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​O que Aconteceu na Vida das Mulheres em 2014

Desenrolamos fatos gringos e tupiniquins que fizeram esse ano ser um lugar um pouco melhor para as mulheres.
23.12.14

2015 será o ano da sororidade?

Ainda é muito difícil afirmar que as mulheres tiveram um bom 2014. No Brasil, pesquisas relatam coisas escabrosas como " 58,5% concordam que, se a 'mulher soubesse se portar, não haveria estupros'" e "48% dos jovens acham que mulheres não devem sair sem a companhia de seu namorado". Além, claro, de ainda elegermos políticos que acham aceitável propagar livremente a cultura do estupro e jorrar discursinho de ódio aos quatro ventos.

Porém, antes que você tome um porre de sidra ruim e se empanturre de peru (sem piadas) no Natal e no Ano Novo, achamos justo afirmar que, sim, ainda existe esperança para as mulheres (cis e trans) no mundo. Sempre existirá. O que nos confere tal vibe sonhática são fatias do noticioso do ano que se despede: o pick-up artist Julien Blanc teve seu visto negado pelo governo brasileiro; a jovem Malala foi reconhecida por lutar pela educação das meninas paquistanesas e recebeu o Nobel da Paz; e, por último e não menos importante, reelegemos uma presidente mulher.

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Abaixo, desenrolamos fatos – gringos e tupiniquins – que permearam 2014. Chega cum nóis.

O BABACA DO JULIEN BLANC TEVE O VISTO NEGADO PELO GOVERNO BRASILEIRO
As técnicas do "pick-up artist" Julien Blanc deixaram muitas bocas espumando de raiva pelo mundo. Vídeos no YouTube mostram esse sujeito desprezível agarrando mulheres pelo pescoço e conduzindo-as forçosamente até seu pinto. Com agenda cheia no Brasil, onde daria palestras falando sobre sua estranha arte de pegar mulher à força, o rapaz acabou tendo o visto negado pelo Itamaraty. E isso não rolou só por aqui. Com a pressão das feministas, Blanc foi vetado em vários outros países. Inclusive, achamos que "tá poco".

CAIU NA NET PORQUE QUIS
Muita garota tirou a própria vida depois que fotos e vídeos íntimos foram compartilhados sem consentimento no WhatsApp ou nas redes sociais. Daí que a lindíssima atriz pornô Lola calou a boca de muita gente, protagonizando uma sacada genial. Num vídeo que aparenta ser amador e que "caiu na net" em 2014, ela olha para a câmera e fala: "Você pensou que fosse mais uma garota caindo na net, mas não. Eu fiz este vídeo pra você compartilhar, porque concordei com isso. Já as outras meninas são vítimas desse crime, vítimas de você. O que pra você é mais um minutinho de curtição, pra elas é muito sofrimento e até suicídio. Não seja cúmplice. Em vez de compartilhar outros vídeos, compartilhe este aqui e ajude a acabar com esse crime". Obrigada, Lola. Apenas obrigada.

Foto: Facebook Malala Fund

A MALALA RECEBEU O NOBEL DA PAZ
Imagina a treta que é ser paquistanesa, ter 14 anos, lutar pelo direito das meninas de frequentar a escola no seu país, ser baleada por um grupo talibã, passar por cirurgia e, ainda assim, ter forças pra continuar lutando por direitos tão básicos como a educação. Essa é a Malala Yousafzai, uma mina foda que, aos 17 anos, ganhou o Nobel da Paz em 2014. Vai, Malala!

O SENADO APROVOU A INSERÇÃO DO CRIME DE FEMINICÍDIO NO CÓDIGO PENAL
Fale o que quiser, mas a declaração misógina do deputado mais votado no Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro (PP-RJ), contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS) serviu para alguma coisa no mundo prático. Na semana passada, o Senado aprovou o Projeto de Lei nº 229, que criminaliza qualquer ato voltado exclusivamente ao gênero, sendo eles a violência (seja ela doméstica, familiar ou sexual), a desfiguração ou mutilação da vítima e o emprego de tortura ou meio cruel e degradante. As penas variam de 12 a 30 anos.

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Segundo a senadora Gleisy Hoffman (PT-PR), a motivação da aprovação foram os atos do Bolsonaro. E também, claro, a bancada feminaz… digo, feminina exerceu uma pressão considerável para que o projeto fosse aprovado. Agora é esperar se a Câmara dos Deputados vai homologar ou não.

ENCOXADORES DO TRANSPORTE COLETIVO FORAM IDENTIFICADOS E PRESOS
A velha prática de encoxar mulheres em vagões de metrô e trem e nos corredores dos ônibus tomou forma quando encoxadores resolveram fazer grupos no Facebook para relatar suas peripécias. A coisa tomou proporções avassaladoras quando a imprensa começou a cair em cima (inclusive aqueles programas policiais do horário vespertino). Muitos desses caras foram identificados e presos e a maior parte dos grupos foi extinguida. O problema não foi totalmente resolvido, claro. Mas o que, até então, era considerado como "rotina" no transporte coletivo passou a ser visto como prática abusiva, inaceitável, nojenta e caso de polícia. Inclusive, o Ministério Público exigiu que o Metrô de São Paulo fizesse uma campanha preventiva sobre o tema.

Foto por Felipe Larozza.

O VETO DO VAGÃO ROSA
Depois da merda toda que rolou com os encoxadores do transporte público, nada mais óbvio e previsível do que um político homem surgir e achar que o problema do abuso sexual só vai se resolver quando tiramos as mulheres (essas devassas) de circulação.

O deputado Jorge Caruso (PMDB-SP), esse grande salvador, veio com o Projeto de Lei nº 173/2013 propondo a criação de um vagão "rosa" exclusivo para mulheres, embora elas representem 58% dos usuários de transporte público. A ideia obviamente não colou em nenhum núcleo feminista, levando-os às ruas para pressionar o governador Geraldo Alckmin a vetar a proposta. Após algumas semanas de (muita) pressão feminista, ele foi vetado.

Foto por Felipe Larozza.

A PREFEITURA DE SP CRIOU UM QUARTO PARA TRAVESTIS, TRANSGÊNEROS E TRANSEXUAIS
Lotados de homens, os abrigos para pessoas em condições de rua na cidade de São Paulo definitivamente não são os locais mais apropriados para a diversidade. Travestis, transgêneros e transexuais passam por situações esquisitas ao compartilhar quartos com homens héteros. Até porque elas (como preferem ser chamadas e assim sempre fizemos em nossas matérias) possuem seus próprios modos de calçar suas sandálias, vestir suas saias, blusas, ajeitar os sutiãs e, claro, "aquendar a neca" (nome usado para o momento em que se esconde o pênis). Pois que a Prefeitura de São Paulo, numa gestão que surpreende os mais conservadores, criou quartos apropriados para essas garotas no Centro Zaki Narchi. E essa "segregação" não tem nada de negativa: elas adoraram, e é uma maneira saudável de respeitar suas individualidades.

A BEYONCÉ CANTANDO EM FRENTE A UM LETREIRO ENORME COM A PALAVRA "FEMINISTA"
O que mais a Beyoncé fará pelo mundo? Não sabemos. Apenas sabemos que, além de ser uma verdadeira diva, pegar o Jay-Z e faturar rios de dinheiro, ela excursionou o ano inteiro com a palavra "feminista" atrás de seu voluptuoso corpinho. Até pode ser meio complexo sacar o que isso faz pelo feminismo, mas o que podemos afirmar é que esse lance é muito mais legal do que alguém dizendo "Saiam por aí estuprando geral". Mais Beyoncés, menos Bolsonaros. Obg.

Ilustração: Juliana Lucato

DILMA ROUSSEFF FOI REELEITA
Pode chorar, espernear, fazer o Aécio e pedir o impeachment, mas uma mulher foi reeleita pela maioria para governar a 7ª maior economia do mundo. Considerando que algumas décadas atrás nós não podíamos nem votar, não seria um exagero dizer que o pleno reconhecimento dos direitos básicos para as mulheres está cada vez mais possível. Embora alguns ainda achem que é injusto.

ANITTA X PITTY: 2015 SERÁ O ANO DA SORORIDADE?
A "briga" que as colunas de fofocas fizeram questão de plantar entre a funkeira e a roqueira durante a gravação do programa Altas Horas foi imbecil, mas ainda assim muito pipoca abraçou.

Resultado: algumas feministas lideraram um racha-mina ridículo contra a Anitta e o discurso problemático dela. Foi ruim, mas quem sacou rapidinho que ia dar muita merda foi a Pitty, que tuitou uma mensagem fofa para a Anitta falando que não é a vibe dela ficar brigando com mulher. A Anitta curtiu e assim ficou.

Sem querer, aprendemos uma lição de ouro com essa treta: a sororidade não é e NUNCA deve ser seletiva. Ao menos se a pessoa em questão for preconceituosa de alguma forma – aí são outros 500.

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