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O notório troll racista, misógino e homofóbico Marcelo Mello é condenado a 41 anos de prisão

Blogueira feminista que combate crimes de misoginia e que foi perseguida por Marcelo, Lola Aronovich, fala sobre a condenação e da luta feminista na internet

por Gislene Ramos
20 Dezembro 2018, 6:04pm

Marcelo Valle Silveira Mello. Reprodução

O notório troll racista, misógino e homofóbico das redes brasileiras Marcelo Valle Silveira Mello foi condenado a 41 anos, 6 meses e 20 dias de prisão em regime fechado por seus diversos crimes.

Fruto da Operação Bravata, Marcelo está preso desde maio de 2018. Em 2017, Marcelo foi preso e logo liberto. Ele tem o perfil típico dum incel, e foi a primeira pessoa no Brasil a ser condenada por racismo na internet. A condenação desta vez foi por associação criminosa; divulgação de imagens envolvendo a prática de pedofilia; incitação ao cometimento de crimes; racismo; coação no curso do processo e terrorismo, segundo o G1.

Analista de sistemas, Mello havia sido preso pelas mesmas razões em 2012, junto com o técnico em informática Emerson Rodrigues, seu amigo e comparsa. Entre os alvos dos ataques da dupla, à época, estavam figuras públicas como o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) e a blogueira feminista Dolores "Lola" Aronovitch.

Eles foram condenados em 2013 e cumpriram pena até 2015. Quando saíram da cadeia, enviaram e-mails para Aronovich responsabilizando-a pela prisão. E Marcelo voltou com as práticas misóginas e racistas na internet.

Lola é mestra e doutora em literatura em língua inglesa pela UFSC, autora do blog Escreva Lola Escreva e professora de Literatura em Língua Inglesa na Universidade Federal do Ceará.

Apesar de ter sido ameaçada sistematicamente na internet, a luta constante resultou na Lei 13.642/2018, conhecida como "Lei Lola", da autoria da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), que autoriza a PF a investigar casos de misoginia na internet.

Lola Aronovich, no documentário Escreva Lola Escreva / Reprodução
Lola Aronovich, no documentário "Escreva Lola Escreva"

Na época da prisão, em maio, Lola publicou em seu blog sobre o sentimento após a prisão de Marcelo: “É uma sensação de alívio indescritível! Eu não havia perdido a esperança totalmente (dependia do dia, mas costumo ser uma otimista incorrigível). Mas é que foram cinco anos de total impunidade! E cinco anos de ataques sem parar é muita, muita coisa!”

Tweet de Lola
Tweet de Lola

Agora, após a condenação de Marcelo para o cumprimento de mais de 41 anos de prisão, sem possibilidade de recorrer em liberdade, conversamos com Lola, que está de férias em Buenos Aires.

VICE: Quais sentimentos passaram por você após a divulgação da pena de 41 anos a Marcelo?

Lola Aronovich: Como estou de férias, não estou acompanhando direito as notícias. Ontem à tarde alguém me perguntou no Twitter se a decisão do STF não soltaria o Marcelo, que foi preso pela Operação Bravata em 10 de maio, e já teve quatro habeas corpus negados. Fiquei preocupada e comentei com meu marido que, se Marcelo fosse solto, a primeira coisa que ele faria seria fugir do país, para só depois voltar a fazer tudo que ele sempre fez na vida, que é atacar, ameaçar, difamar pessoas. Fora do país ele encomendaria a minha morte (e talvez a do meu marido também), como vinha prometendo havia anos. Depois do jantar, à noite, voltei para a quitinete, e um rapaz passou o link pelo Twitter sobre a condenação de Marcelo a 41 anos. Claro que fiquei muito feliz! Estou sorrindo de orelha a orelha até agora! Mas o alívio maior foi a prisão de Marcelo no dia 10 de maio. De lá pra cá minha vida melhorou bastante.

Em algum momento, ao longo desses anos de ataques e investigações, você teve medo?

Lola: Medo eu nunca tive, sinceramente. Ele e sua quadrilha são muito covardes. Querem nos intimidar com ameaças de morte e estupro. Nas primeiras ameaças às pessoas que a gente ama (como a meu marido e a minha mãe), eu senti um pouco de medo. Mas em seguida vi que eram só mais ameaças vazias. Por outro lado, sou um alvo fácil. Eles sabem meu endereço residencial há 8 anos. Sabem onde eu trabalho. Acompanham as palestras que dou em todo o país. Se eles quisessem me matar, não seria difícil. E não há nada que eu possa fazer. Mas acho que eles sabem que, se me matassem, me transformariam numa mártir (como as milícias fizeram com Marielle), e que eles seriam os principais suspeitos.

Você chegou a perder a esperança de que ele seria punido?

Lola: Foram 5 anos ininterruptos de ataques a mim e a muitas outras pessoas, principalmente mulheres, negros e LGBTs. E ambos me processaram! Dá uma raiva danada ser processada por quem te difama e ameaça de morte. Mas eles fizeram isso só pra incomodar, e quando viram que não teriam chance de ganhar as ações, nem de me forçar a ir a Curitiba ficar frente a frente com eles, desistiram dos processos. Muitas vezes eu perdi a esperança que eles voltariam a ser punidos, mas continuei colaborando com a Polícia Federal, mandando e-mails, prints e links do que eles estavam fazendo. Foi muito compensador saber em maio que tudo que eu enviei foi usado na investigação e na eventual condenação. Tudo que Marcelo criou contra mim (por exemplo, um site horrível em 2015, com meu nome, fotos e endereço) foi usado para sua condenação.

É possível acreditar que a prisão de Marcelo intimide outros misóginos e racistas a não praticarem atos semelhantes?

Lola: Acredito que sim. Marcelo existia faz muito tempo na internet, era uma figurinha conhecida nos rincões. Então todos os channers (frequentadores de fóruns anônimos), todos os mascus, sabem muito bem quem ele é. E lógico que eles estão intimidados. Eles achavam que não daria em nada, que seria “feijoada”, um termo que eles usam sempre. A quadrilha que ele comandava, o Dogolachan, fórum que ele criou em 2013, quando saiu da prisão, migrou para a Deep Web pouco depois de Marcelo ser preso novamente, em maio de 2018. Está lá. Ainda há outros membros que devem ser presos e condenados. Mas creio que já ficou evidente que a vida que eles levam não compensa: Marcelo foi condenado a 41 anos, Emerson está foragido na Espanha, André se suicidou em junho (não sem antes matar Luciana, uma mulher que ele nunca havia visto na vida, em Penápolis, SP), e por aí vai. Desconheço o caso de algum misógino que tenha conquistado algo ou que seja feliz. O fracasso os define. A prova disso é que nem mesmo a vitória de um candidato dos sonhos deles os contenta. São eternos infelizes.

O período das eleições foi marcado por diversos casos de ataques racistas e misóginos por eleitores e apoiadores de Jair Bolsonaro . O que você espera para 2019, com a prisão do Marcelo, mas ao mesmo tempo, com uma onda fascista se espalhando no país?

Lola: Pois é, como eu disse, minha vida melhorou a partir de maio, quando um sujeito que vivia para arruinar os meus dias foi preso. Mas muitas ameaças e ataques voltaram no segundo semestre, junto com as eleições. Sem dúvida, a presença de um candidato abertamente misógino, racista e homofóbico fez com que muitos homens que pensam igual a ele saíssem do armário. Houve vários ataques no período eleitoral, inclusive algumas mortes. Ativistas e grupos historicamente perseguidos por fascistas ficamos com medo, compreensivelmente. Espero que aqueles que se dizem “homens de bem” entendam que a vitória de um presidente execrável, que é piada no mundo inteiro mas um pesadelo para nós, não anula a Constituição, não acaba com as leis, e que eles não ganharam um passe-livre para nos atacarem. O que me causa mais apreensão é que Bolsonaro cumpra sua promessa de liberar as armas. Se isso acontecer, teremos muitos mais casos hediondos de crimes de ódio, como o massacre de Realengo, em 2012. Viraremos um EUA no que eles têm de pior, que é um massacre por semana em alguma escola. Marcelo, que desfilava com uma camiseta pró-Bolsonaro até ser preso, sonhava com o fácil acesso a armas para poder cometer massacres. Ele jurava que iria cometer um atentado terrorista na UnB (onde estudou Letras Japonês por um semestre) há muito tempo, desde a época do Orkut.

Para a luta feminista, o que essa condenação representa? Como se sente agora para seguir em frente com seu trabalho e luta?

Lola: É uma vitória, um reconhecimento do meu trabalho, e me dá mais ânimo para seguir adiante, mesmo sabendo que viveremos um período horroroso e sem precedentes no Brasil. Toda feminista sabe o que é um mascu, um misógino, porque já foi atacada por eles. Saber que não estamos sozinhas, que a internet não é uma terra sem lei, nos dá força.

Que sentimento fica agora e o que você tem a dizer às mulheres que sofrem ataques misóginos na internet?

Lola: O sentimento é de vitória, de força, de garra, de quem não se deixa calar. Gostaria que as mulheres que sofram ataques sejam fortes também, que continuem lutando, que denunciem, que saibam que não estão sós. Em abril foi sancionada a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de misoginia na internet. É pouco, mas é um começo para que todos saibam que mulheres merecem ser respeitadas em todos os espaços.

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