Cultura

A história da batalha legal da Supreme contra a "Supreme"

A gigante do streetwear está há anos a tentar impedir uma empresa italiana de falsificar a sua marca.

Por Mattia Salvia
15 Janeiro 2019, 12:42pm

Foto por Jake Lewis.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Itália.

No início de Dezembro de 2018, quando se preparava para lançar o seu novo smartphone, a Samsung decidiu fazer outro anúncio: a Samsung China iria fazer uma colaboração com a Supreme. Só que havia um pormenor: a colaboração não era com a Supreme Nova Iorque, mas com a “Supreme Itália” – uma empresa que, há anos, copia legalmente a marca original de streetwear.

Nos últimos dois anos, a empresa por detrás da Supreme Itália, a International Brand Firm (IBF), tem vindo a distribuir os seus produtos para toda a Itália e até a montar operações semelhantes em Espanha. Tudo isto acontece juntamente com uma batalha legal constante com a Supreme Nova Iorque – uma disputa que aparentemente só tem contribuido para fortalecer a IBF, à medida que esta se expande globalmente. Um sucesso tal que, na verdade, agora querem deixar de ser chamados Supreme Itália ou Supreme Espanha e, simplesmente, Supreme.


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Marcas falsas legais são um problema relativamente novo na indústria da moda. O termo é usado quando uma empresa regista uma marca em determinado país antes de a marca original conseguir fazê-lo. Depois, podem vender produtos quase iguais, usando uma estratégia de marketing praticamente idêntica à da marca original. Ao contrário da falsificação, o objectivo não é replicar o produto original, mas imitar toda a marca.

No caso da Supreme, em 2015, uma empresa ligada à marca, a Chapter 4 Corp, não logrou registar o nome antes de a IBF conseguir a marca registada “Supreme Itália”. Mas, a Supreme Nova Iorque não é a única empresa de streetwear a enfrentar uma marca falsa legal. O primeiro caso aconteceu em 2013, com a Boy London Itália. A única diferença visível aqui é que a águia do logotipo das respectivas marcas está virada em direcções opostas. Em 2017 surgiu a Pyrex Original, uma cópia da Pyrex Vision, de Virgil Abloh, além de outras marcas falsas legais da Kith, Thrasher, Vetements e Palace.

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A Supreme publicou um comunicado nos stories do Instagram, em que afirma que não está a fazer nenhuma parceria com a Samsung. Imagem via Instragram/Reprodução

Estas marcas falsas, sem surpresa, são muito mais fáceis de conseguir que os artigos genuínos. A Supreme é conhecida por vender os seus produtos apenas em edições limitadas, em lojas de Nova Iorque, Los Angeles, Londres, Paris e Japão, ou através do seu site. E, quando uma nova edição é lançada, os produtos esgotam em poucos minutos. A Palace é similar, Boy London e Thrasher vendem principalmente através dos seus sites e a Pyrex Vision já nem existe.

Enquanto isso, marcas falsas legais estão disponíveis na tua loja local, às vezes enganando os revendedores e levando-os a acreditar que estão a lidar com produtos originais. Em Itália, marcas falsas legais são tão difundidas que já são quase consideradas normais. Muitas destas marcas falsas parecem vir de Barletta, sul do país, onde a Supreme Itália faz a sua distribuição através de uma empresa chamada Trade Direct Srl. Enquanto muitas marcas falsas estão disponíveis em qualquer lugar, a estratégia da Supreme Itália é única: a marca está realmente a tentar substituir a original, o que explica porque é que essas batalhas legais se arrastam por tanto tempo e chamam tanto a atenção e porque é que algumas pessoas estão a apelidar a situação de “batalha global pelo controlo da Supreme”.

A produção da Supreme Itália começou em 2015, em Barletta, cerca de um mês depois de a Supreme Nova Iorque tentar pela primeira vez registar a marca em Itália. A Supreme Itália fez a primeira aparição oficial nas lojas a 14 de Janeiro de 2016, quando a Trade Direct Srl a promoveu em Florença.

Mas, foi preciso os donos da Supreme irem ao Instagram questionar a legitimidade de t-shirts da Supreme com o logo muito maior que o normal, para que a Supreme Itália começasse a atrair atenção internacional e a polémica começar. Inicialmente – talvez por causa da disponibilidade limitada da original e porque a Trade Direct se apresenta como distribuidora de marcas internacionais famosas – muitos revendedores conhecidos e clientes não perceberam que a Supreme Nova Iorque e a Supreme Itália eram marcas diferentes.

Em 2017, a Chapter 4 processou a Trade Direct e a IBF. No começo até tiveram algum sucesso: em Abril daquele ano, o Tribunal de Milão determinou que a marca italiana desrespeitava leis de “competição justa” e ordenou que a IBF parasse temporariamente de vender. Além disso, como resultado da decisão, a polícia fez rusgas a vários armazéns da Supreme Itália – com a maior apreensão a acontecer em San Marino, onde 120 mil produtos da Supreme Itália foram confiscados.

Depois, em Maio de 2018, a Supreme Nova Iorque não conseguiu registar a sua marca na União Europeia. O Instituto de Propriedade Intelectual da União Europeia (EUIPO) considerou o nome da marca “muito descritivo e desprovido de carácter distinto” e tem a decisão final ainda pendente. Um mês depois, outro pedido de registo – desta vez da marca “SUP” – foi rejeitado. Graças a isto, o Tribunal de Trani, sul da Itália, deitou por terra a decisão do Tribunal de Milão e decidiu em favor da Supreme Itália, ordenando a libertação dos produtos apreendidos.

Enquanto isso, em Espanha, a Elechim Sports SL, propriedade da IBF, registou a marca Supreme Espanha, tornando ilegal a possibilidade de a Supreme Nova Iorque operar no país. A Supreme Espanha lançou imediatamente lojas em Madrid, Barcelona, Ibiza e Formentera. Em Outubro passado, um tribunal catalão rejeitou processos da Chapter 4 contra a Supreme Espanha.

Nessa altura, as notícias da parceria entre a Supreme Itália e a Samsung já tinham começado a surgir, incluindo planos da IBF de se expandir para a China e até participar na próxima Shanghai Fashion Week. Pouco depois, a IBF anunciou que tinha registado a marca “Supreme” com a Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) em Genebra para todo o mercado asiático, o que significa que podiam vender produtos Supreme na China sem terem que os qualificar como “Itália” ou “Espanha”. Ainda assim, este registo não significa que a empresa tenha direitos exclusivos sobre uma marca.


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Sem surpresa, o anúncio da Samsung não deixou a Supreme original nada feliz. A Supreme NYC divulgou uma declaração em que explicava que não estava a trabalhar com a Samsung, nem a abrir uma loja própria em Pequim. “Essas afirmações são descaradamente falsas e propagam uma organização de falsificação”, dizia a declaração.

A IBF respondeu através do Instagram da Supreme Espanha, explicando que “o trabalho da empresa chinesa com a Samsung e outros empreendimentos comerciais é uma parceria oficial da nossa empresa International Brand Firm Ltd, proprietária de marcas registadas incluindo Supreme Espanha e Supreme Itália, e da marca Supreme em vários países do Mundo através da OMPI” e que se reservava ao direito de “tomar medidas junto das autoridades competentes contra as reivindicações difamatórias da Chapter 4”.

Então, apareceu uma publicação na página do Weibo da Samsung que parecia colocar um ponto final na história: “Recentemente, durante o lançamento do Galaxy A8s, a Samsung Electronics anunciou uma colaboração com a Supreme Itália na China. Actualmente, estamos a reconsiderar e sentimos muito o sucedido”.

Todavia, ainda não é claro qual é o estado da colaboração, já que a IBF continua a falar como se nada tivesse acontecido, tendo mesmo dito no dia seguinte que “as oportunidades anunciadas hoje são vistas como oportunidades concretas de crescimento e expansão da marca, tendo em conta o nosso comprometimento em continuar esta jornada”.

A jornada em questão é a suposta inauguração de 70 lojas falsas legais da Supreme pelo Mundo. A próxima deve abrir em Belgrado, mas a notícia mais importante é o lançamento de duas lojas próprias maiores em Pequim e Xangai, dando à Supreme falsa uma oportunidade de competir com a Supreme no mercado asiático.

A IBF tem tanta confiança que está a começar a atacar a Supreme Nova Iorque sobre as suas edições limitadas, dizendo que quer colocar um fim à “injustiça” e lutar contra “o fenómeno legalmente ambíguo que encoraja a revenda... promovida por supostos youtubers, ou falsos gurus do streetwear”. Colocando a colaboração com a Samsung de lado, não é claro o que a Supreme NYC pode fazer para impedir o crescimento da marca falsa legal Supreme, que agora tem o direito do nome original da marca enquanto vende para milhares de milhões de pessoas pela Ásia.

Uma versão anterior deste artigo afirmava incorrectamente que a EUIPO teria decidido contra o pedido de registo de marca da Supreme na Europa. A decisão ainda está pendente.

Uma versão anterior deste artigo afirmava incorrectamente que a IBF teria garantido os direitos exclusivos da marca "Supreme" na Ásia, através da OMPI.

Uma versão anterior deste artigo afirmava incorrectamente que o Japão era o único país asiático onde a Supreme podia operar.


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