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Cultura

Larry Clark continua a fazer grandes filmes sobre jovens a foder

“Sou fotógrafo há quase 60 anos, portanto sei do que a câmara gosta.”

Por Seth Ferranti
12 Novembro 2018, 2:36pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Quando o primeiro filme de Larry Clark, Kids, foi lançado, em 1995, o alvoroço foi generalizado. Filme brutal sobre sexo, drogas e adolescentes, a longa-metragem desafiava os limites da sociedade educada. Hoje, nunca poderia ser feito, algo que o realizador reconheceu há tempos numa exibição de aniversário dos 20 anos da obra. Os filmes e a fotografia de Clark sempre deixaram as pessoas desconfortáveis. É por isso que, agora, mais de duas décadas depois e com vários filmes realizados ao longo da carreira, muita gente continua a ser devota do cineasta.

Não importa quão distorcidas são, as suas narrativas e paisagens cruas dão-nos sempre vislumbres profundos e impactantes, retratando o ponto máximo da angústia niilista. No seu trabalho, Clark ilumina um submundo frio mas humano, onde miúdos estão ao comando das próprias vidas e se divertem numa orgia de superações, conquistas, desespero e na grandeza do consumo de drogas.


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Muitas vezes, ele justapõe questões morais como a violação e o homicídio, com a forma como as pessoas reagem e se adaptam quando se encontram nessas situações que alteram as suas vidas. O seu novo filme, Marfa Girl 2, é a primeira sequela que faz e continua essa tendência [o filme estreou nos EUA a 2 de Novembro, mas ainda não tem data de estreia prevista para Portugal].

A VICE falou com Clark ao telefone para saber porque é que ele achou importante fazer uma sequela daquele que é talvez o seu filme menos conhecido, Marfa Girl, de 2012, como se tornou um cineasta e ele imaginava que Kids explodiria como aconteceu.

VICE: Porque é que era assim tão importante para ti fazer uma sequela de Marfa Girl?

Larry Clark: Bem, o filme acaba e não tens ideia do que vai acontecer àquelas pessoas. Se as raparigas vão engravidar, o que vai acontecer com o gajo que disparou sobre o polícia, todas essas questões. O filme acaba no momento em que não sabes o que vai acontecer, portanto queria fazer outro que mostrasse o que aconteceu a essas pessoas. Essa era a ideia.

Quando fizeste Marfa Girl, já tinhas planos de fazer dois filmes, ou foi algo que aconteceu como reacção à forma como o original acabou por sair?

Simplesmente aconteceu devido à forma como o filme acabou. Escrevi Marfa Girl enquanto filmava. Acordava às quatro da manhâ, escrevia e depois filmávamos o que eu tinha escrito naquela madrugada. Marfa Girl 2 também foi feito no momento. Comecei a filmar e a escrever. Para mim é muito divertido fazer as coisas em cima da hora e ir inventando a cada dia, a cada momento.

Demorou mais tempo a filmar por não teres tudo planeado?

Foi bastante rápido. Era algo novo que estava a experimentar e foi muito divertido. Este é, provavelmente, o filme em que mais me diverti a fazer. Estava lá. Estava lá a ter ideias e a filmar. Não havia muita estrutura, mas fiquei feliz com a forma como tudo resultou bem.

Os actores que usaste nos dois filmes (Adam Mediano, Drake Burnette e Mercedes Maxwell)... de que forma é que achas que eles cresceram nesta nova longa-metragem?

Acho que eles são muito, muito bons. A Drake é incrível. É uma actriz maravilhosa, o Adam também. O novo filme conta ainda com Jonathan Velasquez, que entrava em Wassup Rockers. Dez anos depois, faz parte de Marfa Girl 2. Encontrei o miúdo que usei há 10 anos atrás e dei-lhe um papel importante em Marfa Girl 2.

És conhecido por escolher actores em início de carreira, ou mesmo estreantes absolutos. O que há nessas pessoas que te chama a atenção e te faz decidir que queres fazer um filme que gira à volta delas?

Sou fotógrafo há quase 60 anos, portanto sei do que a câmara gosta. Sou atraído por essas pessoas e, quando as conheço, quase posso garantir que elas se vão sair bem.

Em Marfa Girl 2, Drake lida com as consequências de uma violação que aconteceu em Marfa Girl, como foi colocá-la nessa posição enquanto realizador?

Sim, ela é fantástica. Não havia hipótese de eu fazer com que ela fizesse o que fez. É uma actriz incrível. Fiquei impressionado com a sua actuação.

Sempre foste uma pessoa visual, que toda a vida olhaste pelo enquadramento, a começar pelo livro de fotografia Tulsa, em 1971. Achas que o livro levou à tua carreira como cineasta? Era isso que querias, ou simplesmente aconteceu?

Não, simplesmente aconteceu. Sempre quis fazer filmes e olhando para Tulsa, é um livro que é como um filme. É uma história visual, com pouquíssimas palavras. Talvez cinco ou seis no livro inteiro e funciona como um filme, porque queria fazer um filme, mas era impossível. Depois fiz filmes como Kids e tudo o resto, portanto acho que se calhar sempre quis ser cineasta.

A maioria dos teus filmes são sobre jovens. Achas que os miúdos dessa idade, de 15 a 25 anos, são destemidos e acham que vão viver para sempre?

Essa é uma pergunta engraçada. Acho que as coisas simplesmente são assim. Ninguém acha que vai viver mais de 30 anos. Ninguém acha - e certamente a garotada não acha -, mas aqui estão eles. Não sei porque é que as coisas são assim, mas sempre senti isso.

És também conhecido por documentares a vida no limite, ou dar vislumbres de coisas que as pessoas geralmente não vêem. Tendo em conta todo o teu trabalho até agora, qual dirias que é o objectivo definitivo dos teus filmes e obra?

Provavelmente ir lá e fazer e colocar o trabalho no Mundo. Essa é uma pergunta meio estranha para mim, porque quando termino uma coisa perco mais ou menos o interesse. É quase só uma questão de completar o trabalho. A realização.

O que fizeste nos anos entre Tulsa, em 1971, e Kids, em 1995? É muito tempo para uma pessoa criativa como tu. Porque é que demoraste tanto?

Sempre trabalhei. Não importa o que estou a fazer, estou sempre a trabalhar. Acho isso muito importante, continuar a trabalhar. Fui de um fotógrafo cujo primeiro livro impressionou muitas pessoas, para o meu primeiro filme, Kids, que é a mesma coisa. A minha cena é estar sempre a trabalhar. Vou fazer outro filme. O tempo é todo para trabalhar.


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Ao trabalhares na indústria do cinema com muita gente jovem, vês-te como uma pessoa que, de alguma forma, tenta ajudar as gerações mais novas?

Certamente, sim. Estou sempre a tentar educar os miúdos. IÉ muito importante para mim, porque sinto que eles deveriam ouvir as minhas experiências.

O teu trabalho sempre foi apelidado de provocador, explorador e ousado. Vês tudo isso quando estás a fazer as coisas, ou é apenas algo que toda a gente diz quando vê o resultado

Vejo tudo que faço. Sei o que faço. E para veres Marfa Girl 2, tens que ver Marfa Girl 1 para entenderes o que está a acontecer. Estou só a tentar mostrar a vida, apenas isso. É muito simples.

Quando fizeste Kids, imaginavas o estrondo em que se tornaria e toda a publicidade à sua volta?

Estava a tentar fazer um filme que nunca tinha sido feito e fiquei totalmente satisfeito com o resultado, acredita. Para mim, ficou perfeito. Quando começámos a receber a atenção da imprensa, de Tom Brokaw, NBC News e tudo o mais, pareceu-me certo. Fiz muita coisa antes desse filme. Conheci centenas de miúdos e aprendi a andar de skate aos 48 anos, o que é muito difícil. Gosto de trabalhar arduamente em tudo na minha vida. Coloquei o meu tempo no filme e fiquei muito feliz com ele.

Olhando para trás, qual dirias que é o teu filme mais subestimado?

Não acho que tenha um. Para mim, a coisa é fazer o trabalho. Não importa o que fiz com a minha vida, sempre fiz trabalhos. Quando termino um filme, tento seguir em frente.

Qual é a coisa mais importante que aprendeste na tua carreira?

A coisa mais importante é que tento sempre contar a verdade. Provavelmente é isso. Não ser falso, dizer a verdade da forma que é, mentir se for o tipo de mentira certa. Especialmente com Marfa Girl e Marfa Girl 2, é tentar explorar o que realmente acontece nas nossas vidas. Por isso há Marfa Girl e a sequela. Talvez faça uma trilogia, o que acontece depois aos personagens.


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