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E se a Coreia do Norte fizesse um ataque nuclear nos EUA?

Depois da visita do vice-presidente norte-americano à área desmilitarizada do país, um especialista explica o que pode acontecer no caso de uma ofensiva norte-coreana.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Se você não estava prestando atenção na Coreia do Norte em 2016 — um ano no qual grandes potências mundiais como Rússia, EUA, Reino Unido e China competiram pelo holofote geopolítico fazendo merdas — era fácil esquecer que o reino ermitão continua ameaçando tacar bombas nucleares em seus inimigos. Não à toa, nesta segunda-feira (17) o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, em visita à Coreia do Norte, informou que seu país não irá mais tolerar novos testes nucleares e de mísseis do regime norte-coreano.

Sobre a possibilidade de um ataque nuclear por parte da Coreia do Norte, já ouvimos essa história tantas vezes que parece blefe, mas a Coreia do Norte deu duro em 2016 para fabricar e testar tecnologias relacionadas que provam que suas ameaças são sérias, especialmente o impressionante míssil balístico intercontinental Kwangmyongsong. Um míssil que, em fevereiro retrasado, descobrimos ser capaz de atingir Los Angeles.

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Análises recentes sugerem que em 2020, a Coreia do Norte terá um míssil nuclear "confiável" que pode atingir solo norte-americano. Ainda assim, segundo Rodger Baker, analista da Coreia do Norte da firma de inteligência militar Stratfor de Austin, Texas, nos EUA, não é uma questão de quando os mísseis se tornarão confiáveis. "Agora eles provavelmente já são capazes de atingir os EUA", disse ele, acrescentando que analistas dentro do exército norte-americano já operam "sob o pressuposto de que a Coreia do Norte tem a capacidade [ofensiva], mesmo se ainda não tenha demonstrado isso completamente".

Em outras palavras, a Coreia do Norte está pronta para uma guerra nuclear, do mesmo jeito que seu amigo que fica insistindo para você ouvir a mixtape dele está pronto para se apresentar no VMA: Todo mundo acha que não vai dar muito certo, mas e se der?

No começo de 2016, a equipe de Baker da Stratfor escreveu uma análise detalhada de como os EUA pode tentar acabar com o arsenal da Coreia do Norte, e qual seria a estratégia de retaliação de Pyongyang. "Esses são cenários importantes para se imaginar", me disse Baker.

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E sendo assim, Baker me ajudou a analisar o que aconteceria no dia de um ataque da Coreia do Norte aos EUA — da resposta imediata ao início de uma guerra. Algumas partes das previsões dele me surpreenderam. Por exemplo, Baker disse que se você acha que os EUA vão apertar todos os botões vermelhos à sua disposição, e transformar a Coreia do Norte numa cratera, você provavelmente não é um estrategista militar muito bom.

Passo 1: Os EUA provavelmente notariam alguma coisa muito antes do lançamento

Considerando a tecnologia que sabemos que a Coreia do Norte tem atualmente, é seguro dizer que um míssil nuclear não emergiria do nada de um silo subterrâneo. A Coreia do Norte tem alguns métodos de lançamento em potencial, mas os mais confiáveis são as antigas — e bem óbvias — torres de lançamento estacionárias. Mas Baker me disse que essa opção é a pior porque oficiais da inteligência de países inimigos teriam tempo de notar [a ofensiva]. "Leva vários dias ou até semanas para erguer uma torre dessas e preparar o míssil", disse ele.

A Coreia do Norte já testou com sucesso mísseis lançados por submarinos em dezembro último, mas esse tipo de lançamento só permite que a Coreia ataque a poucos quilômetros da costa, e os submarinos toscos norte-coreanos teriam dificuldade para chegar tão longe.

Uma opção melhor seria usar um lançador transportador eretor, ou TEL [em inglês]. "Você já viu isso em filmes, basicamente um caminhão grande com um trailer em cima", ele me disse. "Em uma hora você consegue mover o míssil para fora do túnel, armar e disparar." E para deixar registrado, a Coreia do Norte tem alguns TELs, já que comprou alguns da China em 2012 e desfila seus mísseis neles em Pyongyang.

Baker, no entanto, disse ter certeza de que mesmo o espaço de uma hora para montar seria tempo suficiente para o mundo notar que a Coreia do Norte tem um míssil pronto para ser lançado, citando escrutínio intenso sobre a região de uma rede de radares internacional, contando com satélites e equipamentos de rastreamento de calor. "Logo depois que a Coreia do Norte faz um teste, há declarações dos EUA e Japão sobre se o teste teve sucesso ou não, e isso porque eles estavam monitorando a coisa toda, mesmo quando os norte-coreanos fazem um teste surpresa com sistemas móveis", explicou Baker.

Resumindo, ele diz que não poderia haver realmente um ataque surpresa. "Primeiro, todos os sistemas de defesa de míssil são colocados em alerta máximo", me disse Baker. Depois disso, ele explicou que os navios de defesa japoneses seriam movimentados.

Hora de se defender.

Passo 2: EUA e Japão ponderam sobre um ataque preventivo

Mas claro, a melhor defesa é uma boa ofensiva. Segundo analistas de política estrangeira da Escola de Direito da George Washington University, se espiões tiverem certeza que a Coreia do Norte está armando um míssil com ogiva nuclear e mirando para os EUA, os norte-americanos podem lançar um ataque preventivo, e terem certeza que podem justificar isso mais tarde para a ONU como resposta a um "ataque iminente".

Essa decisão pode até não envolver um telefonema do presidente Trump, segundo Baker. "Acho que essa será uma decisão dos militares", ele me disse. Ele também explicou que os militares preferem ações preventivas. Esperar por um ataque, e que ele seja desviado, é um risco. Por outro lado, se atacar preventivamente, "você tem uma chance de 100% de acabar com o ataque, então é o método preferível".

Mas justificar ataques aéreos preventivos pode ser um negócio complicado, e esses ataques podem desencadear respostas indignadas da China, Rússia e até Coreia do Sul. "De uma perspectiva política", disse Baker, "seria melhor deixar a Coreia do Norte lançar o míssil, depois derrubá-lo, do que acertá-lo ainda na plataforma".

Então não está fora de questão — ainda que pareça improvável — que os EUA deixariam um míssil norte-coreano sair do chão.

Passo 3: Um míssil é lançado

Mesmo se o lançamento der certo, está longe de ser certeza que um míssil norte-coreano chegaria perto do solo americano. Mísseis balísticos intercontinentais são basicamente espaçonaves suicidas que começam sua viagem saindo da atmosfera da Terra. "Agora os norte-coreanos demonstraram que podem, pelo menos em um teste, lançar a frente de um míssil que parece ter ido além da atmosfera, e depois caído", me disse Baker. Mas cair não é o suficiente se a bomba a bordo do míssil for danificada no processo. "Eles fizeram alguns testes no solo que mostraram que suas ogivas podem sobreviver à reentrada", ele disse.

Aí, claro, temos a questão em aberto de onde hipoteticamente esse míssil seria mirado. Baker disse que não existe uma certeza real de onde a Coreia do Norte atacaria os EUA, e que áreas mais próximas como Havaí e Los Angeles não são as únicas que Kim Jong-un ameaçou. "Lembro de um mapa que eles publicaram alguns anos atrás, onde há linhas que podem ou não seguir até Austin", ele disse.

Passo 4: EUA e Japão tentariam explodir o míssil antes que ele caísse

"Há sistemas de radar em terra observando, além de sistemas de satélite sempre procurando pela menor sinal de lançamento", disse Baker. Há tempos os EUA vêm planejando instalar um sistema de defesa de mísseis chamado THAAD dentro da Coreia do Sul, mas considerando a instabilidade política no país agora, não há certeza de que o sistema THAAD será instalado algum dia.

Se o THAAD existir no momento do lançamento e o míssil conseguir passar por ele, a bomba pode não passar pelo Japão. Navios militares Aegis japoneses estariam por perto, prontos para atirar seus próprios mísseis defensivos.

Se ainda assim o míssil cruzar o Oceano Pacífico, a responsabilidade de derrubá-lo cai sobre o sistema de defesa de mísseis norte-americano no Alasca. Mas esse sistema tem seus furos. "Não é perfeito, e nunca será perfeito", disse Baker.

Então, se a Coreia do Norte tiver muita sorte, podemos ver uma nuvem de cogumelo sobre uma cidade norte-americana.

Ainda assim, na opinião profissional de Baker: "é altamente provável que, se os norte-coreanos são capazes de disparar apenas um ou dois mísseis, eles provavelmente nunca atingirão seu alvo".

Mas é provável que a Coreia do Norte tenha mais capacidade para fazer isso em breve.

Baker apontou mísseis de múltiplas ogivas — alguns sendo armas assustadoras de sofisticação quase inimaginável — como algo que poderia passar pelo sistema de defesa de mísseis norte-americano. "Você pode ter várias ogivas no mesmo míssil indo para direções diferentes, e você pode mirá-las enquanto elas caem", disse Baker. Quando a Coreia do Norte colocar suas mãos nessa tecnologia (e é só uma questão de tempo) suas ameaças de atacar os EUA serão mais críveis.

Passo 5: A China responde

Tem uma boa razão para o presidente Trump pegar leve com a China: segundo Baker, é muito possível que se a Coreia do Norte realizar um ataque não provocado, a China vai se mobilizar para evitar uma segunda Guerra da Coreia.

"A China insinuou que se os norte-coreanos desencadearem um conflito militar, a China pode intervir em Pyongyang, e não dar mais apoio militar para o regime norte-coreano", disse Baker. "Acho que os chineses não têm expectativas de que estão em pé de igualdade com os EUA nesse tipo de confronto."

Mas nem todos os analistas acham que a China vai se voltar contra seu aliado, a Coreia do Norte. Joel S. Wit, do Instituto EUA-Coreia da Johns Hopkins School of Advanced International Studies escreveu para o New York Times que, mesmo que a China venha pressionado a Coreia do Norte para acabar com seu programa nuclear, sua atitude geral para com o país não mudou. "Uma Coreia unida aliada de Washington na fronteira com a China seria má notícia para Pequim, considerando sua rivalidade com os EUA na Ásia", ele escreveu.

Passo 6: Os EUA vão retaliar, mas provavelmente não com armas nucleares

Trump insinuou que poderia usar armas nucleares contra o ISIS, então parece óbvio que ele também bombardearia a Coreia do Norte em retaliação, certo? Baker acha que não.

"Acho isso altamente improvável porque o número de armas que os norte-coreanos têm é extremamente limitado, e a Península Coreana é pequena, e as implicações de lançar armas nucleares na península são grandes demais há longo prazo para os esforços de reconstrução, e também poderiam afetar a Coreia do Sul."

Em vez disso, Baker antecipa "um grande míssil de cruzeiro, seguindo por uma campanha aérea contra todas as linhas de frente da artilharia norte-coreana". A ideia, ele disse, seria desarmar a artilharia da Coreia do Norte em suas linhas de frente, assim como seu sistema de mísseis. Eles fariam isso enquanto também "mobilizam tropas para a região", ele disse.

Passo 7: Uma guerra que a Coreia do Norte provavelmente não vai vencer

Agora que os dois lados usaram armas, importa muito menos quem começou a briga, e é aqui que um relatório anterior da Stratfor sobre um conflito entre Coreia do Norte e a equipe americana e sul-coreana se torna especialmente informativo. Basicamente, "as primeiras horas do conflito são o momento em que a Coreia do Norte precisa utilizar toda ferramenta que tiver", me disse Baker. Ela acha que os norte-coreanos usariam suas "ferramentas tradicionais", o que pode incluir armas biológicas e químicas — "com mais chance de serem químicas" — num esforço para impedir ações no solo dos EUA, e prejudicar seriamente a Coreia do Sul.

Depois disso, é guerra, e Baker não acha que a Coreia do Norte tem muitas chances.

Fora uma mudança política repentina onde os sul-coreanos passem a amar Kim Jong-un, Baker me disse: "ainda é seguro dizer que num conflito que envolva os EUA — e talvez até num conflito que envolva apenas as duas Coreais — é muito difícil que os norte-coreanos terminem por cima".

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Tradução: Marina Schnoor

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