Publicidade
Cultura

O Mundo seria muito pior sem ecstasy

Alexander "Sasha" Shulgin foi o homem que descobriu como fazer a ligação directa às nossas almas. Ele deu ao Mundo a droga que o iria mudar, o MDMA.

Por Clive Martin
12 Maio 2015, 8:46am

Foto cortesia do autor.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Alexander "Sasha" Shulgin é alguém que, mais do que qualquer outra pessoa, talvez possa alegar ter influenciado profundamente a cultura jovem global nos últimos 30 anos. Não era um DJ, um estilista, um cantor, uma estrela desportiva, um escritor, ou um político. Era um cientista. Um membro estimado e altamente respeitado da sociedade, com uma profissão normalmente associada a longas barbas, falta de higiene e solidão.

Um homem que cumpriu com as suas obrigações em Harvard e na Dow e não no Paradise Garage, ou na Factory. Um homem com um doutoramento em Bioquímica, que escreveu para o Jornal de Química Orgânica, em vez de escrever para a The Face.Um homem cujo primeiro grande avanço científico foi o desenvolvimento de um pesticida.

No entanto, Shulgin foi também o homem que descobriu como fazer a ligação directa às nossas almas. Ele deu a conhecer ao Mundo a droga que o iria mudar: o MDMA. Esta droga, na verdade, já existia, mas não estava na agenda de ninguém até Shulgin apresentar a sua síntese a um grupo de intelectuais da Costa Oeste dos Estados Unidos, no final dos anos 70. Seja em forma de pastilha ou em pó, o MDMA passou a inspirar o amor e a lenda, mapeando caminhos bem viajados até ao abandono total, ao zero absoluto, à euforia em massa e ao pânico moral.

O jovem Sasha Shulgin no seu laboratório (Fotografia do Flickr Lorenzo Tlacaelel)

Sasha morreu aos 88 anos, depois de uma vida a inebriar-se com a sua própria invenção. Um homem pensativo, provocante, com um forte interesse na humanidade e nas coisas que ela esconde, era mais do que um típico cosmonauta de cabeça no ar. Era um defensor, um arquitecto, alguém cujo trabalho se concentrou na utilidade de uma droga a longo prazo, em vez da excitação rápida que esta poderia proporcionar.

Por isso, ficará na história da ciência como uma lenda. Mas, enquanto o seu legado como cientista irá certamente crescer com o tempo, para mim, ele vai estar sempre mais próximo do Isaac Newton que tentou alcançar os lasers, em vez daquele que se sentava debaixo das árvores. É muito simples: Shulgin e a sua penicilina delirante mudaram a cultura jovem para sempre, bem como a minha vida e a de tantas outras pessoas.

O autor, do lado direito, com a obrigatória garrafa de água

Escrevi sobre a primeira pastilha que experimentei, antes mesmo de ser um evento sísmico na minha vida, como tenho a certeza de que foi para a maioria. Mas, imagina o que deve ter sido a primeira pastilha do Mundo e, depois, imagina o que seria do Mundo se Shulgin nunca tivesse visto as suas ideias realizadas.

Todos aqueles momentos em que sentiste os olhos na parte de trás da cabeça - aqueles formigueiros, os primeiros beijos húmidos que se sentem como rajadas de ar gelado para a alma - todos aqueles estados de êxtase e sexualidade, aquele medo que te dá a volta ao estômago e todas as conversas confusas com turistas italianos nas zonas de fumadores, nunca teriam acontecido. Sem essa estranha, inexplicável e tremenda emoção que esta super pastilha de Shulgin te pode dar, a nossa existência colectiva seria um lugar muito menos profundo.

E sem esses momentos, esse sentimento, nunca teríamos nada que se aproximasse da cultura rave. Teríamos raves, certamente, e tanto o house como o techno podiam ter acontecido sem ecstasy, mas nunca teriam o mesmo impacto sobre a vida das pessoas sem a ajuda da droga do amor. A música simplesmente não teria o mesmo poder extraterrestre sem o ecstasy. Os Kraftwerk podem ter trazido os sintetizadores, o Jesse Saunders pode ter trazido a batida, mas Sasha Shulgin trouxe o sentimento.


Vê: "O homem que deu vida ao Ecstasy num tubo de ensaio"


O ecstasy varreu lentamente o Planeta; sofreu mutações, multiplicou-se e propagou-se como um vírus de fúria positiva, de uma forma que nenhum cientista conseguiu prever. Não foi preciso muito tempo para chegarmos ao futuro com a música digital e com as drogas feitas pelo homem a tornarem-se as forças motrizes da cultura jovem global. Praticamente todos os ocidentais nascidos após Shulgin encontraram e foram afectados de alguma forma pela droga a que hoje chamamos ecstasy .

Alguns experimentaram e outros tiveram medo. Alguns, sob o seu efeito, tiveram os melhores momentos das suas vidas e, infelizmente, alguns morreram ao meter versões de merda fabricadas por sacanas muito menos escrupulosos do que Shulgin. Alguns guardaram-nas quando saíram da universidade; outros voltaram a dar uso às mandíbulas 25 anos após a primeira vez. Um gajo chegou a meter uma pastilha por dia durante nove anos, chegando a um máximo de cerca de 25 por dia (escusado será dizer que, provavelmente, não foi das melhores ideias).

Alguns comentários deixados em músicas dos anos 90 no YouTube (do artigo "Rave and Hardcore YouTube Comments Will Restore Your Faith in Humanity").

O ecstasy e a música por ele inspirada, ajudaram a mudar o Mundo, mas, mais do que tudo isso, mudou a vida de muita gente. Para muitos foi a droga que levou a Grã-Bretanha a sair da escuridão dos anos 80. Quando falei com Terry Farley, o lendário DJ, promotor, produtor e editor por trás do último ano dos Boy's Own, ele disse-me que o ecstasy foi o catalisador da mudança, numa sociedade que estava desesperadamente a precisar de uma.

"Eu acho que, basicamente, ajudou a amenizar quase tudo", explica. E acresenta: "Se estavas alterado e com um comportamento ruidoso, as pessoas pensavam que eras muito estranho. Ser simpático, de repente, tornou-se atraente. E isso não acontecia só porque estávamos sob o efeito de drogas e com o amor em alta, as pessoas estavam cientes do bem estar de toda a gente. As pessoas pensavam mesmo que tudo ia mudar. Passados seis meses, toda a gente que eu conhecia tinha deixado o emprego e tinha ido fazer alguma coisa criativa".

O ecstasy deixava as pessoas mais felizes. Sim, as ressacas eram uma merda. Mas trocarias a tua pior trip pela mais enjoada? Eu penso que provavelmente sei a resposta a esta questão (mesmo que pessoalmente nunca tenha sido capaz de esquecer o momento em que o meu gato com 17 anos morreu à porta do meu quarto depois de uma grande noite no Scala). É possível que algumas pessoas tenham abusado, talvez a popularidade crescente tenha causado algumas tragédias, mas que outra droga nos levou à compreensão cultural que agora temos do Mundo?

A revolução dos ácidos dos anos 60 foi importante mas, hoje em dia, o ácido é somente uma série de comparações banais, de piadas sobre elefantes cor-de-rosas e de retro psych-rock. Entretanto, o ecstasy continua a moldar a nossa visão do Mundo e isto pode ser provado pela reputação da sua irmã mais nova, a promíscua "Molly". A música electrónica continua a mostrar o seu poder através de uma presença constante, enquanto as guitarradas apodrecem numa sepultura arrogante. De todas as formas, as melhores bandas de rock - Oasis, Stone Roses, Happy Mondays, etc - adoravam pastilhas.

Pessoalmente, acho que o ecstasy me ajudou a ser mais romântico. Fez com que eu visse o Mundo de uma forma mais grandiosa, onde as coisas que aconteciam parecessem mais importantes, com mais significado para mim. Provavelmente acho que muita gente concordaria com isto. Não estou a dizer que me fez ser uma melhor pessoa, mas ajudou-me a compreender o que é ser uma pessoa melhor.

Por isso, e por tudo o resto de maravilhoso que o ecstasy nos deu, devíamos recordar-nos que Sasha Shulgin não era somente um grande cientista, mas um visionário, um influenciador, um herói, talvez. Porque, sem ele, não teríamos as primeiras raves, os primeiros beijos, Human Traffic, Future, The Hacienda, "Trainspotting", "Voodoo Ray", "Blinded by the Lights", o vídeo Doncaster Warehouse, Deadmau5 (gostes ou não), ou "Mr. Vain". Ibiza continuaria a ser uma ilha simpática no Mediterrâneo, mas muitas mulheres, maridos, crianças e melhores amigos teriam desaparecido das nossas vidas.

Talvez o testemunho mais impressionante é o de que ninguém parece arrepender-se do tempo que passou sob o efeito de ecstasy. Quaisquer que sejam os custos, as lembranças dessa primeira/melhor pastilha ainda estão imbuídas com aquele tipo de romance, paixão e fantasia que raramente se encontram na nossa vida. É, como diz o cliché, a droga que faz os hooligans abraçarem-se e, por isso mesmo, terá sempre um lugar especial na nossa cultura.

Talvez o legado de Shulgin tenha sido, para ele, um pouco agridoce. Essencialmente, ele queria que a droga fosse usada para fins terapêuticos e não para fins recreativos e, mesmo parecendo apreciar o reconhecimento e os elogios recebidos por culpa da sua invenção, a sua ideia de que o MDMA fosse usado da mesma maneira que as ISRS nunca se concretizou. Pergunto-me o que pensaria ele se tivesse tido a oportunidade de ver um grupo de miúdos da classe média a arreganhar as mandíbulas e a ter as melhores noites das suas vidas sob o efeito de ecstasy, quando na realidade a sua intenção era de que fosse usado pelas pessoas que estivessem a sofrer as piores noites das suas vidas. Qual seria a opinião de Shulgin sobre isto?

Mas, mesmo que o seu legado tenha sido acidental, é um legado que não será facilmente esquecido. O nome "Alexander Theodore Shulgin" pode não ser o primeiro a vir à nossa cabeça quando estamos a esfregar a cara, a ranger os dentes e a bombardear os amantes, amigos e família com mensagens estranhas, mas talvez devesse ser. Porque, para mim, Shulgin - goste-se ou não - será sempre o "Gurnfather".


Segue Clive no Twitter.

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.

Tagged:
ecstasy
MDMA
rave
romance
música
inglaterra
Cultura
laboratorio
cultura popular
trip
Droga
alma
Vice Blog
Sociedade
cultura jovem
Sasha
rave culture
cientistas
Alex Shulgin
Entretenimento
Destaques