O que (re)aprendi sobre diversidade e tolerância com alguns dos maiores fãs da Eurovisão
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Festival Eurovisão

O que (re)aprendi sobre diversidade e tolerância com alguns dos maiores fãs da Eurovisão

Da Finlândia, a França, de Israel à Suécia, ao Reino Unido e a Portugal, tentámos perceber o que é que jovens fãs vêem no Festival, quais são as suas músicas favoritas de sempre e o que retiram do lema do evento, "All Aboard".
12.5.18

Azeite puro dizem uns, maior espectáculo de televisão do Mundo defendem alguns, palco de inclusão, tolerância, integração e emancipação garantem muitos outros. De 1956 a 2018 o Festival Eurovisão já foi muitas coisas, boas e menos boas, mas, concedamos-lhe mais ou menos importância, há uma coisa que é impossível de negar: ao longo destes mais de 60 anos, da Eurovisão saíram dezenas de músicas que fazem parte da base estrutural do cancioneiro pop europeu (e mundial, vá).

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Canções do caraças, ganhadoras ou não (podes ver todos os vencedores no vídeo abaixo, mas ficam aqui quatro exemplos mais óbvios entre os anos 60 e os 70: "Poupée de Cire, Poupée de Son", de France Gall, em 1965, "Puppet on a String", de Sandie Shaw", em 1967, "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho, em 1974, e "Waterloo", dos ABBA, também em 1974), que saltaram do palco do concurso para o imaginário popular e influenciaram gerações seguintes.

Para quem nasceu nos anos 70 e, portanto, cresceu nos anos 80 e chegou à idade adulta na primeira metade dos 90 (sim, eu!), o Festival da Eurovisão é quase sempre uma cena que curtias quando eras puto, de que te começaste a desligar em meados dos 80 e passaste a detestar a partir de 1989… com os Da Vinci.

Para as gerações que vieram depois, esse "problema" musical da Eurovisão não se coloca - como em muitas outras coisas, aliás. Pelo contrário. Diversidade, hedonismo, abertura, inclusão, lantejoulas, fogo de artifício, azeite, ou o oposto de tudo isto, como mostrou a canção de Salvador e Luísa Sobral no ano passado, são, precisamente, as condições essenciais para amarem o evento. Fervorosamente. E é por isso que, nos últimos quase 20 anos - ou seja no século XXI -, a Eurovisão conseguiu criar novos fãs, renovar-se, experimentar e, volta e meia, dar-nos autênticas pérolas pop que vão viver muito para lá dos palcos vibrantes de uma das maiores transmissões televisivas do Planeta.

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Com Portugal a receber pela primeira vez o evento, estive à porta da Altice Arena horas antes da primeira semi-final, à procura de die hard fans. Não necessariamente daqueles com as melhores pinturas faciais, ou fatiotas mais extravagantes, mas daqueles que sabem bem porque é que são fãs e para quem a música é importante, mas o ambiente de abertura e inclusão não o é menos. E foi isso que aprendi, que essa coisa dos guilty pleasures é uma treta e que se gostas gostas, se não gostas não gostas. É assim, não é bem aprender, só que nos dias que correm, de polarizações extremas e estupidez a escorrer-nos dos ecrãs como ranho de um nariz constipado, é fácil um gajo esquecer-se. Aqui, não é preciso fazeres de conta, só porque é a música do teu país, ou porque os teus amigos dizem que aquilo é que é bom, ou mau, ou o raio que os parta. Podes ser francês, vestir uma t-shirt da Suíça e quereres que Israel ganhe. A Eurovisão não é futebol, nem política. É só a Eurovisão.

Camille, 28 anos, França

VICE: Então Camille, vens de França, com t-shirt da Suíça e bandeira de Israel… o que é que se passa?

Camille: Bom, isto não é propriamente futebol (risos).

Tens razão. O que é que a Eurovisão tem de tão especial que fez com que viesses a Portugal?

Sou um grande fã desde há 15 anos e como Portugal não é assim tão longe de França e tinha férias agora, decidi vir toda a semana e assistir aos três eventos [duas semi-finais e final] ao vivo.

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Grande investimento, não?

Sim, enorme. (risos)

E vieste sozinho ou com amigos?

Vim sozinho.

Qual é a tua canção favorita de sempre da Eurovisão?

Sem dúvida nenhuma, a da Finlândia de 2013, “Marry Me”, de Krista.

Ficaste surpreendido com a vitória da canção portuguesa no ano passado?

Fiquei bastante, até porque nunca acompanho as tendências das apostas e essas coisas, por isso não sabia quem eram os favoritos e nunca esperei que Portugal vencesse.

Mas, gostaste da música do Salvador Sobral?

Não, não gostei nada (risos).

É a primeira vez que assistes a uma final?

Não, é a terceira. Estive em Dusseldorf, em 2011, e em Viena, em 2015. Mas é a primeira vez que venho a Portugal e tenho-te a dizer que não conhecia nada do País, para além do Ronaldo e estou a adorar.

E quem é que vai ganhar a Eurovisão este ano?

Penso e espero que seja Israel. É a minha canção favorita e sei que é a canção favorita de muita gente

Minna, 29 anos, Finlândia

VICE: Olá Minna. Conta-me: o que é que te fez vir da Finlândia para Portugal só para assistir ao Festival da Eurovisão?

Minna: Sou uma grande fã desde há vários anos e acompanho sempre as provas de selecção nacionais e tudo. Infelizmente só comecei a gostar depois de uma final ter sido na Finlândia, portanto parece-me que nunca irei ter a oportunidade de ver isto no meu país (risos).

Nunca se sabe, nós também pensámos isso durante 60 anos…

É verdade (risos).

Qual é a tua canção favorita de todos os tempos?

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Isto vai ser uma resposta estranha, mas é “So Lucky”, dos Zdob si Zdub, da Moldavia, em 2011.

Surpreendeu-te a vitória de Portugal em 2017?

Surpreendeu-me um pouco, mas não demasiado. Desde cedo senti que Portugal estava digamos que no caminho para a vitória.

E gostaste da música?

Gostei e estou muito contente que Portugal tenha ganho, porque agora estou aqui nesta cidade incrível, uma semana inteira a ver toda a Eurovisão ao vivo pela primeira vez.

Qual é a tua canção preferida este ano?

É a resposta cliché finlandesa, mas gosto da Hungria… porque é uma música mais metaleira (risos).

Achas que é importante que a Eurovisão tenha esta abertura a vários estilos e que, num âmbito mais geral, passe esta mensagem de inclusão espelhada no slogan “All Aboard”

Definitivamente. É super importante e uma das coisas que mais gosto na Eurovisão é que podemos pôr de lado a política durante um bocado. É claro que há canções ligeiramente políticas na competição deste ano, como as da França e Itália, obviamente, mas, por exemplo, na minha família sempre fomos bastante motivados politicamente, mas com a Eurovisão podemos focar-nos simplesmente no facto de que é música, são actuações, não é sobre países a quererem ter razão, é mais sobre esses países a mostrarem ao Mundo, “olhem isto é que nós somos”.

Doron, 32 anos, Israel e Jérôme, 30 anos, França

Doron, à esquerda, Jérôme, à direita

VICE: Vocês fazem parte de um grupo grande, pelo que vejo. O que é que vos atrai tanto na Eurovisão?

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Jérôme: Tantas coisas… o ambiente, o espectáculo, as canções, os artistas e o facto de estarmos todos juntos, com todas as nossas diferenças. Para mim, é fantástico.

Doron: Para mim é igual. O ambiente é incrível e o facto de este ano ser em Lisboa torna tudo ainda melhor.

O lema deste ano é “All Aboard”. É importante que a Eurovisão continue a ser este espaço de inclusão que sempre foi, mas que nos últimos anos parece ter vindo a reforçar cada vez mais?

Jérôme: É muito muito importante. E parece-me que o lema representa muito bem Portugal, neste caso.

Doron: Concordo. Há algo de muito optimista no Festival da Eurovisão. Há muita alegria, muita vontade das pessoas em estarem juntas.

Vamos à “vaca fria”. Canções favoritas de sempre.

Doron: De sempre? Uau…(risos). Essa não é fácil…

Jérôme: Nada fácil, mas bem, se calhar posso dizer “Euphoria” [Suécia, 2012]

Doron: A sério? Ok, a Suécia é um bom país… mas eu fico-me mesmo por Israel, “Diva”, Dana International, 1998.

Jérôme: Há 20 anos… (suspiros)

É a primeira vez que assistem a uma final ao vivo?

Doron: Para mim é a primeira vez. Quando foi em Israel eu era ainda muito novo.

Jérôme: Para mim é a segunda. A primeira foi em Dusseldorf, em 2011. Mas, aqui em Lisboa está a ser fantástico.

Voltemos às canções. Este ano, quem ganha?

Doron: Israel (risos). Também gosto de Chipre, mas a mensagem que a Netta [concorrente israelita] traz é muito especial e importante. Adorava vê-la ganhar.

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Jérôme: O meu top 3 é: França, Israel e Chipre, por esta ordem.

Surpreendeu-vos a vitória de Portugal no ano passado?

Jérôme: Nem por isso. A canção era muito boa, apesar de não ser bem no formato tradicional Eurovisão e ser em português. E isso foi fantástico, porque provou que uma canção pode ganhar seja qual for a língua.

Doron: Sim, também gostei muito. Tinha outra favoritas, mas “Amar pelos Dois” tinha algo de especial, uma mensagem muito bonita. Foi excepcional, portanto não me surpreendeu que tivesse ganho.

Elim, 21 anos, Suécia

VICE: Conta-me tudo, do que é que gostas tanto na Eurovisão que fez com que viesses da Suécia de propósito?

Elim: Não sei… tudo (risos). Sou uma fã desde criança.

É a primeira vez que assistes a uma final?

Não, é a quarta! Estive em Oslo, Malmo e Estocolmo.

Bom currículo! E qual é a tua canção favorita de sempre?

Provavelmente a de Israel em 2010, “Milim”, de Harel Skaat.

Ficaste surpreendida com a vitória portuguesa em 2017?

Não. Nada. Embora a canção não seja propriamente “my cup of tea” (risos). Mas viu-se logo que era a favorita de muita gente.

E este ano, em quem é que apostas?

Na República Checa. Mas acho que não têm hipótese de ganhar (risos).

Alex, 23 anos, Harry, 24 anos e Gareth, 38 anos, Reino Unido

Alex, à esquerda, Harry, ao centro e Gareth, à direita

VICE: Meus caros, tirando o facto de ser o último ano em que podem viajar sem grandes burocracias, o que é que fez com que viessem a Portugal asistir ao festival da Eurovisão

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Gareth: Acima de tudo e acho que falo pelos três, a diversão, o facto de poderes estar com gente de várias partes do Mundo neste ambiente e claro pelas canções, por esta mistura de canções que dificilmente ouvirias noutro sítio. Em resumo para nos divertirmos entre amigos.

Vamos lá testar a vossa boa vontade enquanto cidadãos de um país que produz grande parte da melhor música do Mundo há décadas. Quais são os vosso temas favoritos de sempre da Eurovisão?

Alex: “Euphoria”, Suécia.

Gareth: Provavelmente, “La det swinge”, dos noruegueses Bobbysocks!, dos anos 80 [1985, mais concretamente].

Harry: “Save Your Kisses For Me”, dos Brotherhood of Man, que ganhou pelo Reino Unido [em 1976].

E este ano, quem é que leva a taça?

Alex: Israel.

Gareth: Eu torço pela Bielorrúsia.

Harry: Eu, apesar de estar a apoiar a “equipa da casa”, creio que a minha favorita é a Dinamarca.

Ok, obrigado!

Gareth: Espera, deixa-me só dizer-te que Portugal é incrível, toda a gente é tremendamente simpática. Antes de vir, falei com uns amigos que tinham estado em Paris e em Lisboa no Verão e que me disseram “Lisboa é o que achámos que Paris ia ser”. É a melhor cidade europeia onde já estive.

Harry: É uma cidade linda. Adorava viver cá! (Risos)

Já agora, o que é que acham do lema “All Aboard” deste ano?

Gareth: Acho que não podia ser mais certeiro. Numa altura em que a Europa tem muita gente a tentar enfraquecer-nos colectivamente e a menosprezar o quão amigáveis somos. Pelo que ter eventos como este, em que toda a gente é bem-vinda, não podiam ser mais relevantes. Precisamos mais de “all aboard” e menos de gente a tentar separar-nos.

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Ana Luísa Silva, 25 anos, Portugal

VICE: Olá Ana, estava a ouvir-te falar com essa rapaziada irlandesa e já percebi que és do Porto. O que é que a Eurovisão tem de especial para teres vindo assistir aos espectáculos ao vivo?

Ana: Sou muito fã da Eurovisão e demorou tanto a ganharmos e ganhámos com tanto mérito que não podia deixar de vir… mesmo a ter de faltar às aulas na faculdade e a ter de vir sozinha (risos). Se não viesse ia arrepender-me para o resto da vida.

Vens os dias todos?

Só tenho bilhete para hoje [primeira semi-final], mas estou a pensar seriamente se não fico mais dias, porque estou a adorar o ambiente e é algo que vale mesmo a pena e não sabemos se voltamos a ter de esperar mais 54 anos para ganhar (risos).

Qual é a tua canção favorita de sempre da Eurovisão?

Há uma muito engraçada, que é uma música turca “Dum Tek Tek” [de Hadise, 2009]. Mas, também gosto muito da música da Lúcia Moniz [“O Meu Coração Não Tem Cor”, 1996] e dos Da Vinci, com “Conquistador” [de 1989].

Ficaste surpreendida com a vitória do Salvador no ano passado?

Estava com um feeling muito forte que íamos ganhar. Portanto, não foi uma surpresa total.

E este ano, qual é a tua preferida?

Ainda não tenho. Aliás, o que gostava muito muito de ver era o Salvador Sobral a actuar com o Caetano Veloso na final…

Achas que a canção portuguesa tem alguma hipótese?

Bem, já não estou com o mesmo feeling do ano passado (risos). Mas, a esperança é a última morrer.

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Achas importante que a Eurovisão mantenha esta aura de abertura a todos, bem explicita no lema “All Aboard”?

Cada vez mais. Por exemplo, se eu agora fosse trabalhar lá para fora, gostava que as pessoas me acolhessem bem, que me pudesse dar com toda a gente, fossem turcos, alemães, austríacos… acho que é uma mensagem muito importante.

Kristoffer, 38 anos, Finlândia

VICE: Parece que a Finlândia tem uma grande representação de fãs neste Eurovisão em Portugal. Porque é que vieste?

Kristoffer: Bem, para além de ser um grande fã, vim apoiar a minha grande amiga Saara [concorrente finlandesa]. Há muitos anos que trabalho com ela e é uma das minhas melhores amigas e quero que ela sinta que os amigos estão cá a apoiá-la. Sempre.

Qual é a tua canção favorita da Eurovisão, de sempre?

Vou sempre mudando um bocadinho, sabes? Mas, tenho de dizer “Diva”, de Dana International. Normalmente até gosto de canções mais lentas, mas esse foi um momento histórico e surreal. Toda a actuação. Mudou muita coisa na Eurovisão, mas mesmo no Mundo. Foi uma demonstração de que podes mesmo ser quem és, ainda que na altura [1998] tenha chocado muita gente. Mas, também não podemos esquecer os ABBA

Surpreendeu-te a vitória portuguesa em 2017?

Foi surpreendente, mas, ao mesmo tempo, penso que foi uma chamada de atenção para toda a gente, no sentido de que não nos podemos esquecer que a coisa mais importante é a música e a forma como a música nos liga todos. Mesmo que não falemos a mesma língua, a música e a beleza da música une-nos. Não é preciso sempre um grande espectáculo, fogo de artifício… por vezes basta uma pessoa e uma guitarra, ou um piano em cima do palco. Creio que foi essa a mensagem.

E este ano tens um favorito?

Meu Deus, tenho vários… Chipre, Estónia, Israel, claro que a Saara (risos), Irlanda… é difícil. (Risos)


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