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Cultura

A nossa banda podia ser a tua vida. E foi

"Uma Cena Ao Centro" é um livro que mergulha nos "loucos anos 90" para revelar a fotografia definitiva sobre a primeira vaga de explosão de bandas em Leiria, Marinha Grande, Alcobaça e Caldas da Rainha.

Por Cláudio Garcia
11 Maio 2018, 12:14pm

Em 1999, um ano depois de assinarem contrato com a Polygram, os Phase viajaram para Londres e gravaram num estúdio de topo. Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

David Fonseca aparece pela primeira vez no Jornal de Leiria a 27 de Julho de 1995, pela mão de Carlos Matos, que o entrevistou e escreveu as palavras que qualquer jornalista gostaria de ter escrito: “Um conjunto de canções inteligentes podem fazer deste ilustre desconhecido natural de Leiria mais um caso sério da música moderna portuguesa”.

O repórter estava lá e o momento premonitório – sobre um David Fonseca ainda a solo, em cassete maquete reservada aos mais próximos, três anos antes de os Silence 4 conquistarem Portugal – é agora resgatado no livro Uma Cena ao Centro: Música Moderna Portuguesa 1990-1999, de Pedro Miguel [colaborador da VICE Portugal], que mergulha nos loucos anos 90 para a fotografia definitiva da primeira vaga de explosão de bandas em Leiria, Marinha Grande, Alcobaça e Caldas da Rainha.

Há o sucesso comercial dos Silence 4 e dos The Gift, a ascensão e queda dos Phase, mas o livro, com edição prevista para Setembro e disponível para financiamento, lista para cima de 200 bandas que se apresentaram naquela derradeira década do segundo milénio como bastiões de uma certa cultura alternativa e independente que já ninguém conseguia esconder, muito menos reprimir.

Uma das primeiras fotos de Tozé Pedrosa, David Fonseca, Rui Costa e Sofia Lisboa, os Silence 4, aqui numa imagem de 1996, dois anos antes de conquistarem Portugal com o álbum "Silence Becomes It". Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

A editoria de cultura do Jornal de Leiria estava especialmente atenta – caso de estudo na investigação de Pedro Miguel – e os Gift surgem pela primeira vez em Dezembro de 1994, num texto de José Alberto Vasco, sobre a final do concurso de música moderna do Bar Ben, em que ficam em segundo lugar, atrás dos Paranóia, de Leiria. O mesmo José Alberto Vasco que assina a crítica ao concerto no Mosteiro de Alcobaça em Agosto de 1995 e o descreve como “fascinante e intenso”, três anos antes da edição de Vinyl, o álbum que contém "Ok! Do You Want Something Simple".

Em Maio de 1996 dá-se a estreia dos Phase no Jornal de Leiria – porque integravam o alinhamento do Festival Lizrock 96 – e, logo nesse ano, há uma breve em que se lê "Se fossem londrinos já tinham contrato discográfico". Uma previsão em cheio, outra vez, porque a notícia do acordo com a editora Polygram chega a 10 de Dezembro de 1998, como prenúncio do concerto em Paredes de Coura no Verão de 1999 e das gravações de Fifty Two Minutes of Your Time num estúdio de topo em Londres.

Os Gift em 1998, ano de lançamento do álbum de estreia, "Vynil". Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

Testemunha de muitos dos acontecimentos sobre os quais escreve, e pontualmente protagonista, por exemplo, com os This Is A Morphine Trip, Pedro Miguel vai mais fundo do que a espuma da fama à escala nacional e desenterra informações, entrevistas e análises sobre discos e concertos de projectos tão influentes para uma determinada geração como foram os Alien Squad (presença habitual nos squats do punk hardcore de norte a sul do País, por vezes interrompidos pela polícia) e os Injusticed League (autores de um EP de sete polegadas com oito faixas, Dogs of State, à venda por 300 escudos numa folha A3 dobrada e fotocopiada), os CARF (que em entrevista faziam questão de esclarecer que eram dos Marrazes, não de Leiria), os Sarna (um culto a partir da maquete Combate o Sistema), ou os Canker Bit Jesus (antes Exomortis e depois Canker, tocaram no Carnaval de Ovar para quatro mil pessoas, na sequência da participação de Marciano no programa televisivo Big Brother).

Sem esquecer os Flower Mind (que em 1999 actuaram com 10 000 Maniacs em Aveiro e Bryan Adams em Leiria), os Id Portico (presentes nos principais festivais, abriram para os britânicos Travis nos coliseus de Lisboa e do Porto), os Perpetual Flame (provavelmente os mais internacionais de todos, ainda hoje idolatrados na Alemanha e na Rússia), os Malevolence (que chegaram a gravar na Suécia com Fredrik Nordström), os Ode Filípica (de Carlos Matos e Pedro Granja), os Lunáticos (que reinventaram o "Estou na Lua" para as pistas de dança), os Estado Sónico (responsáveis por um CD homónimo em 1995, pela Fábrica de Sons), Mentes Podres (que da capital do vidro emitiam hinos de transgressão como "Vergonha é Obedecer" ou "Porcos Azuis"), No More Rock N Roll Business (que um dia foram tocar ao Montijo só porque viram no Blitz que estavam no cartaz de um concurso de música), Tina And The Top Ten e Red Beans (a embaixada sónica em Portugal, com sede em Caldas da Rainha, responsável pelo concerto de Sonic Youth no Campo Pequeno), Pigs In Mud (dois deles fundaram os Dapunksportif) e Loto (colaboraram com Peter Hook, dos Joy Division e New Order), entre tantos, tantos outros, como Dramafall, Capricious, Wicked Lounge, Us Forretas Ocultos, Paranóia, Mikroben Krieg, Virtualma, Meninos Ruins, 605 Forte ou Big Me.

Querido diário: os anos 90

Mas, como naquelas séries de televisão que reabilitam um imaginário perdido, o livro é também um relicário de modas e tendências, um roteiro de bares (do Ben ao Opus), discotecas (Alibi, Storm Zone, Casino) e espaços de fruição da música, de programas de rádio (à cabeça, a Rádio Clube de Leiria), fanzines, editoras (com destaque para a Nova Independência, de António Lima), produtoras, promotoras, distribuidoras (a origem da Rastilho), estúdios, salas de ensaio (a casa da Reixida), festivais, concursos de música moderna, lojas de discos (Alquimia, Auditu) e até lojas de roupa (Tucha, Garagem).

O autor do livro e colaborador da VICE Portugal, Pedro Miguel (ao centro) e os This Is a Morphine Trip, em 1994. Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

É como espiar o diário de outra pessoa e encontrar entradas escritas por nós. Um exercício obrigatório para todos os que amam a música, semelhante ao acto de abrir uma caixa do tempo enterrada no subsolo durante duas décadas. Pedro Miguel socorre-se das palavras de Sérgio Felizardo, num artigo da VICE PORTUGAL, para explicar como era viver em Leiria nesses anos em que David Fonseca animava um programa na Rádio Clube chamado Os Manos Bacanos e quem tinha um leitor (e gravador) de cassetes com duplo deck tinha tudo.

O liceu, as motas DT e NSR, as aceleras Vision e BWS, o Centro Comercial D. Dinis, o salão de jogos, o casaco de cabedal para quem podia, o de napa para os restantes, a indústria local a levantar voo na ressaca da adesão à CEE, as Levi’s 501, o Duffy de penas, o Terreiro, a Pan Am, a Senhora do Monte, a Fonte Luminosa cheia de espuma. E, claro, dançar o "I Wanna Be Adored" dos Stone Roses numa pista qualquer, como lembra a promotora Raquel Lains, na página 45, o que remete logo para outra pesquisa, também sobre uma cena indie, a dos Estados Unidos, referida na página 53, com o sugestivo título Our Band Could Be Your Life.

Injusticed League, em 1995. Foto cortesia Jornal de Leiria/DR

A quinta-feira era sagrada: “A malta ia a correr ler o jornal [de Leiria] para saber qual era a banda que ia aparecer naquela semana", diz Ruben Santos, num depoimento para a pesquisa de Pedro Miguel. Muito disto aconteceu fora do centro da cidade, com as sedes dos clubes recreativos a albergarem espectáculos ao vivo e a abrirem as portas para a rebeldia a que a capital de distrito torcia o nariz.

Note-se: não havia internet (o mercado só arranca em Portugal em 1994) nem leitor de mp3 (o primeiro no Mundo só é inventado em 1997), não existia iTunes (2001) ou YouTube (2005) nem sequer Napster (1999) ou MySpace (2003), muito menos Spotify (2008). Descobrir, partilhar e ouvir música era outra coisa, num País com dois canais de televisão (até 1992), que a esta distância mais parece outro Planeta. É neste cenário, sem viagens low cost, mas com uma auto-estrada a estrear (o derradeiro troço da A1, entre Torres Novas e Condeixa, é inaugurado em 1991), que se dá uma avalanche de bandas, que brotavam de todo o lado, em parte, justamente, devido ao processo de novidade e abertura ao exterior que marca a década.

“Os anos 90 foram um viveiro e um ritual de passagem de novas experiências contemporâneas pioneiras, reforçando novas experiências sensoriais e intelectuais”, escreve Pedro Miguel, sobre o período de 1990 a 1999, num documento histórico que vai mais atrás e mais à frente, e também fora da região, porque nada acontece no vazio, há sempre o contexto, o antes e o depois.

A próxima vaga

Pode parecer um exercício de nostalgia. Mas não é, está mais perto da celebração. Porque "as cidades são dinâmicas e as pessoas também", ou seja, "o Mundo continuou a girar" e "girou para todos", lembra o autor. Mais do que estagnação, marasmo ou monotonia, "falar do passado é também um convite à reaproximação, dos que partiram, a um tempo presente que é, de facto, interessante, com coisas a acontecer e novamente bandas a mexer".

Quando se cristalizam 10 anos da vida de músicos e fãs, há sempre riscos – e não apenas o risco dos dias passados em arquivos cobertos de pó, com luvas e máscara de protecção. Através de uma piada da era soviética, emprestada pelo historiador britânico Tony Judt, Pedro Miguel deixa claro que escrever sobre o que aconteceu pode ser um exercício mais perigoso do que escrever sobre o que vai acontecer, porque cada pessoa constrói a sua própria memória e "aquilo que um homem reconhece é o que o outro omite".

Um ouvinte liga para uma rádio na URSS e questiona se é possível prever o futuro. A reposta é afirmativa, não há problema em prever o futuro. O problema é o passado, que está sempre a mudar. E que está a ser escrito hoje mesmo, por uma nova geração de bandas, uma espécie de second coming da cena musical de Leiria, liderada por projectos como Surma e First Breath After Coma, debaixo do chapéu da Omnichord Records.


Vê: "Devoção, entusiasmo e loucura. Um documentário sobre o que é ser fã de música"


Abaixo podes ler uma conversa do Jornal de Leiria com Pedro Miguel, autor de "Uma Cena ao Centro: Música Moderna Portuguesa 1990-1999".

JORNAL DE LEIRIA: "As tensões fazem parte do quotidiano". A frase é do tema "Rebelde", dos Meninos Ruins. É a palavra que melhor define a Cena ao Centro?

Pedro Miguel: Historicamente sempre foi assim desde que o Mundo se conhece como tal, as tensões fazem parte do quotidiano, mas há certas realidades que simplesmente não se conseguem combater. Neste caso em concreto não podia ser de outra maneira, aquilo tinha de transpirar por alguma via. Muita gente a querer tocar de um lado e a resistência ao novo e ao diferente do outro, só podia resultar numa Cena ao Centro forte, mas com um percurso sui generis.

Era outro contexto social, económico e político, na Leiria dos anos 90.

Na Leiria e no país inteiro, diria eu. Com as suas excepções, havia claramente uma obstrução e desconfiança face a novas realidades por parte de quem ocupava lugares estratégicos centrais de desenvolvimento comunitário, pois independentemente das suas capacidades técnicas, padeciam de um preconceito social atroz. Mas não foi preciso esperar 25 anos para chegar a esta conclusão através da habitual desculpa de que "a história os julgará", já nessa época havia essa sensibilidade. Ainda hoje há muito terreno por desbravar. O poder político tem um longo cadastro face à cultura, mas que de vez em quando procura transformar em currículo, confundindo oportunidade com oportunismo. Esta é uma característica que ainda se mantém até hoje: a cultura como arma de arremesso.

A escolher uma só música, que música fica como hino de uma geração?

É claro que o tema "Rebelde", mencionado acima, pode ser representativo. Ainda hoje resulta e actualmente esse tema foi resgatado pela banda Escumalha, que o toca ao vivo e a mensagem ainda soa muito contemporânea. É um apelo à luta no melhor e mais nobre sentido do termo.

É ao longo dos anos 90 que ocorre a primeira explosão de bandas em Leiria e nos concelhos vizinhos, parecem surgir de todos os lados. O que permite e explica esta intensidade e abundância?

Ui, para responder a isso precisava de escrever um livro, mas como por acaso até escrevi um, vou tentar responder muito resumidamente. Na altura, conseguir uma reunião numa autarquia era pior do que conseguir uma audiência no Vaticano. Hoje isso mudou, mas a homenagem que se calhar nunca foi feita, é que não é nas cidades, mas sim nas sedes dos clubes recreativos e desportivos, que se encontraram interlocutores e mediadores muito mais acessíveis, o que permitiu programar muitos concertos.

Nem sempre correu bem, não estamos propriamente a falar de meninos de coro, mas fez-se. Ali a máquina burocrática era muito menor e as relações humanas eram mais descontraídas, em contraste com alguma soberba saloia dos poderes mais centrais. O efeito bola de neve fez o resto, os inúmeros concursos de "música moderna" chamaram muita gente, a editora Nova Independência gravou muitas bandas pela primeira vez, a editora Rastilho agitou mentalidades, a redução do custo dos instrumentos musicais também ajudou muito, a auto-estrada A1 encurtou distâncias, a imprensa regional assim como algumas rádios locais também desempenharam o seu papel fulcral.

Há o sucesso maior dos Silence 4 e dos Phase, mas no livro são listadas para cima de 200 bandas. Uma pergunta inevitável: o que fica?

Fica um lastro que não é mensurável. Como numa viagem, nem sempre é o destino que mais importa, mas sim a excitação que a ida proporciona. Muitos seguiram as suas vidas e abraçaram outras prioridades, contudo, alguns ainda aí andam, é certo que nem todos de guitarra em punho, mas espalhados por associações culturais ou actividades criativas que têm no seu seio ex-membros de bandas e que hoje fazem produção de eventos, design, jornalismo, fotografia, dj, ou simples music lovers que ainda se deslocam para ir ver concertos seja onde for. A maioria não se profissionalizou no mundo da música em si, mas é aprazível observar os que continuam, dentro do possível, ligados ao meio.


Cláudio Garcia é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

Podes encontrar o crowdfunding de "Uma Cena ao Centro: Música Moderna Portuguesa 1990-1999) aqui.

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