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Guia de um cínico para meditação

Depois de uma série de eventos perturbadores na minha vida, mergulhei de cabeça na meditação para lidar com minhas ansiedades – apesar da minha apreensão de que a prática é só outra bobajada moderna.

por Graham Isador; fotos por Ted Lamb; Traduzido por Marina Schnoor
02 Maio 2019, 2:42pm

Imagens cortesia de Ted Lamb.  

Domingo passado me sentei de pernas cruzadas num tapete de ioga no fundo de um salão de uso geral. Ao meu redor estavam dezenas de pessoas – igualmente divididas entre homens e mulheres, na maioria brancos, muitos beirando os 40 – espalhadas num semicírculo. Na frente do salão, um homem usando calça jeans e um moletom largo lia de seu notebook. Seu cabelo ensebado passava dos ombros. Ele tinha o maxilar ligeiramente pra frente e exagerava na pronúncia no final de cada frase. A vibe do cara era simultaneamente calma e ansiosa, como um professor substituto que tomou ketamina. Nas sete horas seguintes ele deveria nos guiar por uma meditação silenciosa. Observando do canto do salão eu não tinha certeza se ele era bom nisso mesmo. O objetivo do exercício era abordar situações com a mente mais aberta, mas quando paga por uma aula você tem certas expectativas. O site apresentava hippies contentes vestindo branco perto de uma cachoeira. A página de contato tinha um homem barbudo com olhos gentis e uma senhora que parecia a Stevie Nicks. Esse é o tipo de merda que te dá confiança para escolher um retiro de meditação. O fato do nosso líder ser só um cara normal de moletom me broxou um pouco.

Depois que o cara terminou de ler as instruções para o dia, ele tocou um pequeno sino. A vibração ecoou pela sala. Por um momento tudo estava parado, daí ele perguntou se tínhamos alguma pergunta. A mulher do meu lado levantou a mão. Ela tinha uns 60 e poucos anos, talvez 70. Ela se largou na cadeira e falou com um pesado sotaque do Leste Europeu.

“Fiz outro retiro antes”, ela disse. Enquanto falava ela agarrava sua camiseta. “Quando voltei pra casa, eu não conseguia parar de chorar. Você sabe dizer por que eu não conseguia parar de chorar?”

Nosso líder ficou perplexo. Ele folheou sua apostila, olhou pro chão e depois pediu pra ela repetir a pergunta.

“Eu não conseguia parar de chorar depois do último retiro. Eu estava em silêncio. Depois chorei e chorei. E quero saber se é normal?”

Depois de mais olhares confusos e outro pedido para falar, outra pessoa do grupo tomou o controle. Ele colocou a mão no braço da senhora e garantiu que o que ela tinha experimentado era perfeitamente normal. Tudo que era esperado dela naquele momento era sentir seus sentimentos. As pessoas ao redor concordaram com a cabeça e sorriram. O carinha da frente pareceu aliviado. Ele tocou seu sininho. Eu revirei os olhos tão forte que quase caí de costas. Sentir nossos sentimentos e um sino. Os tons pavlovianos da coisa toda me pareciam descarados demais.

O retiro de silêncio é parte de uma prática de meditação que venho cultivando nos últimos quatro meses. Meditação é uma ferramenta que estou tentando usar para combater o stress e a ansiedade, mas como a maioria das coisas que são boas pra mim, isso também me faz sentir idiota. Toda vez que medito – toda vez – uma vozinha sussurra na minha cabeça: “você realmente acha que sentar em silêncio vai melhorar as coisas? Seu humor varia de ambivalente para bosta nos últimos 30 anos, mas claro que fucking respirar vai resolver!” Apesar da hesitação internalizada, na maioria dos dias eu ainda entro no meu aplicativo Headspace. Tento acompanhar. Tenho insistido principalmente porque tudo que tentei fazer antes da meditação com certeza não estava funcionando.

Nos últimos seis meses minha vó morreu, minha mãe fez duas cirurgias, passei três meses fazendo um teste prum trabalho dos sonhos e não entrei, e passei por um fim de relacionamento. Isso combinado com os estresses do trabalho volátil de frila, uma enxurrada de notícias sobre calotas polares derretendo, e o mal-estar geral da existência cotidiana pareciam demais pra mim. Para combater o pavor estou me voltando para os amigos mais que nunca, mas honestamente, todos os meus amigos – na verdade quase todo mundo que conheço – estão lidando com a mesma merda. Burnout, tristeza e raiva parecem as reações lógicas para o estado geral das coisas, e enquanto estamos fazendo o melhor possível para nos apoiar, é difícil não sentir que estamos coletivamente mijando no vento. Nenhum de nós tem uma solução. Ficar ventilando as mesmas reclamações pode ser catártico, mas não vai resolver porra nenhuma. É por isso que baixei o aplicativo de meditação. Por que pelo menos meditar – mesmo se acontecer de ser bobagem – significa que estou sendo proativo.

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Pelo que entendo, o objetivo da meditação é experimentar nosso ser essencial. Sem pensamentos. Sem distrações. Só um momento de consciência presente calma. Escrever sobre o conceito é difícil porque por natureza a meditação é inativa. O ponto é não fazer nada. Na prática isso significa que por três a dez minutos por dia, sento no meu sofá ouvindo a gravação de uma voz vagamente britânica. A voz me dá dicas sobre tentar não pensar. Há grandes espaços de silêncio entre as dicas. Às vezes a voz me pede para conjurar coisas agradáveis como um raio de luz ou uma bola perfeitamente esférica. Depois que a prática acaba, a gravação explica por que o que fiz foi útil usando platitudes encorajadoras.

Sou muito ruim de meditação. Não curto meditar necessariamente. Mas nesse tempo que venho praticando, notei pequenas melhoras. Minha mente corre um pouco menos. Não estou com tanta raiva. Meu sono melhorou um pouco. As melhoras são sutis de um jeito que não parece particularmente satisfatório, como o sabor de um La Croix. Mas já é alguma coisa. Quando inocentemente mencionei os resultados para um amigo, ele sugeriu que era efeito placebo. Na hora concordei, mas considerando isso um pouco mais... como você pode qualificar algo assim? E isso realmente importa? Quer dizer, se enganar para se sentir melhor é a porra do objetivo.

Enquanto duvido que eu vá me tornar um defensor público da meditação – eu não mencionaria isso num primeiro date, por exemplo – tenho tentado deixar de lado minhas suspeitas com a prática. Parte disso é uma tentativa de abraçar coisas que acho um pouco constrangedoras na meditação. O fluxo da natureza. Os mantras. Os elementos espirituais. Porque, talvez, abraçar algo novo possa aliviar o cinismo ativo que tempera minha perspectiva. E talvez isso seja bom. Essa foi a mentalidade que me levou para o retiro de silêncio. Antes do retiro, o maior tempo que fiquei meditando foi dez minutos, mas imaginei que passar direto para uma aula de sete horas ajudaria a me aclimatar com seus ideais mais rápido, tipo pular numa piscina gelada.

Quando a senhorinha do Leste Europeu terminou de fazer suas perguntas, nosso líder do cabelo ensebado começou o dia propriamente mesmo. Ele sugeriu respirar fundo algumas vezes e eu comecei a cronometrar os outros participantes no salão. Sempre que me envolvo numa atividade em grupo, instantaneamente transformo a coisa numa competição, mesmo se não há um elemento competitivo envolvido. Fiquei considerando se eu podia ser o melhor meditador do grupo. Daí lembrei que eu deveria estar presente e tentei me concentrar na respiração. Na hora seguinte foi mais ou menos isso. Tudo estava silencioso. Tentei estar presente, me distrai, tentei de novo. Comecei aquela manhã decididamente preocupado com a experiência, mas uma hora depois eu estava descansado e alerta. Contemplei se tinha um jeito de trazer a mesma sensação de calma para o meu dia a dia. Aí a pessoa a dois tapetes de mim começou a roncar e nosso líder tocou o sino de novo. Minha serenidade sumiu na hora. O líder disse que nosso exercício seguinte seria uma técnica de visualização onde fingíamos ser uma montanha. Nesse ponto decidi sair pra almoçar.

Meditação – afinal de contas – é uma jornada pessoal.

Graham Isador gritou com um taxista quando voltava pra casa. @presgang

Fotos por Ted Lamb @tedlambphoto

Matéria originalmente publicada pela VICE Canadá.

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