O Tirano da Estrada

O comandante Matiullah Khan (à esquerda), cercado por soldados que o ajudam a manter o Dia da Segurança, que na verdade apenas assegura seu domínio do Leste
do Afeganistão.


Matiullah Khan é o chefe da Polícia Rodoviária, uma agência governamental que foi dissolvida oficialmente há vários anos pelas tropas holandesas na província de Uruzgan, no Sul do Afeganistão. De acordo com oficiais holandeses que operam na região, Matiullah não é um oficial do governo. Os holandeses não mantêm relações com ele. Preferem não mencionar seu nome — quando é preciso, se referem a ele como “M”. De acordo com a imagem purista que as tropas holandesas têm do Afeganistão, ele é o comandante que controla ilegalmente o fluxo de todos os bens que entram e saem da região.

Mas Matiullah vê as coisas de forma diferente, e recentemente nos convidou ao seu lar-fortaleza, que fica bem em frente à base militar holandesa, para discutir o assunto.

Quando chegamos ao portão, homens treinados com uniformes impecáveis nos saudaram. Um deles ficou envergonhado porque faltava um botão da sua camisa e, sempre que o fotógrafo se aproximava, ele tentava esconder a falha com a mão.

O Comandante da Estrada, como Matiullah também é conhecido, nos recebeu na sua sala de estar. Magro, no final dos 30 anos, com a barba perfeitamente aparada, ele falava calmamente, sem pressa, e raramente sorria ou gesticulava com as mãos. Ele só levanta a voz para poder ser ouvido acima do barulho dos tiros de canhões holandeses, que disparavam intermitentemente, fazendo sua porcelana tinir em cima da mesa de madeira a cada explosão.

“Os holandeses disseminam mentiras a meu respeito”, ele disse. “Pergunte às pessoas lá fora o que elas acham.”

O povo do Uruzgan, o que não quer dizer muita coisa, em geral apoia Matiullah—pelo menos por medo. Mas isso não importa, já que os holandeses são os responsáveis por manter a paz em geral. O povo tomou o partido dele ainda em 2006.

Quando as Forças Armadas holandesas tomaram conhecimento da situação em Uruzgan, impuseram uma única condição para que participassem da operação da ISAF (Força Internacional de Assistência à Segurança) da OTAN no Afeganistão: o go-vernador no poder, o notoriamente violento e criminoso Jan Mohammad Khan (JMK), teria que ser deposto.

“Poderíamos tê-lo matado”, um diplomata holandês meditou numa tarde, enquanto bebia cerveja sem álcool no acampamento. “Mas, no final, essa hipótese foi rejeitada.” O presidente Hamid Karzai, um amigo pessoal do JMK, interveio e depôs o governador. No lugar de JMK, mas despido do status oficial, ficou o seu então tenente, Matiullah Khan.

Contra Matiullah está o chefe de Polícia de Uruzgan, Juma Gul, um sujeito conhecido por aceitar subornos, vender drogas e se apropriar dos salários dos seus homens. Juma é a ferramenta de fato das forças governamentais, e mesmo assim seu próprio deputado, o coronel Mohammad Nabi, quer vê-lo detrás das grades. Nabi é a encarnação de um oficial honesto, um tipo que você encontra até nas ditaduras mais obscuras: melancólico, estimado por seus subordinados e desesperado o suficiente para não sentir medo. O encontramos durante nossa busca por Juma.

Quase imediatamente, Nabi entendeu para onde nossas perguntas estavam indo e deixou escapar: “O que devemos fazer? Essa força policial é podre, já que os prisioneiros podem subornar suas saídas e os gângsteres podem pagar para terem seus inimigos detidos”, se referindo a um incidente implicando Juma e amplamente conhecido na cidade, e acrescentou: “Enquanto os salários dos policiais forem roubados, não há esperança! Nós, oficiais de meio escalão, tivemos uma reunião com o novo ministro do Interior. Ele prometeu ajudar, mas nada aconteceu”.

Perguntamos se ele não tinha medo de dizer essas coisas. Nabi olhou para nós, triste e cansado. “Não importa o que vai ser de mim”, disse. Os homens na sala olharam para ele, consentindo com as cabeças, em silêncio.

De forma semelhante, na disputa entre Juma e Matiullah, os desanimados holandeses não tiveram outra escolha a não ser pegar o comparativamente insignificante Juma.

Procuramos por Juma por dias, aí ele nos encontrou. Mas como o homem tem um dom incomum de farejar até a mais ínfima possibilidade de lucro, ficamos na dúvida se deveríamos entrevistá-lo. Ele nos pegou de saída e gritou para o nosso motorista: “Quem deixou você dirigir sem escolta policial?”. Querendo dizer, claro, uma escolta de sua folha de pagamento. “Sem discussão. Uma guarda vai acompanhar vocês”, ele disse, apontando para uma pickup verde com quatro policiais dentro. Antes de irmos, perguntamos a ele sobre denúncias de corrupção dentro da Polícia. “Fiz uma limpeza! Botei mais de 20 oficiais corruptos na cadeia!”, respondeu. O que mais importava para ele é que aceitamos e pagamos por sua escolta.

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Matiullah nos recebeu para um chá em sua casa que fica em frente à base militar holandesa.


Nosso motorista o amaldiçoou discretamente, enquanto éramos seguidos pela pickup. “Agora eles vão criar problemas sempre que pararmos”, ele disse. “A cada encontro marcado vão tentar arrancar di-nheiro de nós ou nos proibir de falar com as pessoas. E no final vamos ter que pagá-los de novo por nos incomodarem.”

Matiullah administra uma chantagem parecida, mas numa escala muito maior. Seu esquema cobre a região toda.

Em Tarin Kowt, a capital de Urizgan, esses dois grupos comandam o show: a facção que pertence a Juma, o oficial do governo que controla o bazar, a estrada para o distrito ocidental de Dehrawud e a estrada para Shora ao Norte; e a outra controlada por Matiullah, o fora-da-lei cujo grupo controla a única rotatória do centro da cidade, toda a parte Leste da cidade e, o mais importante, a autoestrada.

A competitividade entre esses dois supostos oficiais reflete a miséria do país. Na superfície, Matiullah pareceria a melhor escolha para o posto de chefe de Polícia—um homem com tanta influência provavelmente poderia proporcionar a segurança que Juma não é capaz. Apesar dos holandeses reconhecerem isso, eles são obrigados a apoiar o amplamente ridicularizado e desrespeitado Juma Gul. Com cada vez mais olhos voltados para essa região, as forças de paz do Afeganistão não podem nomear o comandante Matiullah.

Demorou alguns dias até que os oficiais holandeses que conhecemos concordassem em conversar conosco, mesmo que vagamente, sobre o “M” e Juma. Eles admitiram: sim, Juma é um incômodo. Corrupto até os ossos, impopular e incompetente. Se houvesse uma oportunidade para depô-lo, o fariam com prazer. Juma é um dente da engrenagem de uma máquina cheia de esterco. Parte dos subornos que ele recebe e dos salários dos quais se apropria acabam indo parar nos bolsos dos seus superiores.

A situação com Matiullah é completamente diferente. Ele é uma empresa firme e independente. Ele titereia a região e garante seu poder.

Convidados, acompanhamos Matiullah até seu hall de entrada, onde pessoas aguardavam por sua ajuda em fila. Um homem com uma perna fraturada pedia dinheiro para o tratamento. Dois devedores não podiam pagar o que lhe deviam. Uma delegação de anciãos tribais chegou de um distrito vi-zinho pedindo que Matiullah os ajudasse a resolver uma disputa territorial. Matiullah parecia decidido a deixar a cena falar por ele.

Lá estava ele, o cabeça da inexistente Polícia Rodoviária, sentado em uma pequena almofada numa grande sala, como um príncipe medieval vestindo uma túnica branca e jaqueta escura, resolvendo disputas territoriais. Ele lembra uma figura da Guerra dos Trinta Anos, extraindo seu poder do caos que o rodeia.

Jama Gul, chefe de Polícia da província afegã de Uruzgan, apoiado pelos holandeses, é mais conhecido como o cara que enriquece com o salário dos próprios homens.


Exatamente 916 homens estão sob o comando de Matiullah, ele disse. Além do salário anual de 180 dólares, os policiais recebem 220 dólares extras por sua lealdade. Matiullah pode bancar isso, ele é a força por detrás do dia mais lucrativo de Uruzgan: o Dia da Segurança.

O Dia da Segurança cai em um dia dife-rente toda semana, mas, quando chega, é inconfundível. Nuvens de poeira pairando sobre as colinas de Uruzgan assadas pelo sol anunciam sua chegada, os aparentemente infinitos pelotões de caminhões de 40 toneladas, pickups supercarregadas e táxis, todos atravessando em comboios de até 100 veículos, em ambas as direções.

O Dia da Segurança é o único dia da sema- na seguro para comboios circularem pela estrada que passa entre Tarin Kowt e as vizinhas Kandahar e Helmand. O Dia da Segurança é o cordão umbilical de Tarin Kowt. É nesse dia que os suprimentos para as bases do Exército dos EUA, o governo da província e feiras das cidades são entregues. Gasolina, arroz, cimento, aço, vegetais, peças sobressalentes, tudo tem que passar em um dia. Matiullah cobra de US$300 a US$2.000 por veículo. Voluntários, executivos e até mesmo o Exército dos EUA pagam pelos serviços do Matiullah satisfeitos. Eles garantem que seus suprimentos cheguem às suas pequenas bases no Leste do Uruzgan. Seus homens altamente armados protegem a rota, administram os postos de controle e atiram nos agressores.

Matiullah se esforça para ser querido para os cidadãos de Tarin Kowt. Em fevereiro de 2009, dois dos seus homens foram mortos e um terceiro ferido, mas os comboios passaram, e todos sabem em Tarin Kowt que Matiullah mandou o homem machucado para a Índia para ter o seu olho salvo.

Por que os holandeses não reconhecem Matiullah?

Simples: sua história sob o comando de JMK é sangrenta. Ele liderou os esquadrões da morte que mataram fazendeiros teimosos que não entregaram suas terras, filhas e gado para o antigo governador. As forças holandesas se mantêm irredutíveis: a menção do seu nome espalha pânico e medo pela região.

Um alto oficial holandês explicou: “Se apontarmos Matiullah como chefe da Polí- cia, metade da população do vale Balúchi correria para os talibãs”. Por se tratar de um tema delicado, ele não quis dizer o seu nome.

“Eles nunca confiariam em Matiullah Khan”, ele disse, “e têm suas razões. Então temos que prevenir isso!”

Mas isso é tudo o que podem fazer. Como as outras pessoas, os holandeses dependem do Dia da Segurança, e Matiullah é deixado em paz para controlar a estrada por medo que ninguém mais possa fazê-lo. Não sabemos quanto tempo essa situação vai se aguentar. Um oficial nos explicou que as forças holandesas têm apenas uma ordem, com um procedimento mais simples ainda: “Com tanto que ele não tente aumentar sua esfera de influência”, eles não se intrometerão e o deixarão agir. Em outras palavras: “Perdemos”.

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