Publicidade
Política

De cada 10 pessoas que você conhece, 4 simpatizam com ideias fascistas

Falta de políticas de memória e desencanto com a Democracia favorece o crescimento de valores antidemocráticos entre os mais jovens

por Gislene Ramos
23 Outubro 2018, 5:07pm

Manifestação pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff na Avenida Paulista em março de 2016. Foto: Jardiel Carvalho/R.U.A Foto Coletivo

Desencanto e falta de memória, um pacote completo que alimenta a imaginação árida de uma geração de jovens, agora impacientes e ansiosos, que parecem estar cada vez mais próximos do fascismo e suas soluções autoritárias e imediatas. Segundo pesquisa recente, a onda conservadora que avança no país ganhou novos surfistas nos últimos anos.

O Instituto Datafolha realizou uma pesquisa apresentando oito frases a respeito de ações que o governo brasileiro poderia tomar e pediu para diversos eleitores, de perfis variados, afirmarem se concordam ou não com cada uma delas.

Ainda que a maioria discorde, o que realmente chama atenção é o crescimento do número de eleitores que simpatizam com as frases de caráter fascistas.

Na pesquisa, ao serem questionados se o "governo brasileiro deve ter o direito de controlar o conteúdo nas redes sociais", 43% do pesquisados concordaram totalmente com a frase. Apesar da maioria discordar, 52%, ainda assim o dado é preocupante.

Pensa que de cada dez pessoas que você conhece, pelo menos quatro concordariam com um governo que controla, intervem ou até mesmo proíbe práticas da sociedade civil de forma arbitrária.

Outra questão da pesquisa indagava se o "o governo deve ter o direito de intervir no sindicatos", e 41% responderam que sim. E mais: "O governo tem o direito de censurar jornais, rádios e TVs"? 23% dos entrevistados concordaram. Pode até parecer pouco, no entanto, na última pesquisa feita pelo instituto em 2014, esse número era de 13%.

Ainda com relação aos direitos trabalhistas, é a frase sobre as greves, em que 24% concordam que o "governo deve ter o direito de proibir greves", sendo que em 2014, a rejeição para essa mesma frase era de 22%.

De acordo com o cientista político (UnB) e diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados do IBPAD, Max Stabile, os jovens não têm mais paciência para sistemas de mediações tradicionais, pois vivem processos de comunicação extremamente rápida e constante conectividade digital.

Para ele o ambiente digital é um dos grandes responsáveis tal o processo de impaciência e descrença com o sistema democrático: “A tecnologia marca um possível fim ou mudança dos processos de mediações na sociedade e o nosso sistema político é tradicionalmente mediado”. Nesse sentido, ocorre uma uma decepção gigantesca para com os processos democráticos tradicionais.

Então é natural que tenham mais jovens se sintam seduzidos por soluções fáceis e rápidas. Pois, momentos autoritários e antidemocráticos permeiam promessas de curto prazo, como comenta o professor Max: “Soluções fáceis não necessariamente são soluções rápidas, pois partem do consenso e para isso os processos são lentos”. É uma onda conservadora que atinge o Brasil, ainda que seja um fenômeno mundial, é também uma onda de insatisfação com os processos tradicionais democráticos.

O doutor em Direito Constitucional da USP Rubens Beçak também afirma que “existe realmente um desencanto mundial com a democracia, pois acreditar que o candidato eleito efetivará todas as demandas públicas é uma suposição, na verdade, inclusive muitas ações estão vinculadas com corrupção."

Doutor em Direito e coordenador do grupo de pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade da USP, Vitor Blotta, afirma que faltam políticas de memória e valorização do conhecimento. “Discutir e relembrar sobre os erros e excessos de nossa história política é fundamental para impedir o retorno de ideias antidemocráticas nas novas gerações”, explica.

Apesar de reconhecer que a onda conservadora e a descrença com a democracia fazem parte de um fenômeno mundial, Blotta comenta que “o Brasil possui particularidades históricas como o colonialismo, elitismo e as desigualdades sociais que produzem uma mistura explosiva ao se juntar a essa onda conservadora global, o que permite explicar fenômenos como Bolsonaro."

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.