Opinião

Os “elefantes brancos” que sustentam os saloios da Nação

Das inexplicáveis ajudas à banca, aos diversos indícios de corrupção em outras áreas, em Portugal parece que temos demasiados parolos com demasiado poder e demasiados milhões à sua mercê.
5.4.18
Os elefantes de carne e osso são os menos culpados por tanta “trafulhada” dos humanos… portugueses. (Foto cortesia FilmWorks Entertainment, filme "The Eyes Of Thailand")

É bom quando somos adolescentes e temos o privilégio de viver apenas preocupados com os assuntos banais da idade, sem discussões sobre temas pesados. Por isso, na dureza da vida adulta, se és daqueles que está na casa dos 30 ou percorres as ternuras de décadas seguintes, deves compreender a expressão “como era bom quando era teenager”. Basta seguir atentamente ao que se tem passado em Portugal na política, banca e nos diversos casos mediáticos da justiça, para saber que seria melhor ser um ignorante e estar desconectado de uma realidade cercada de embustes.

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E, antes que tires conclusões precipitadas, não julgues que sou daqueles que tem a audácia de afirmar que "no meu tempo é que era fantástico". O “tanas”! Gosto, sim, de deduzir que, se o nível de corrupção é o que é neste milénio, nem quero imaginar o que foram os anos 80 e 90 do século passado, onde imperava a limitada e envergonhada fiscalização da justiça e dos media. Uma época que englobou a entrada na antiga CEE (actual União Europeia) e, consequentemente, com muitos interessados em terem acesso à nova galinha dos ovos de ouro, ou seja, os milhões provenientes de Bruxelas.

Ser adolescente nos anos 80 era conviver com outras preocupações e não ter que matutar sobre a quantidade de trapaceiros à frente e em redor da coisa pública. (Foto cortesia Netflix, série "Stranger Things")

Num estudo encomendado há cinco anos pela Fundação Francisco Manuel dos Santos à consultora Augusto Mateus & Associados, pode ler-se que entre 1986 e 2011 o país recebeu 80,9 mil milhões de euros em fundos estruturais – numa média de 9 milhões por dia. Se, por um lado, são visíveis as infra-estruturas que foram criadas de Norte a Sul e ilhas, por outro, foram muitas as estórias de cambalachos (com boatos e mexericos à mistura) de gente dentro do Estado e de particulares que viram nisso uma forma de “$omar e $ubir” na vidinha.

Quando o dinheiro é fácil e a vistoria sobre a aplicação honesta e competente desses fundos se pauta por uma inépcia quase total, só podia resultar em “forrobodó”. Como, na maior parte desse período, o trabalho do Ministério Público e de outras entidades, que deviam fiscalizar com “olhos de ver”, não era propriamente eficaz, jamais saberemos a escala de abuso de quem se aproveitou para retirar benefícios pessoais através de dinheiros destinados ao bem comum de todos nós.

Não obstante as coisas boas de Portugal que outros elogiam (casos do turismo, a qualidade dos jogadores de futebol e a ausência de atentados terroristas), há um facto difícil de branquear. A quantidade de gentalha disponível para intrujices, com vista a sacar, nalguns casos, milhões de euros. É um contínuo filme de terror para a carteira dos portugueses. São tantas as falcatruas que, às vezes, devíamos dividir a Nação em duas: os que nunca o fizeram e os que, diariamente, pensam em fazer alguma.

Os prejuízos na banca e a cumplicidade e silêncio dos políticos

Nem vale a pena citar todos os números que nos informam sobre o quanto a banca tem sido ajudada pelo Estado (fala-se de 17 mil milhões em dez anos). Na última semana, as notícias centraram-se no Novo Banco e na Caixa Geral de Depósitos (CGD) por terem beneficiado novamente desse inexplicável apoio. O que não se entende é como foram retirados tantos milhões a ambas instituições, através de empréstimos a particulares e/ou investimentos descabidos, mas os contribuintes ainda não sabem oficialmente os autores das imparidades que nos levaram até aqui. Ainda bem que há quem investigue e nos dê detalhes sobre a lista de devedores no banco estatal (obrigado Observador) e na empresa em tempos liderada por Ricardo Salgado (agradecimentos ao Jornal de Negócios).

Há cada vez mais certeza de que a Caixa e o antigo Banco Espírito Santo (BES) são dois “elefantes brancos” que tiveram gestões perniciosas. O primeiro foi, ao longo dos anos, uma bandalheira no campo das nomeações por parte do poder executivo. Na opinião da cronista do Expresso e elemento do televisivo Eixo do Mal/SIC, Clara Ferreira Alves, o segundo é visto pelos portugueses como “uma associação criminosa parecida com o BPN” (ver vídeo abaixo - minuto 38). E acrescenta que o BES “funcionava como fundo de maneio para [certas] pessoas terem estilos de vida milionários, à custa dos ingénuos que lhes entregaram o seu dinheiro (poupanças e rendimentos)”.

Enquanto esses “elefantes” faziam aparentemente tudo o que lhes apetecia, vários responsáveis máximos do Banco de Portugal foram revelando discursos vazios de conteúdo, pouco seguros do que realmente se passava no mercado financeiro interno, ou simplesmente tinham receio de tocar em “vacas sagradas”. Parecia que a supervisão era, para alguns dos governadores, um jogo do faz-de-conta. Ao Bloco Central (PS e PSD), que sempre “afocinhou” as suas influências na banca - com jobs for boys & girls e as várias mãos a lavarem as outras -, não interessa que este assunto seja debatido seriamente.

Mais: não é surpreendente que a notícia de que o Novo Banco agravou os prejuízos em 1.395 milhões no ano passado, tivesse aparecido em vésperas da Páscoa (como aconteceu com a lei do financiamento dos partidos que foi aprovada, à “sucapa”, no Parlamento, perto do Natal – aqui com outros partidos cúmplices). Como é época de mini-férias e o povo deseja “ressuscitar” noutros lugares, chuta-se outro imbróglio para evitar que o português ligue à coisa, mas pague num futuro a médio prazo.

Quando se sabe que o novo fundo de Resolução vai injectar 800 milhões de euros – que é como quem diz com estilo, “uma factura para o povinho pagar” – e que em menos de quatro anos a instituição já perdeu 3.500 milhões, tenho de perguntar o seguinte: não teria sido melhor ter dividido o BES em “banco Péssimo” e “banco Danoso”? Há certamente quem goste de iogurtes chiques no Novo Banco.

Também devem ser assacadas responsabilidades ao CDS por ter sido um dos protagonistas nas soluções governativas de cor laranja, com membros do Partido nomeados para a administração da CGD. Por serem reféns do duo socialista Costa & Centeno, o BE e o PCP/PEV fecham os olhos e engolem um dos maiores “sapos” da era “geringonça”. Aliás, o ministro das Finanças teve o desplante de sublinhar que a recapitalização de 3.944 milhões de euros da Caixa “é um investimento” (o actual provedor da Santa Casa de Lisboa tem a mesma “lata” para justificar os 30 milhões que a instituição irá meter no Montepio). O Presidente da República, para não abanar o sistema político, tira uma “selfie de lado” e passa de mansinho.

E o que dizer dos resultados das Comissões Parlamentares sobre a banca, da auditoria independente à Caixa ou a questão sobre o possível levantamento do sigilo bancário (como realçou o comentador Marques Mendes no último fim-de-semana)? Menos que zero. Quando se sabe o que aconteceu noutros casos, como o BPP, o BANIF e o BPN, pergunta-se: até quando os contribuintes terão de conviver com este acudir permanente aos problemas da banca? Acho que já ultrapassámos em muito o limite da razoabilidade.

Pelos vistos, para os senhores e as senhoras que percorrem os corredores de São Bento, investir na qualidade da saúde, na educação, ou acrescentar migalhas dadas à cultura são coisas para se ir fazendo. Talvez por dar poucos votos, a classe artística tem que se aguentar com um parco orçamento, o que leva à revolta de muitas estruturas históricas que foram excluídas no recente concurso de apoio sustentável às artes - agora envolto em polémica. Com a banca (vá-se lá saber porquê…) a acção dos decisores políticos é imediata.

Entretanto, há responsáveis pelas imparidades (quem permitiu e quem beneficiou) que continuam a pavonear uma tranquilidade monstruosa de quem nada fez e deve. São as mediocridades da nossa pseudo-elite…

Cuidado com os chico-espertos que tomam conta dos dinheiros públicos (e não só)

O indivíduo com a mão na cadeira: “E que tal fazermos como os fulanos dos Colégios GPS e pedirmos para que incluam no recibo trinta e tal garrafas de vinho?” Ela: “Um bocado bandeiroso, não”? Mr. Bigodes: “E que tal juntarmos uns uisquizinhos?”. (Foto cortesia Fox Searchlight Picture, filme "Three Bilboards Outside Ebbing Missouri")

Infelizmente, às supostas trafulhices na banca junta-se um rol de eventos que fazem desconfiar da mentalidade e carácter de quem tem acesso às escadas do poder (e milhares de cifrões à sua disposição).

Só este ano - e ainda caminhamos nos primórdios de Abril – já fomos “assaltados” por diversos esquemas que merecem constar num qualquer argumento cinematográfico - drama ou comédia, é só escolher. Veja-se a lista que se segue, segundo o que veio na imprensa nas primeiras doze semanas de 2018. Há “elefantes” de vários tamanhos… (sim, todos ainda vagueiam na ilha do alegadamente)

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1. A Operação Lex tem o juiz desembargador, Rui Rangel, como principal arguido por trocar sentenças por benefícios monetários e outros dividendos pessoais.

2. O Reitor da Universidade Fernando Pessoa é acusado de desviar fundos.

3. Um antigo governante é acusado de ter gasto 14 mil euros em despesas pessoais.

4. Há crimes de corrupção activa e passiva numa esquadra da Brandoa.

5. O julgamento da Operação Fizz sobre prática de crimes de corrupção, branqueamento e falsificação de documentos, envolve o ex-procurador Orlando Figueira e o antigo vice-presidente angolano, Manuel Vicente.

6. A Segurança Social é alvo de burla de centenas de milhares de euros.

7. No futebol profissional, decorre o julgamento relativo à Operação Jogo Duplo e a suspeição é muita em redor dos processos Caso dos Emails e E-Toupeira. Em nota de rodapé, o foguetório de palavras continua. Depois do presidente “Papa”, há quem seja tratado por “Al Capone”, outro chamado de “porco” e um de "labrego trolha”.

8. No caso dos Colégios do grupo GPS, um ex-secretário de Estado e um ex-director regional são alguns dos acusados de terem encaixado 30 milhões de euros. Neste item, é hilariante a estória de que foi encontrado um recibo alusivo a um específico jantar, para três pessoas, com trinta e duas garrafas de vinho.

9. A EDP pagou bónus de 20 milhões a construtoras ligadas à Operação Marquês e ao Processo Lava Jato (este no Brasil).

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10. No julgamento Vistos Gold (corrupção, branqueamento de capitais, tráfico de influência e peculato), entre vários acusados, há a possibilidade do ex-ministro Miguel Macedo poder ser condenado a cinco anos de pena suspensa.

Ao ver estes casos, o que me espanta é que haja portugueses, que de férias e longe do seu habitat natural, são uns sovinas a dar gorjetas, mas que, quando é para ser corrupto, haja outros que actuem à grande e à Sarkozy - passe o exagero da piada fácil. Não sei se devo ficar confuso, rir ou sentir-me estupidificado. É verdade que não há países perfeitos, se bem que há uns com mais bandidos que outros. Uns que têm mais pacóvios preocupados em ter currículos inventados do que outros. E há nações com mais sujeitos que põem a ética profissional num saco em troca de meia-dúzia de patacos.

Definitivamente, como era bom ser novamente adolescente.

NOTA FINAL - Como não há fim para tanta “estranheza” no quotidiano luso, ainda foi encontrado um buraco orçamental de 70 milhões de euros na saúde militar e a quantia “irrisória” de 338 milhões que as Eléctricas devem ao Estado. O doce do primeiro trimestre corresponde à notícia de que foram condenados 405 funcionários públicos, em 2017, pelo Conselho de Prevenção da Corrupção na Administração Central. É láaaa!


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