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Um preto no topo trabalha em dobro

No Dia da Consciência Negra, niLL e Flip falam da dura batalha por espaço enfrentada pelos negros no hip hop nacional: "só de ser preto, a gente tem que ser pioneiro".

por Felipe Pessanha
20 Novembro 2017, 1:38pm

Montagem de palco no tributo à Sabotage em 2016, São Paulo. Foto: Rodrigo Zaim/R.U.A Foto Coletivo.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide o Brasil entre brancos, pretos, pardos, amarelos e indígenas. Essa é uma classificação que causa muita discussão. "Negro é uma identidade social, leva em conta uma visão política, a identidade de um povo, mais que a cor da pele", defende José Luis Petruccelli, pesquisador no IBGE. A União de Negros pela Igualdade (Unegro), defende que o termo adequado para tratar tanto pretos quanto pardos é negro. "As pessoas se identificam mais como negras do que pretas ou pardas", disse Alexandre Braga, diretor de comunicação da entidade, ao Terra.

Dia 20 de novembro é a data atribuída a morte de Zumbi, último líder do quilombo dos Palmares e símbolo da luta contra a escravidão, assassinado em 1695. A abolição da escravatura só veio oficialmente em 1888. O projeto de lei para criar o Dia da Consciência Negra na data da morte de Zumbi veio em 2003, e temos essa data comemorativa no país desde 2011. Em 2015, no Brasil, considerando todas as rendas, brancos ganhavam, em média, o dobro do que ganhavam negros: R$ 1.589 em comparação a R$ 898 por mês. De acordo com a projeção feita pela organização Oxfam Brasil ao UOL, no ritmo em que essa diferença diminuiu nos últimos 20 anos, apenas em 2089 chegaríamos a igualdade. É clara a importância de um dia da consciência negra num país onde a população negra ainda é sistematicamente dividida e prejudicada.

É impossível negar o quanto o talento negro esteve por trás de muitas das parcelas mais lucrativas e populares no indústria do entretenimento, e é impossível negar o quanto esse talento foi injustamente explorado e descartado. Só na música, vimos gêneros como o jazz e o blues se tornarem gradativamente mais brancos e elitistas. com o rock 'n' roll ou até mesmo o samba aqui no Brasil, o caminho não foi diferente. Em 2017, com a permanência do rap como uma das maiores forças culturais do mundo, permeando a moda e o cinema, lotando festivais e movimentando pequenas cenas locais, não é difícil ver a mesma história se repetindo.

"Eu tenho certeza que não é.” Resposta pontual e direta que eu recebi ao perguntar se quem ganha dinheiro com o rap no brasil são os negros. O rapper niLL, 24, de Jundiaí, líder da SoundFoodGang e o cara por trás do Regina , deixa claro sua opinião ao falar do assunto. "São poucos pretos que realmente se profissionalizaram no rap. Um fator muito marcante nisso é o da oportunidade. Eu não tenho um amigo negro que tenha uma vida tranquila que permita ele investir o seu tempo todo em música, saca? Amigo branco nessas condições eu já tenho, talvez pelo fato dos coroas deles terem tido oportunidades diferentes na juventude. Puderam estudar ao invés de perder tempo trabalhando em alguma loja ou subindo em telhados."

Mas a questão não é apenas social, como o próprio rapper aponta. "Uma vez eu ouvi: só de ser preto, a gente tem que ser pioneiro se quiser ser levado a sério. Em alguma coisa você tem que ser pioneiro." Enquanto muitos artistas negros lutam pra ganhar espaço e atenção sendo originais num ramo cada vez mais concorrido, um artista branco pode fazer algo que já vimos antes, e ainda assim ter mais atenção. A questão nem sempre é a música.

"É um lance de estética, primeiro impacto, tá ligado? Se você pegar um branco, sem forçar nada a aparência dele, ele já é mais vendido que um negro se você deixar ele estiloso. Um negro pra dar certo fazendo uma coisa que já tava dando certo, na gringa por exemplo, precisa ser trajado igual um trapstar. Com os brancos já não tem muito isso. A aceitação, mano, pra esse padrão aí de… beleza, vamos dizer assim, é mais comum”, afirmou.

O rap é justamente uma das formas que encontramos de sermos ouvidos, mas ainda temos que batalhar por espaço dentro do gênero. "Existe um discurso de que querem mudar isso, mas o caminho pra mudar não é só falar. É importante também tentar fazer diferente pra chamar atenção. Se você chama atenção você pode levantar uma bandeira, mas se ninguém olha pra você, você vai levantar bandeira pra quê?”, completou niLL.

A tarefa do artista negro é fazer diferente, chamar a atenção, ser pioneiro, trabalhar em dobro. O papel do público é, ao menos, reconhecer o esforço. Do que adianta levantar uma bandeira se ninguém olha pra você? Como fãs, devemos olhar. “Os pretos do rap tem que lutar pra manter os pretos que estão no topo e pra levantar os que estão no caminho. Não jogar pedra em quem tá lá." Foi o que me disse Flip, rapper paulistano, lançou esse ano o EP Psicologia Reversa e é um dos líderes do coletivo DamassaClan.

O grupo já enfrentou algumas críticas por sua formação, mas Flip alerta: "Quando me perguntam o quê eu acho dessas coisas, sendo que no DMC não tem 'quase nenhum negro', é nesse 'quase nenhum negro' que a gente vê o quanto esse problema tá enraizado. Nós somos quase 40 caras, eu sou um dos sete líderes, e a gente sabe quem tá lá — quem é preto, quem é branco, quem é índio. Os pretinhos não tão sendo vistos. meus amigos pretos e meus amigos brancos estão fazendo a mesma coisa, no mesmo clã. O que vende mais sempre vai ser o branco, né? O modelo padrão Globo sempre vai vender mais."

"Me falam que meu lugar não é no DMC porque eles são majoritariamente brancos", comentou o MC sobre as críticas. "Representatividade é isso. Sou eu, representando minha raça. No Brasil, tem muito lugar que a maioria é branco. Instituições, escolas, faculdades. Quando um preto se destaca numa posição dessas, muitas pessoas vão enaltecer, apoiar, mas algumas falam que 'não, não é seu lugar aí'. Você entende o problema que é um preto estar num clã que tá liderando a cena do rap nacional e receber uma intimação dessas?"

O problema da falta de espaço para os negros no rap brasileiro, se assemelha ridiculamente ao problema da falta de espaço para os negros em qualquer lugar. É absurdo pensar que ainda hoje estejamos discutindo onde é o lugar de um preto. A resposta não poderia ser diferente, faço minhas as palavras de Flip: "O preto tem que estar em todo lugar. Principalmente no Brasil, lugar de preto é em todo lugar. O lugar do preto vai ser pra sempre na favela, no underground? Não. Lugar de preto é no mainstream. É onde ele quiser estar."

É necessário, como membro da sociedade e principalmente como negro, estar consciente de que nosso lugar é onde quisermos estar. Isso é parte do que significa consciência negra. Nosso país ainda é violentamente desigual. dificilmente temos as mesmas oportunidades. A música é uma das poucas portas que temos para nos sobressairmos, mas somos profundamente explorados. É um problema que artistas brancos sejam protagonistas de movimentos majoritariamente negros. Com o blues, o jazz, o rock, o processo de embranquecimento foi extremamente rápido. Com o rap, temos por volta de 40 anos de história e os negros ainda conseguem se tornar importantes e conhecidos no gênero, mas quanto tempo isso vai durar se continuarmos recompensando artistas brancos enquanto chamamos os negros de “vendidos”?

Felipe Pessanha é artista plástico, rapper e um dos fundadores do coletivo Tumor.

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