Cortesia de Tatyana Fazlalizadeh.

A artista por trás de 'Ela Quer Tudo'

Tatyana Fazlalizadeh fala sobre o assédio real que inspirou a nova série do Netflix dirigida por Spike Lee.

por Noel Ransome; Traduzido por Marina Schnoor
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nov 29 2017, 10:00am

Cortesia de Tatyana Fazlalizadeh.

Entrevista originalmente publicada na VICE USA.

No filme original do Spike Lee Ela Quer Tudo , a personagem principal, Nola Darling (Tracy Camilla Johns), é atacada por um ex-namorado, Jamie Overstreet. O ataque começa com um slut-shame – ela a chama de “aberração” por sua promiscuidade. As próximas palavras são um aviso: “você não quer que eu faça amor com você, você quer que eu te foda”. Aí ele empurra Nola na cama antes da cena de estupro. É uma sequência que Spike Lee se arrepende de ter feito hoje, culpando a própria imaturidade. É uma cena desajeitada, insensível e contada da perspectiva do homem.

Spike Lee é bem esse cara; uma pessoa que você ama odiar ou odeia amar por cenas assim – essa abordagem foda-se. É algo que você tem que considerar no corpo de trabalho de Lee. Que suas palavras e ações são suscetíveis a serem insensíveis e insanas. Ele avançou na carreira dizendo uma “verdade” que é primordial para todo mundo, mesmo quando essa verdade é a verdade dele.

Mas o remake da Netflix de Ela Quer Tudo parece se afastar dessa abordagem. Spike Lee não está mais na era pré-conscientização e sem internet de 1986, quando ele podia escrever livremente a história de uma mulher negra sendo um homem negro. Agora ele está em 2017; um momento em que as mulheres do outro lado da mesa exigem que suas histórias sejam contadas para além da interpretação masculina. E Lee reconhece essa realidade através de suas contratações.

Via Tatyana Fazlalizadeh.

A artista nascida em Oklahoma, nos EUA, Tatyana Fazlalizadeh é uma dessas contratações. Ela era Nola antes do filme virar série em 2017 – conhecida por usar seu talento no ativismo social em nome de mulheres não-brancas. Sua campanha global Stop Telling Women to Smile de 2012, com foco no assédio nas ruas, foi em parte uma grande inspiração para a expressão artística da nova Nola Darling. Através dessa reputação, encontrada nas ruas de Nova York, Spike Lee a contratou como a principal consultora de arte da série e pintora de muitas obras de Nola.

“Eu tinha problemas com o trabalho dele e com como ele retratava mulheres negras”, diz Fazlalizadeh, em sua fala mansa, pelo telefone. “Mas é o Spike Lee, ele é brilhante, ele é uma lenda e eu estava dentro.”

Durante aquela ligação, Fazlalizadeh falou candidamente sobre Ela Quer Tudo, o talento que tem para falar com mulheres em particular, e o que espera da era pós-Harvey Weinstein.

Brooklyn Renaissance com Spike Lee e Tatyana Fazlalizadeh | via Getty.

VICE: Vamos falar sobre Ela Quer Tudo, você era fã do filme de 1986?
Tatyana Fazlalizadeh: Primeira coisa, eu adorava o original. Sim, eu tinha meus problemas com ele, e sim, eu não gostava do estupro que acontecia no original – mas Spike já falou de seu arrependimento nisso. Como uma jovem mulher negra, assistir um filme assim foi algo que eu nunca tinha experimentado antes. Como agora é uma série de dez episódios, temos uma oportunidade maior de ir mais fundo em personagens como Nola Darling. E dessa vez, sua arte e sua profissão parecem ter uma parte igual na série. No filme, não temos realmente a chance de ver isso. É mais sobre os relacionamentos românticos de Nola com esses caras. No remake, a arte dela é outra personagem. Ela é apaixonada por isso mas insegura ao mesmo tempo. Podemos ver ela trabalhando nisso, o que é muito incrível. É mais uma camada dela como ser humano.

Elabore mais esse aspecto do ser humano, especialmente como mulher negra.
Como mulher negra, eu sempre quis que fôssemos retratadas como pessoas comuns. Sim, passamos por muita coisa, e experimentamos opressão o tempo todo, mas também somos só gente comum. Não somos supermulheres ou mulheres fracas o tempo todo. Não somos supersexuais ou não-sexuais o tempo todo; somos só seres humanos comuns. E sim, nem sempre temos nossa carreira resolvida. Muitas vezes na mídia, representamos a mulher de sucesso e independente. Mas muitas vezes não temos nossa vida nos trilhos. Estamos tentando como todo mundo. A série mostra isso de várias maneiras, e espero que temporadas futuras possam revelar mais esse aspecto nos personagens. É algo que estamos realmente começando a ver, não só nessa série mas em outras. Mulheres negras podendo ser seres humanos completos. Fico muito empolgada com isso.

Nola Darling interpretada por Dewanda Wise | Cortesia da Netflix.

Sua arte aparece bastante no seriado, que também foi inspirado na sua série anterior Stop Telling Women to Smile. Você não era obrigada a usar seu talento e voz para fazer o que faz. Então por que é tão importante para você fazer isso?
Sou uma artista, e através disso, sempre tive o desejo de falar sobre coisas que têm um impacto sobre mim por meio do meu trabalho. Eu nunca quis que fossem só imagens bonitas ou coisas esteticamente prazerosas. Meu trabalho tinha que abordar coisas que são importantes para mim e para minha comunidade. A verdade é: penso em raça e gênero o tempo todo porque estou experienciando o mundo de um jeito que me obriga a encarar isso de frente.

Para mim, a importância está sempre lá. Sempre abordo meu trabalho com uma ideia, questão e público em mente. Não é só sobre mim, é sobre um público em particular. Geralmente, quando há uma questão para abordar, há o oprimido e o opressor. No caso de Stop Telling Me to Smile, estamos falando sobre sexismo e as mulheres que são oprimidas por esse grupo, homens, que são os perpetradores. Estou fazendo um trabalho para mulheres basicamente. Elas são o público, e os homens também – num grau menor. É sempre uma questão de com quem estou falando, o que estou tentando dizer e onde é o melhor lugar para ter um impacto que possa afetar as pessoas de um jeito positivo. Isso sempre dita a direção que devo seguir.

Quando você fala de assédio – sem pressão para levar muito para o pessoal – você pode contar algumas das coisas que você passou que te inspiraram em trabalhos como Stop Telling Women to Smile?
Honestamente, experimento formas de assédio sexual desde que era criança. Isso sempre foi parte da minha vida. Não é tanto a real experiência do que aconteceu, mas do fato que acontece o tempo todo. Por exemplo, eu estava trabalhando num mural na Filadélfia com um bando de caras de um coletivo de arte. Eu era a única mulher trabalhando no projeto. Então você está a céu aberto, é verão, você está num elevador, no alto, pintando uma parede. Claro, eu estava usando um short porque estava calor. Os homens que passavam na rua assoviavam e falavam comigo enquanto eu estava no elevador pintando. Tenho amigos homens e sempre notei como meu espaço público é diferente de como eles experimentam o mesmo espaço público. E isso me faz saber que mesmo quando estou trabalhando, ainda estou nas mãos dos homens. Ainda estou sendo objetificada sexualmente. Coisas assim foram grandes motivadores.

Tenho que perguntar – como escritor negro, às vezes sinto que é minha responsabilidade usar meu trabalho para abordar causas que afetam pessoas como eu, em vez de coisas divertidas. Você vê o que faz como uma responsabilidade, sendo uma mulher negra?
Sabe... não sei se é uma responsabilidade. Nem todo mundo tem que usar sua voz. Claro, é uma ideia linda: todas as pessoas usando suas habilidades e talentos para o ativismo, pela comunidade, para lutar e resistir a coisas terríveis que acontecem conosco. É uma ideia incrível. Mas muitas vezes, é pedir demais para pessoas simplesmente tentando ganhar a vida para marchar e ser ativista. Não acho que isso é necessário nem minha responsabilidade. Posso facilmente pintar flores o dia inteiro, mas estou fazendo isso porque quero, e porque me importo com essas coisas. Se minha arte é o melhor jeito de ajudar, quero ser capaz de contribuir do jeito que posso. Se um artista não se sente assim, as coisas são como são.

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