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Como 'Simpsons' ajudou minha família a se conectar com meu irmão autista

O desenho fez meu clã criar laços, de várias maneiras.
Via FOX.

Texto originalmente publicado na VICE US.

Alguns irmãos demonstram seu amor com um high five, uma piada interna ou um soquinho no ombro. Meu irmão Daniel, um adulto que cai no espectro do autismo, tem seu próprio jeito de demonstrar afeto: me deixar escolher o episódio de Simpsons que vamos assistir meia hora antes do jantar.

"Você já assistiu 'Kamp Krusty' hoje de manhã", eu lembro a ele. "Posso escolher outro episódio?" "Sim", ele diz, com um toque de desconfiança na voz, mas seu rosto relaxando ligeiramente quando escolho um DVD da mesma temporada. Incluir uma pausa Simpsons obrigatória na nossa rotina parece o sonho de qualquer fã da série, mas na nossa casa é uma necessidade. Tem uma regra que sempre seguimos, fazer tudo que podemos para tornar a vida do Daniel mais fácil, o que inclui organizar o dia dele em torno das desaventuras da nossa família favorita.

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Como muitos autistas, Daniel tem habilidades verbais e de comunicação limitadas. Muita da nossa interação com ele envolve ecolalia, uma característica que o faz repetir o que dizemos para demonstrar que entendeu ("Seu dia foi bom?" "O dia foi bom. Sim."). Ele também tem muitas ansiedades que não consegue expressar em palavras, mas que deixa transparecer pelo jeito como se move: quando ele estala os dedos ou move os olhos rapidamente ao redor da sala.

As ansiedades dele se amenizam quando há uma rotina em sua agenda: ir trabalhar, tomar banho, jantar com a família. Os finais de semana são mais difíceis — dias longos com menos tempo estruturado — que preenchemos com longas caminhadas, nadar no YMCA e ir à igreja, cuja base é uma rotina de orações e hinos.

Foi minha mãe quem encorajou o Daniel a frequentar regularmente a igreja e, por coincidência, também foi ela quem cimentou o papel de Simpsons nas nossas vidas. Ela assistiu a série pela primeira vez para provar para mim, então com nove anos, que estava certa em proibir a gente de assistir porque o Bart era uma má influência. Depois de ver "Um Bonde Chamado Marge", ela acabou ficando fã, e passou a esperar pelos novos episódios todo domingo, o que se tornou uma tradição na nossa família, como a igreja.

Minha mãe e meu pai assistem a série muito por conta das suas referências literárias e da cultura dos anos 70, meu irmão Luke e eu gostamos do absurdo e da metralhadora de piadas. Não sei exatamente o que atrai o Daniel para Os Simpsons, já que ele não tem a linguagem para nos dizer. Pode ser as cores fortes e a animação. Pode ser o humor físico mais amplo e os efeitos sonoros bobos — lembro uma vez em que ele riu por um minuto inteiro enquanto assistia o Homer estalar os dedos e cantar para si mesmo.

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Cortesia da FOX.

Seja lá o que fez ele ser fã da série, ele não passa um dia sem assistir pelo menos um episódio. Como meu pai, Michael, diz: " Os Simpsons fornecem uma medida de ordem para o Daniel. Claro, os produtores da série não poderiam ter previsto que um jovem autista usaria os episódios de 22 minutos deles para saber quando o jantar está pronto. 'Mais um Simpsons' é uma frase comum na nossa casa".

A série se tornou uma necessidade tão importante que encomendamos uma segunda cópia da quarta temporada, entrega urgente, quando viajamos nas férias para o norte do estado de Nova York e percebemos que tínhamos esquecido o DVD em casa. Daniel precisava da familiaridade reconfortante de "Kamp Krusty", e outros episódios do DVD um, para acalmar sua ansiedade com a quebra da rotina nas férias. Mas mais que preencher o cronograma, Os Simpsons é um jeito de nos conectarmos com ele.

Daniel sabe a letra de todas as músicas originais da série, incluindo todas as peças de roupa listadas em "See My Vest", e podemos contar com ele para lembrar as palavras exatas quando cantamos a música nas nossas caminhadas de domingo. Quando Luke e eu começamos a citar trechos do programa na mesa do jantar, o Daniel vai soltar um "Lisa precisa de aparelho" baixinho em resposta a "Plano Dental!" Conseguimos até arrancar um ligeiro sorriso dele quando imitamos o Homer; ele não tem medo de fazer um "D'oh!" de vez em quando.

Penso se ele não se identifica com a série por ser a história de uma família: cinco pessoas meio loucas tendo discussões bestas, acabando em situações ridículas e que no final ainda se amam. Talvez ele veja nessas estranhas criaturas animadas a arte refletindo a vida, e a vida refletindo a arte. Daniel é o filho do meio. Se fôssemos personagens dos Simpsons, ele seria a Lisa. Mas ele é mais a Maggie do nosso clã: o mais inteligente do grupo, fala muito pouco e tem muita coisa se passando por trás daqueles olhos atentos, incluindo amor por sua família.

Então quando deixamos ele assistir um episódio extra de Simpsons antes do jantar, não fazemos só porque gostamos da série – fazemos por ele.

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