Ambiente

Greta Thunberg: conhece a miúda que mudou o Mundo

A determinação de uma rapariga para tentar deter a maior ameaça que a humanidade já enfrentou desencadeou um movimento mundial de greves estudantis. Greta Thunberg, de 16 anos, é a voz de uma geração.

Por Clementine de Pressigny; fotos por Harley Weir
24 Abril 2019, 3:12pm

Fotografias por Harley Weir

Este artigo foi originalmente publicado na edição "The Voice of a Generation Issue" da nossa revista i-D.

O filósofo Timothy Morton cunhou o termo "hiperobjectos" para se referir às coisas que são parte das nossas vidas; coisas das que fazemos parte, mas que, ainda assim, nos custa entender plenamente. O aquecimento global é um hiperobjecto: é um dia muito quente em Fevereiro, em Londres; é um ciclone em Moçambique; é o facto de que as nossas emissões de carbono pioraram nos últimos 25 anos. Hiperobjectos, como as alterações climáticas, desafiam a nossa compreensão do que é uma "coisa" no Mundo, podem alterar a nossa compreensão do lugar da humanidade no Planeta. Mas, não são abstractos, vagos ou distantes. Estão aqui e nós estamos a viver através deles.

Na manhã de 22 de Março último, em Estocolmo, na semana a seguir à greve estudantil global na qual mais de 1,4 milhões de estudantes de todo o Mundo abandonaram a escola durante um dia para exigir que o seu futuro e o do Planeta sejam protegidos. Foi uma das datas mais importantes para o activismo climático e foi desencadeada por uma miúda.


Vê: "Este rapaz de 15 anos está a processar o Governo americano por causa das alterações climáticas"


Num dia de céu claro à porta do Riksdagshuset, o edifício do parlamento sueco, um grupo de cerca de 15 pessoas - alguns adultos, algumas crianças - reúne-se em pequenos grupos ao lado do canal de água Lilla Värtan. Na sexta-feira anterior, 15 mil jovens reuniram-se nesta mesma pequena parte da cidade. Antes de chegar junto destas pessoas, a primeira coisa que vejo é a bandeira de Greta Thunberg encostada a uma árvore, imediatamente reconhecível por qualquer um que tenha seguido a greve desencadeada pela rapariga de 16 anos. Um pedaço de madeira pintado de branco, com letras pretas que dizem "Skolstrejk För Klimatet" [Greve de Escola pelo Meio Ambiente]. Greta mudou a placa original há algum tempo; ficou desfeita depois de sobreviver aos meses de Inverno.

Encostada ao muro de cimento que rodeia o Lilla Värtan está a própria Greta, vestida com o seu já lendário casaco violeta, calças de neve em rosa brilhante e botas de borracha. O seu guarda-roupa é limitado; ela não quer coisas novas. Pediu aos pais que não lhe comprassem presentes de Natal nem de aniversário. Greta parece pequena para a idade que tem, com um rosto angelical, mas severo. Está acompanhada por duas pessoas: Helena, uma voluntária que se dedica à gestão dos inúmeros pedidos de entrevistas que Greta recebe e um homem alto que prefere não ser mencionado, que é também um voluntário às sextas-feiras para a apoiar. Ele afasta-a um pouco da multidão para que não pressionem demasiado a pequena activista ambiental.

Toda a gente quer falar com Greta, toda a gente quer uma foto com ela. O homem que a acompanha conheceu-a durante a sua primeira greve, num dia de Agosto de 2018, quando Greta se recusou a ir à escola nas três semanas antes das eleições suecas, totalmente desanimada com as alterações climáticas e a rejeição daqueles com poder, mas que permanecem de braços cruzados. Inspirou-se nos alunos da Marjory Stoneman Douglas High School nos Estados Unidos, que deixaram as aulas em protesto contra as leis de armas de fogo depois de terem sido mortas 17 crianças. Naquela época não havia manifestações. "Toda a gente me ignorou, ninguém olhou para mim", diz Greta sobre as primeiras semanas.

O seu pai, Svante, aproxima-se e Greta, sem sorrir, pergunta-lhe o que é que ele está ali a fazer. É a reacção típica de um adolescente quando um pai se intromete nas suas coisas. Mas, também poderia ser por precaução: aqueles que querem prejudicar o movimento tentaram desacreditar Greta, dizendo que ela é uma marioneta dos seus pais ou de alguma organização com interesses por detrás dela. "As pessoas perguntam-me sempre quem comanda a Greta", diz Helena. E acrescenta: "Ninguém comanda a Greta, ela trata de tudo sozinha".

greta thunberg harley weir

"Do que precisamos desesperadamente é de um nível adequado de choque e ansiedade em relação a um trauma ecológico específico; aliás, do trauma ecológico da nossa era, o que define o Antropoceno como tal", escreve Timothy Morton no seu livro Hyperobjects: Philosophy and Ecology After the End of the World. A profunda sensação de choque que Morton questiona é o que Greta sentiu ainda muito jovem, depois de aprender mais na escola sobre as alterações climáticas.

"Quando tinha oito ou nove anos, o professor contou-nos sobre os efeitos dos gases de efeito estufa e as camadas de gelo que se derretem", explica Greta. "Mostrou-nos fotografias de plásticos no oceano, ursos polares famintos, o desmatamento das florestas. Não conseguia parar de pensar em tudo isso. Ficou preso na minha cabeça. Pensei que era muito triste, porque ninguém parecia importar-se com o que estava a acontecer. Não conseguia entender como as pessoas podiam, por um lado, dizer que se importavam com as alterações climáticas e que era um tema muito importante, mas depois não fazerem nada a respeito", acrescenta a activista nomeada para o Prémio Nobel da Paz.

Greta foi diagnosticada com síndroma de Asperger quando era criança e atribui ao Asperger a razão que a leva a mover-se de maneira diferente da maioria de nós. Como Greta explicou na sua palestra TED no ano passado, para ela, como para a maioria das pessoas com esse síndroma, as coisas são ou brancas ou pretas. O hiperobjecto é simples para ela: esta é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou e nós temos que agir em conformidade. "Se a tua casa estiver a arder, não te sentas a falar sobre o quão bom será quando a reconstruires", disse. E realçou: "Quando a casa está a arder, tu tentas proteger-te, certificar-te de que todos estão bem e chamas os bombeiros. Essa é a mentalidade que devíamos ter".

greta thunberg harley weir

Depois de perceber os efeitos que o aquecimento global terá sobre nós, a vida de Greta mudou. "Fiquei deprimida, por muitas razões, mas uma das principais foi por causa da crise climática e do meio ambiente, caí em depressão quando tinha 11 anos. Parei de falar, parei de comer e parei de ir à escola. Parei de me divertir, parei de sorrir".

Embora Greta não pudesse ir à escola nessa época, algo de bom resultou do seu tempo livre: conseguiu criar uma mudança em sua casa. Na altura, os seus pais tinham pouco conhecimento da crise. "Quando comecei a ficar sempre em casa, os meus pais tiveram também que ficar em casa a cuidar de mim e foi quando começámos a falar. Contei-lhes as minhas preocupações sobre o clima e o ambiente e, claro, eles agiram como quaisquer outros pais... Deram-me festinhas na cabeça e disseram que tudo iria ficar bem. Mas, depois de um tempo, fui-lhes mostrando artigos, relatórios, gráficos, para que entendessem o estado de emergência. Ficaram surpreendidos pelo quão grave era a situação. Fiz com que se sentissem culpados pelo seu estilo de vida".

A mãe de Greta foi uma cantora de ópera de sucesso que cantou por todo o Mundo, mas, seguindo o exemplo de Greta, mudou completamente a sua rotina. Apanham comboios quando têm que viajar. Os seus pais são vegan, tal como Greta e reduziram tanto quanto possível a compra de novos produtos. Embora Greta rapidamente aponte que a diferença que uma só pessoa pode fazer em termos de emissões é pequena e que a mudança em larga escala depende dos governos e empresas seguirem a orientação do IPCC se quisermos evitar uma catástrofe total, ela prefere viver de uma forma que minimize o seu impacto no Planeta.

greta thunberg harley weir

Desde a sua ascensão à fama mundial devido ao movimento que desencadeou, Greta foi convidada para falar com políticos de todo o Mundo. Só no ano passado, fez um discurso na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, foi nomeada ao Prémio Nobel da Paz e no Fórum Económico Mundial pediu que os cidadãos mais ricos do Planeta sejam responsabilizados. "Eu vi como o Mundo funciona e percebi que não temos as coisas sob controlo, muitas vezes percebem o que estamos a fazer, há políticos que tentam, mas conversei com muitos políticos que nem sequer sabem o que deviam fazer ou o que está a acontecer, parece que estão muito perdidos".

Com o passar do dia, a multidão em torno de Greta aumenta. "Costumavam ser, na maioria, pessoas idosas", diz Helena, mas ultimamente há muitos mais jovens que se juntam aqui durante o dia Hoje há um grupo de crianças de 11 anos da Escola Örjanskolan, localizada a cerca de duas horas de Estocolmo, sentadas lado a lado, apoiadas no muro de cimento. A sua professora, Anja, trouxe-as aqui para apoiarem Greta, como parte de um projecto que estão a fazer sobre as alterações climáticas. Anja mostra a bandeira que os miúdos fizeram e explica que não tinha percebido a gravidade do aquecimento global até descobrir Greta.

Um grupo de crianças que andam do outro lado do canal gritam: "Olá Greta!". Um grupo de homens nos seus 60anos aparece com cartazes à volta do pescoço que dizem "Velhos que pensam sobre as alterações climáticas". Eles querem dizer a Greta o que sentem, sabem que são parte da geração que arruinou tudo. Três adolescentes altos esperam pacientemente pela oportunidade de tirar uma foto com ela. Ela aceita e aproxima-se, sorrindo para a câmara. Uma mulher aproxima-se dela e dá-lhe uma rosa e, depois, envolve Greta com os braços. Outras pessoas com objectivas exageradamente grandes empurram a multidão para obterem uma imagem clara de Greta, fotografando sem parar. O seu guarda-costas pede à multidão para recuar um pouco, mas toda a gente quer um pedaço dela.

Os seus companheiros, no entanto, dão-lhe espaço. Um grupo de adolescentes que vieram ajudar Greta estão sentados em círculo a almoçar. Conheceram-se hoje, mas já têm uma forte conexão. Estão sentados e conversam em voz baixa. Entre eles está Esther, de 16 anos, que se juntou hoje à sua primeira greve. Os seus amigos não se juntaram a ela, porque não concordam que o aquecimento global seja um grande problema, mas ela é apaixonada pela causa.

greta thunberg harley weir

Tinham passado três semanas desde a primeira greve à escola quando Greta percebeu que precisava de continuar a motivar e impulsionar as pessoas. "Pensei, porque é que que haveria de parar agora que as pessoas me estão a ouvir? Se parasse, iria parecer que tudo estava acabado, por isso decidi continuar a mostrar-me todas as sextas-feiras, mas nunca imaginei que viesse a ser algo tão grande. As pessoas importam-se realmente, há muito mais pessoas a importarem-se do que eu pensava, este é um movimento que estava à espera para sair às ruas”.

Enquanto os seus detractores dizem que os estudantes estão apenas à procura de uma desculpa para faltar às aulas, se conversares com as crianças que aderiram à greve, torna-se claro que elas estão muito preocupadas com o futuro e frustradas pela falta de poder e ausência de voto. Esta é a geração que está realmente a começar a sentir o trauma ecológico, que viverá com ele. Eles nasceram numa era de profunda angústia ambiental e não conseguem esquecer esse problema como as gerações anteriores fizeram. Vêem isto, aqui e agora. Não como uma entidade separada "de fora", mas como parte deles, parte do enredo das suas vidas.

greta thunberg harley weir

Greta, no entanto, ainda está a tentar compreender no que se tornou a sua luta. "Realmente não consigo entender. Depois da greve, estava tão cansada que não conseguia pensar bem, então no dia seguinte fiquei a olhar para as fotos das greves pelo Mundo. É difícil assimilar isto, mas havia centenas de milhares de jovens a gritar em cidades por todo o Planeta".

Greta tem uma mensagem para os seus colegas grevistas: "Precisamos de continuar a pressionar as pessoas no poder e dizer-lhes que não vamos parar até que eles façam alguma coisa, porque sim, conseguimos muito, reunimos muita gente, mas as emissões ainda estão a aumentar. Nós ainda não conseguimos, temos que continuar até conseguir".

"Muitas pessoas dizem que este movimento se tornou muito grande e perguntam-me se estou orgulhosa, mas ainda não vimos nada, a crise climática ainda está só a piorar, a ficar maior e mais urgente com o tempo. Isto não é um caso isolado, é o nosso futuro inteiro". Então, qual é o próximo passo? A resposta é óbvia.

greta thunberg harley weir
greta thunberg harley weir
greta thunberg harley weir

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.