Ilustração por George Yarnton.

O que vai acontecer quando os millennials crescerem?

Vários especialistas dizem o que pode nos acontecer quando chegarmos a meia-idade se continuarmos vivendo como adultos em um estado de infância suspensa.

por Hannah Ewens; Traduzido por Marina Schnoor
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out 17 2016, 9:00am

Ilustração por George Yarnton.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Dividimos apartamentos ou moramos com nossos pais, nunca tivemos economias e estamos inscritos numa cultura de ansiedade. Lutamos com nossa autoestima e nossa vida social está na internet. Sabemos como deveríamos ser por causa do que aprendemos com nossos pais, que casaram quando tinham a nossa idade, tiveram filhos e financiaram uma casa e um carro alguns poucos anos depois.

Mas e a gente? Somos adultos vivendo num estado de infância suspensa. Então o que vai acontecer daqui 20 anos, quando estivermos perto da meia idade? O que, afinal, irá acontecer quando os millennials crescerem?

Uma imagem vem à mente: um solteiro de 43 anos cheio de problemas psicológicos, morando numa quitinete minúscula cujo aluguel custa R$ 2 mil por mês, passando pelos perfis do Tinder obsessivamente e tuitando sobre o último lançamento da Palace para um público de outros millennials desesperadamente solitários.

Mas esse ainda é um território não-mapeado. Ninguém tem certeza do que acontecerá. Muitos dos acadêmicos, cientistas e economistas que abordei por e-mail não quiseram levantar hipóteses — embora o quadro desagradável acima provavelmente não esteja muito longe da realidade.

"Nossa geração vai chegar aos 40 com muito menos riqueza acumulada do que as gerações passadas." — Ryan Bourne

Somos falidos agora e provavelmente não vamos conseguir juntar muita coisa mais tarde na vida. Ryan Bourne, chefe de Saúde Pública do Institute of Economic Affairs, na Inglaterra, diz que nossa geração vai chegar aos quarenta com muito menos riqueza acumulada do que as gerações passadas. "Essa falta de bens se deve, em parte, porque os millennials não possuem casa, mas também porque eles vão pagar aluguel por tanto tempo que fica muito difícil poupar qualquer coisa, mesmo que seja para um fundo de aposentadoria ou investimentos. Esse é um grande problema." O especialista geracional Jason Dorsey concorda: "Esperamos ter pessoas de trinta e quarenta anos ainda dependendo dos pais — pessoas de 30 e poucos anos que ainda moram com a família e pessoas de 40 que ainda precisam que os pais paguem sua conta de celular. Esse fenômeno está colocando pressão na geração anterior. A menos que a renda aumente dramaticamente, vamos ter problemas".

Bom, se você achava que a faixa dos vinte e poucos anos era uma fase tensa, espere pelos 30 e 40. Bourne acha que vamos chegar a um ponto da nossa meia idade e perceber a gravidade da nossa situação. "O risco aqui é que muita gente da nossa geração vai chegar aos 40 e entrar em pânico porque não tem o suficiente acumulado para viver quando se aposentar", explica ele. "Então muita gente de 40 anos vai se preocupar com uma aposentadoria não muito feliz."

Nunca vamos alcançar os padrões de vida e a riqueza acumulada dos nossos pais? Segundo o economista com quem falei: provavelmente não.

"O problema é que ainda perseguimos muitas das mesmas coisas que outras gerações queriam, mas isso está muito mais longe do nosso alcance", explica Dorsey. "Quando nossa coorte entrar no meio e no final dos 30, será um momento interessante para ver se os millennials vão conseguir alcançar essa ideia de vida adulta." O medo número um dos leitores da VICE é nunca encontrar o amor, o que sugere que ainda não descartamos completamente a ideia de casamento, e nosso ódio pela crise de habitação mostra (sem surpresa, né) que ainda valorizamos ter um lugar seguro para morar. Enquanto esperamos esses marcadores tradicionais da vida adulta se realizarem nos nossos 30 anos, segundo Dorsey e outros com quem falei, provavelmente vamos continuar frustrados e infelizes.

Na nossa idade, porque ainda não temos como sustentar filhos, vamos esperar para tê-los no final dos trinta, começo dos quarenta. "Ter filhos no final da faixa dos trinta anos é mais difícil e tem mais riscos, e acho que vai haver muita pressão nessa época para casar e engravidar", diz Dorsey. "É uma tempestade perfeita. O clima será: se você quer fazer isso um dia, tem que ser agora. E, por razões óbvias, porque se casar e ter filhos será mais difícil e desafiador, a situação vai criar um tipo diferente de conversa. Vamos acabar com as pessoas tendo menos filhos no geral, porque começando mais tarde elas só vão poder ter um ou dois."

O fardo psicológico disso vai cair sobre as mulheres — algumas delas provavelmente descobrindo que não podem ter filhos —, mas o peso será sentido por toda a sociedade. Como a Dra. Amy Kaler, professora da estrutura social da Universidade de Alberta, disse a VICE, se as mulheres pararem de ter filhos: "Primeiro vamos notar um colapso das atividades econômicas que exigem crianças pequenas e pais: lojas de roupas e acessórios de bebês, babás, creches. Depois um impacto nas escolas fundamentais e esportes infantis. Também vamos nos tornar completamente dependentes da imigração para continuar existindo, como país [o Reino Unido]. Vamos ver mais esforços para atrair imigrantes — imigrantes jovens — para trazer mais pessoas para o país."

"As mulheres vão sofrer mais porque durante a vida elas recebem menos, têm mais chance de ficarem presas em trabalhos mal remunerados e, mais importante, elas têm menos chance de serem o principal provedor da família" — Dra. Carole Easton

A Dra. Carole Easton, chefe executiva da Young Women's Trust, que apoia e representa mulheres entre 16 e 30 anos sofrendo para sobreviver com um salário baixo ou nenhuma renda na Inglaterra e País de Gales, está particularmente preocupada com o futuro das mulheres. "As mulheres vão sofrer mais", ela diz, "porque durante a vida elas recebem menos, elas têm mais chance de ficarem presas em trabalhos mal remunerados e inseguros e, mais importante, elas têm menos chance de serem o principal provedor da família".

Ninguém pode prever como será nossa saúde mental e qualidade de vida daqui 20 anos, mas é bem provável que vamos continuar sendo uma geração caracterizada por ansiedade e problemas psicológicos — particularmente considerando nossa abertura para discutir esses assuntos. Mas devemos nos preocupar com a predominância de problemas psicológicos na faixa dos 20 anos. Como regra-geral, quanto mais rápido lidarmos com esses problemas, maior a chance de recuperação ou manutenção de problemas psicológicos no futuro.

"Deixar sintomas sem tratamento não só resulta em sofrimento desnecessário para o indivíduo, mas também interfere na construção de uma vida rica e significativa no futuro", diz a psicóloga clínica Dra. Lisa Orban. Em se tratando da ansiedade que os millennials relatam na faixa dos vinte, ela diz: "O cérebro ainda é maleável em jovens adultos e exposição a stress muito cedo pode ter um impacto na saúde mental. Se os jovens adultos puderem aprender como identificar o stress e desenvolver estratégias adaptadas logo no começo, há chances de que eles poderão ser mais eficientes em lidar com o stress, o que pode evitar ou mitigar sintomas de problemas psicológicos no futuro".

"Tudo que está acontecendo com os jovens contribui para uma baixa qualidade de vida e pode levar à ansiedade." — Lucy Lius

Mas estamos, enfim, tendo algum sucesso em desenvolver mecanismos para lidar com o stress?

Os profissionais de saúde mental se preocupam porque não sabemos os efeitos a longo prazo de viver em "adolescência suspensa". Lucy Lyus, da organização de saúde psicológica MIND, diz: "Sabemos que tudo que está acontecendo com os jovens no momento contribui para uma baixa qualidade de vida e pode levar à ansiedade. Obviamente é preocupante imaginar o que vai acontecer quando essa geração crescer". Lyus acrescenta que nenhum desses fatores de estilo de vida que contribuem com os problemas psicológicos vão mudar tão cedo. O que está em jogo: se queremos melhorar o futuro da saúde mental dos millennials, mudanças precisam acontecer agora. "Sabemos que o governo do Reino Unido diz que está comprometido em fazer da saúde mental uma prioridade, e que vai investir bilhões nos próximos cinco anos para que isso aconteça", ela diz. "Mas realmente não sabemos onde isso vai dar."

Pelo menos vamos poder descansar um pouco da nossa meia idade miserável quando nos aposentarmos, certo? Não exatamente. Vamos trabalhar mais que qualquer outra geração até agora, em parte porque vamos ter que sustentar os filhos que tivermos mais tarde — uma questão agravada pela obsessão do governo em nos fazer trabalhar até a morte. "A idade de aposentadoria vai ter que aumentar dramaticamente por causa da população envelhecida", explica Bourne. "O governo introduziu um plano de aposentadoria mais generoso no Reino Unido, o que não faz sentido se você tem uma população idosa. Alguém vai ter que ceder nisso, e a coisa mais óbvia a fazer será aumentar a idade de aposentadoria substancialmente."

"O significado de 'ser adulto' vai mudar completamente com a nossa geração."

Tudo isso parece muito sombrio e assustador, mas nós, como geração, não existimos numa bolha. Não podemos ser ignorados e questões como moradia, renda e problemas psicológicos não podem ser deixadas de lado. Os efeitos disso vão acabar se tornando um fardo e nossas questões sociais e financeiras se tornarão prioridade.

"Contemplar o que pode acontecer se não resolvermos todos esses problemas é quase horrível demais para se pensar", diz Rachel Laurence, da usina de ideias New Economics Foundation. "Acho que se realmente não resolvermos a maioria deles, um crash e uma grande depressão econômica vão acontecer. Mas tenho esperança que com mais pessoas entrando na segunda e terceira fase da vida adulta, esse seja um momento de guinada."

Laurence aponta que toda nossa economia é movida por débito. Se nossa geração não puder financiar propriedades e ter filhos porque os salários continuam injustamente baixos e a economia cresce, essa é uma situação "bomba-relógio".

Quando vamos sair da nossa adolescência estendida? Lidar com tudo isso significa que vamos finalmente crescer quando vencermos a pior parte? E se nunca atingirmos esse estágio? Dorsey prevê que vamos sentir que chegamos à vida adulta por volta dos 40. Mas o que sabemos é que o significado de "ser adulto" vai mudar completamente com a nossa geração.

Passar dos 18 anos pode não significar mais nada; só uma desculpa para beber sem precisar de identidade falsa. E marcadores muito mais tradicionais da vida adulta também podem acabar abandonados; "ser adulto" pode não significar mais ter uma casa e um filho. Assim como nossos pais determinaram os parâmetros para nossa ideia do que é ser adulto, nós decidimos o que ser adulto significa para a Geração Z e além.

@hannahrosewens

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