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​Bitcoin na Cadeia

Em janeiro de 2014 eu estava voltando para casa de uma palestra em Amsterdã quando fui preso no Kennedy Airport por agentes federais e levado à solitária no Metropolitan Detention Center em Manhattan.

As acusações eram relacionadas à minha posição de CEO da BitInstant, uma startup do começo do Bitcoin que permitia aos seus usuários comprarem a moeda digital de forma rápida e descomplicada.

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Eu sabia – e até certo ponto possibilitava – que um único usuário comprava Bitcoin para adquirir drogas ilegais no mercado negro online Silk Road.

Finalmente sobrou pra mim.

Há alguns meses atrás, me declarei culpado por ter “auxiliado e sido cúmplice de uma operação de transmissão de dinheiro não-licenciada” e fui condenado a dois anos. Hoje estarei me entregando para a Prisão Federal de Lewisburg, na Pensilvânia.

Sou obcecado com Bitcoin, e irei pra cadeia. Então claro que quis saber como poderia usá-lo mesmo lá dentro

O Bitcoin pode ter me levado à prisão indiretamente, mas ainda é uma de minhas paixões. Uma rede de transações globais alternativa daria às pessoas mais controle sobre suas finanças, permitindo a elas que enviassem quantias com maior privacidade sem ter que confiar (ou pagar) em um intermediário. Ela reduziria o tempo necessário para se transferir esse dinheiro em dias. Se pudéssemos fazer isso, estaríamos um passo mais próximos de tirar milhões de pessoas da pobreza ao permitir que pessoas participantes em economias locais fizessem transações com o resto do mundo.

Sou obcecado com Bitcoin, e irei pra cadeia. Então claro que quis saber como poderia usá-lo mesmo lá dentro.

Diversas moedas prisionais existiram ao longo do tempo, de selos a cigarros. Depois que as cadeias baniram o ato de fumar, há uma década atrás – as prisões federais norte-americanas o fizeram em 2014 – então os detentos passaram a trocar peixe enlatado por conta de seu longo prazo de validade e alto índice de proteína, o que é raridade na cadeia. Serviços de lavanderia podem custar uma lata, um corte de cabelo custa duas, e um personal trainer pode te custar 25 latinhas por mês. E por que não Bitcoin?

Como era de se imaginar, operar um sistema com Bitcoin na prisão é ilegal – o Departamento de Prisões proíbe “possessão de dinheiro ou moeda, a não ser com autorização específica” – mas ainda assim é uma experiência de raciocínio divertida. O Bitcoin é essencialmente usado via internet, mas necessariamente tem que ser assim?

Ao entender o quão viável isto é, consigo ver que tipo de infraestrutura, se é que seria preciso alguma, é necessária para conectar comunidades locais ao sistema financeiro global, mesmo que elas não possuam computadores ou acesso à internet.

ADIVINHA SÓ? VOCÊ NÃO PRECISA DE INTERNET PARA USAR O BITCOIN

Provavelmente você já ouviu gente falando sobre como o Bitcoin é revolucionário. Ao passo em que trata-se da primeira moeda inteiramente digital viável em escala global, o fato de ser digital não é o que a torna revolucionária.

O sistema financeiro atual depende de bancos para movimentar dinheiro e certificar de que este chegue ao seu destino. A verdadeira inovação do Bitcoin foi criar um sistema que não exige bancos para manter o fluxo de dinheiro. Em vez disso, dezenas de milhares de voluntários independentes compartilham o trabalho de monitorar transações e prevenir fraudes.

Estes voluntários mantém aquilo que se chamam de nodos da rede Bitcoin. Nodos são os computadores que monitoram todas as transações em Bitcoin e atualizam os saldos das contas dos usuários. Ao invés de monitorar estas informações internamente, como um banco faria, os nodos do Bitcoin transmitem estas transações imediatamente. Todos os nodos se comunicam em tempo real e atualizam os bancos de dados distribuídos conhecidos como blockchains, uma espécie de histórico ou livro contábil compartilhado de todas as transações já realizadas em Bitcoin.

Shrem em 2013. Crédito: Derek Mead

Esta transparência faz com que todos sejam honestos e torna o livro contábil descentralizado.

Tais informações podem ser transmitidas pela internet, redes LAN locais, sinais de rádio e TV, até mesmo em código Morse. Um fazendeiro no Quênia pode se conectar à rede com um celular que disponha de SMS.

Mas e se a tecnologia fosse ainda mais limitada, ou praticamente inexistente? Sem computadores ou celulares, o Bitcoin ainda funcionaria?

APRESENTAMOS O MAK

A resposta é sim. Tudo que é necessário para que uma moeda como o Bitcoin funcione é a capacidade de monitorar as transações em um livro contábil central, verificado constantemente por seus usuários.

Sem um computador ou celular, os detentos precisariam administrar um livro contábil totalmente off-line de dentro da prisão. Ou seja, precisaríamos de um caderno físico para registrar todas as transações. Ao invés de trocar peixe enlatado fisicamente, simplesmente se anotariam as quantidades no caderno.

Vamos chamar nossa versão presidiária do Bitcoin de Mackerelcoin [Nota: mackerel, inglês para cavalinha, é o peixe enlatado que serve de moeda nas prisões norte-americanas], ou MAK

Digamos que eu esteja treinando na academia e Dave precise pagar a John 25 MAK pelo seu treino mensal. Em vez de encher os bolsos com 25 latas de peixe, ele simplesmente me pediria para mover os fundos de sua conta para a de John. Eu abriria o livrinho e anotaria “Dave pagou a John 25 MAK”, e a data. Então subtrairia 25 MAK do saldo de Dave e adicionaria no saldo de John.

(Não é o mesmo que o Bitcoin exatamente, pois no papel de único nodo, ajo de forma semelhante a um banqueiro. Se quisesse reproduzir perfeitamente o sistema, muitos outros detentos monitorariam estas transações e as sincronizariam, como na rede Bitcoin. Quando Dave pagou a John os 25 MAK pelo treino, cada detento presente pegaria seu caderninho e anotaria a transação. Depois, quando John pagasse a Tim 2 MAK por um corte de cabelo, todos os outros presos no salão pegariam seus cadernos e registrariam a transação. Então, ao fim do dia, todos os prisioneiros se encontrariam e incluiriam as transações em um caderno central. É meio como a Ilha de Yap, onde os nativos utilizavam enormes moedas de pedra que eram pesadas demais para levar por aí – quando o dinheiro mudava de mãos, todo mundo na vila simplesmente saía comentando quem era seu novo dono.)

Levando o experimento além, pense em um agenciador de apostas dentro da prisão. Agenciadores precisam ser capazes de fazerem dezenas de transações por dia, desde apostas em uma partida de Banco Imobiliário até apostas para quem adivinhar se no jantar vai ter pãozinho ou não.

Ilustração: Lia Kantrowitz

Os agenciadores mantém registro de tudo em livros contábeis, mas tem que lidar com a coleta e distribuição de fundos. Se o detento que fez a aposta tinha um saldo MAK, os fundos para a aposta poderiam ser congelados até que saísse o resultado. Se ele vence, transfiro o “dinheiro” da conta do agenciador para a dele, e se ele perder, faço a operação contrária. Desta forma, ele não precisa se preocupar se o agenciador fará sua parte. Enquanto isso, o agenciador não precisa quebrar o nariz de ninguém para receber o que lhe é devido.

De alguma forma, durante vários momentos do dia, transmito os dados de meu livro contábil, incluindo saldos e transações para o mundo exterior – digamos, ao ficar de pé no meio do refeitório e gritar o que rolou no dia.

Eu definiria o valor de 1 MAK como o de uma lata de peixe no armazém, algo em torno de US$1,50. Enquanto isso, cobraria uma taxa – digamos de 1 MAK – para saques e depósitos no sistema com latinhas físicas, como é o caso do câmbio de Bitcoin com o dólar e demais moedas. Idealmente, o MAK, que poderia ser trocado por Bitcoin assim que o dono daquele saldo saísse da prisão.

O livro contábil é a peça mais importante desta teoria. Preciso manter livros atualizados dos saldos e transações de todos, sem tecnologia alguma. Para manter-me honesto e o sistema íntegro, enviaria uma cópia dos registros todos os dias para ao menos duas outras pessoas fora da prisão que atuariam como nodos externos. Estas pessoas publicariam cópias dos registros passados e também confirmariam a validade de cada transação – que John realmente tinha 2 MAK para enviar para Tim.

Eu enviaria uma cópia dos registros todos os dias para ao menos duas outras pessoas fora da prisão

Isto conferiria ao sistema um tempo de bloqueio – o tempo que uma transação leva para ser confirmada e publicada – de cerca de três dias, o tempo esperado para que os registros chegassem aos nodos externos. (Para transações maiores, talvez você queira esperar até que os nodos externos confirmem o pagamento antes de trocar bens ou serviços, mas em transações menores, provavelmente não seria problema correr esse risco.)

Os nodos externos verificariam minhas contas e confirmariam as transações. A postagem no correio serviria como referência para data e hora. Meus nodos externos publicaram o registro diário em um site ou blog, de forma que qualquer detento poderia ligar ou mandar um email para um amigo ou parente que verificaria as transações. Isto ajudaria a prevenir o débito ou crédito arbitrário do saldo de alguém.

Mas o verdadeiro controle reside no fato de que todos, incluindo a mim, tem um incentivo econômico para manter o sistema todo funcionando honestamente. Caso alguém desconfie dele, todo o experimento vai por água abaixo. Isso evitaria (com sorte) que alguém me intimidasse e me forçasse a mudar um saldo.

IMPLICAÇÕES ALÉM DOS MUROS DA PRISÃO

No exemplo que citei do personal trainer, carregar 25 latas de peixe para pagar o instrutor seria meio incômodo, e os detentos só tem um armário pequeno para guardarem todos seus pertences. Com o MAK, um detento poderia simplesmente me pedir para transferir 25 MAK de sua conta para a de um de seus instrutores.

Claro que isto é um experimento que poderia facilmente ser encerrado. Já que sou o único nodo ou ponto de acesso, podem encerrar minha atividade e me enviar para um presídio de maior segurança. Este problema poderia ser resolvido ao recrutar mais presidiários para atuarem como nodos – e prisões, por si mesmas, dificultam a organização de seus detentos.

Mas e o mundo além dos muros da prisão? Há dezenas de milhões de pessoas sem acesso a bancos no mundo. Aos poucos elas entram na rede, mas em locais onde a internet inexiste, o banco de dados distribuído off-line poderia ser um degrau para trazê-los a bordo do sistema financeiro global. E mesmo que não, seria uma maneira interessa de explicar como o Bitcoin funciona de fato.

Charlie Shrem é um pioneiro do Bitcoin e fundador da Bitcoin Foundation. Assim que ele sair da prisão, você pode encontrá-lo no Twitter ou em seu site, CharlieShrem.com.

Tradução: Thiago “Índio” Silva

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