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O Festival Pirâmide Perdida celebrou a tradição e a zoeira do hip hop da Lapa

Bloco Sete reuniu a rapa para lotar o Circo Voador no último sábado (21), celebrando três anos de existência de uma das mais importantes bancas do rap nacional.

por Matias Maxx; fotos por Matias Maxx
24 Julho 2018, 12:16pm

O selo Pirâmide Perdida e o Bloco Sete, coletivo que agrega os MCs da Pirâmide, grafiteiros, modelos e outros amigos, dão continuidade a tradição hip hop da Lapa, bairro que deu luz a gerações de MCs dentro dos eventos Zoeira, Hip Hop Rio, Batalha do Real e Liga dos MCs, para citar alguns. Dois anos após a primeira edição numa casa noturna apertada da Lapa, o Festival Pirâmide Perdida retornou no último sábado (21) ao bairro, desta vez levando duas mil pessoas ao Circo Voador, ícone da contracultura carioca.

O festival contou com shows solo dos artistas do selo culminando numa grande jam no final, além das participações de KL Jay, Marginal Men e outras atividades como feira de sneakers (vários ‘dól’ negociados) e uma barraca com camisetas e bonés do selo (praticamente esgotados). O produtor Fil, conhecido como El Lif, explica que lotar o Circo Voador sempre foi um sonho da galera. “Algo que a gente já imaginava antes de levar a parada profissionalmente, encarar como vida, profissão de verdade, botar a cara. Então fazer um bagulho nosso no Circo sempre foi uma vontade muito grande, só que a gente não queria fazer um bagulho mais ou menos, a gente queria fazer uma parada que marcasse, uma experiência foda pra todo mundo.”

Sain. Foto: Matias Maxx

Para Sain, que praticamente cresceu naquele palco assistindo ou acompanhando seu pai Marcelo D2, foi foda, “estar aqui com Bril, Akira, que são as pessoas com quem eu cresci... Bagulho nosso, nossa crew. Chegar neste nível com meus parceiros é foda. A gente carrega o maior peso, aquela ideia de ver o copo meio cheio tá ligado? A gente tá carregando isso e carregando um bagulho maneiro. Hoje foi mó noite foda, tamos representando essa porra aí, levando além”.

Luccas Carlos. Foto: Matias Maxx

“Pirâmide é isso aí, a união dos caras que já faziam música juntos, que já andavam juntos, sem saber que andavam juntos, tá ligado?”, explica o Luccas Carlos, “O bagulho é o que tinha que ser mesmo, não tinha muito como fugir, e é isso, estamos aqui hoje e chegar aqui é a maior doideira, fazer o Circo lotadão. Só três anos depois, não é muita coisa e já estamos colhendo os frutos.”

Embora a rapaziada se conheça já há uns seis anos, foi só em 2016 que passaram a utilizar o nome Pirâmide Perdida, Sain dá a letra de onde surgiu essa piração, “A gente juntou os equipamentos geral na casa do Fil e começou a gravar. Na época ele morava no Corte, numa porra duma ladeira, lonjão de geral da KGL (Catete, Glória e Lapa). Hoje ele mora na Lapa, graças a deus. Mas aí a gente tinha que ir lá, na pirâmide perdida, longe. Aí era isso, bagulho de drogado mesmo, ficar viajando em alienígena, pirâmide e o caralho.”

Akira Presidente. Foto: Matias Maxx

Mesmo com toda a exaltação ao seu cantinho que separa a Zona Sul do centro do Rio, os artistas da Pirâmide fazem sucesso na internet e lotam shows Brasil afora. O Akira Presidente explica: “A gente tem essa cara de rua, de expressão necessária, de você se mostrar diferente ao mundo que é diferente a você. Então a gente tem uma linguagem que é muito comum ao resto do Brasil, que tem muita gente que pensa como a gente, muito jovem agoniado com essa merda de vida, então temos uma maneira de falar da melhoria, maneiras de ser próximo daquilo que todo mundo vive e ao mesmo tempo é um status, uma maneira real de se viver pelo rap”. Sain explana um pouco mais. “Cada área tem seu diferencial, e aqui é ritmo selvagem mesmo, aquele pique Bloco Sete, a gente representa a Lapa, que é meio difícil de descrever —, é uma essência, um sentimento mútuo. A gente está exaltando o nosso lugar, mas não que seja melhor que os outros. Pô, os caras gostam da área deles mesmo, tem um clima, uma vibe da rapaziada deles. A gente canta não é porque nossa área é melhor que as outras, é que a gente acha muito foda ser daqui, a galera tem de entender isso e cultivar isso em suas áreas também.”

BK'. Foto: Matias Maxx

Para além das letras, a produção de Fil e os beats de Jonas, o Jxnvs, são mais um diferencial nesse coletivo tão rico. “A inspiração pros meus beats é minha própria vida, tá ligado?”, explica. “Eu, por exemplo, no Castelos & Ruínas do BK', um dos samples que usei é trilha do Mega Man X4. E é uma das músicas que eu mais gosto ali.” Fil também lembra que é influenciado por Madlib e J Dilla, “esses caras são influência máxima pra gente, e prezamos muito em manter um padrão tão elevado que nem as nossas referencias fazem ou fizeram."

A rapa reunida. Foto: Matias Maxx

Enquanto trocava ideia com a galera no camarim após o show, um proibidão do Cidinho exaltando o Santo Amaro (morro do Catete), bombava na caixa de som, até que o Bril pediu pra trocar a música e emendou em “Amor Falso”, pagodinho de Aldair Playboy. Primeiro todo mundo zoou, mas logo depois tava todo mundo dançando e cantando. Luccas Carlos um deles: “tenho ‘Samba de Raiz’ tatuado no meu braço — eu sou da música, independente de fazer rap ou não. É nóis, tamo aí pra tudo caralho.”

Na sequência, mais umas fotos desse rolé histórico.

A convidada Ainá. Foto: Matias Maxx
Bril. Foto: Matias Maxx
Bril e um menor da plateia. Foto: Matias Maxx
BK'. Foto: Matias Maxx
Foto: Matias Maxx
Foto: Matias Maxx
Bril dando uma moral pro fotografo. Foto: Matias Maxx
Akira se joga. Foto: Matias Maxx
Foto: Matias Maxx
Foto: Matias Maxx

E o nosso comparsa Rap Falando chegou também com uns vídeos de highlights da noite. Saca só:

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