controlo da minha mente, das minhas raízes, da minha identificação, da minha sexualidade… todos estes temas eram - e ainda são - algo complicado que, no entanto, agora domino melhor. Consegui que as minhas dúvidas e as minhas perguntas me dessem confiança para conceptualizar as minhas ideias e usar o meu corpo como ferramenta.

Achas que a tua arte seria diferente se fosses um homem?
Talvez sim, talvez não, não faço ideia. Acho que a minha forma de pensar, por muito "degenerada" que seja, é muito feminina.

Até que ponto o teu trabalho se relaciona com a moda?
Entendo a moda como um meio de expressão nas sociedades e agrada-me que crie um espaço próprio de reflexão em relação ao que se passa à nossa volta. Gosto de misturar o meu trabalho e a minha forma de pensar com a arte e a moda.

De todas essas pessoas que falam contigo através do blog, qual foi a pergunta ou comentário mais incrível que te fizeram?
Estou bastante agradecida por não receber mensagens nem comentários maus desde há uns anos para cá. Finalmente, 10 anos depois, as pessoas levam-me a sério e isso é bom. Não há muita interacção entre mim e o público. Sei que vêem o meu trabalho e isso basta-me. Às vezes recebo e-mails de apoio, ou de gente que quer trabalhar comigo.

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Diz-me um projecto que te tenha marcado e que seja imperdível.
Não podes perder a Berlinalle, o festival de música Uunsound em Krakow e o meu último livro, pela Éditions du LIC.

Para acabar, fala-nos das tuas referências artísticas.

É sempre muito complexo falar de referências artísticas; quase toda a minha inspiração vem da música - como a de Grouper -, de cineastas como Werner Herzog e de artistas como Sophie Calle e Wolfgang Tillmans.


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