O breve histórico do Anthony Naples é bem documentado. Bombardeado primeiramente pelo Miami bass na sua Flórida natal, ele progrediu para os sons mais refinados da Warp Records e, quando abandonou os estudos na Florida State University e se mudou para Nova York, começou a sua jornada estelar.
Comprou um laptop vagabundo e mandou a primeira faixa que desaguou na Mister Saturday Night, uma lendária festa nova-iorquina. O resultado foi o seu single de estreia, “Mad Disrespect”, de 2012, uma faixa que lançou o selo homônimo da Mister Saturday Night e chamou a atenção do Four Tet quando ele a tocou para eles.
Videos by VICE
Desde então, ele também estreou o selo da loja de discos Rubadud, de Glasgow, e lançou material pela Trilogy Tapes, além de ter fundado um selo próprio, o Proibito. Agora ele lança o seu disco de estreia, Body Pill, pelo Text, selo do Four Tet, no dia 17 de fevereiro. Da beleza permeada de reverb e distorção da faixa de abertura, “Ris”, ao hip hop melancólico e oscilante de “Used to Be”, esse é um trabalho notável, que transpassa estilos e climas, mostrando uma maturidade que aparentemente está além da sua breve carreira no estúdio.
Naples também é um dos muitos artistas rotulados com o termo meio sério, meio piada “outsider house”. Falando com ele, antes do lançamento do seu disco de estreia, perguntei sobre as definições de um artista “outsider” e as ideias erradas que as pessoas têm a seu respeito.
THUMP: O título do seu disco de estreia, Body Pill, sugere que ele vá ser mais voltado para as pistas, mas ele tem a complexidade melódica de um disco de eletrônica dos anos 90. Isso foi algo que você tinha em mente, em função de ter crescido ouvindo Aphex Twin?
Anthony Naples: Obviamente, o Richard David James é uma influência enorme para quase todo mundo. Acho que a maior parte das minhas influências estava muito arraigada no meu subconsciente para ser óbvia. É claro, alguma coisa aparece aqui e ali, mas quando eu estava fazendo o disco, as únicas coisas que eu estava ouvindo era o Piñata, do Freddie Gibbs and Madlib, e o World of Echo, do Arthur Russell, e não sei mesmo se esses discos acabaram entrando ali. Acho que as minhas maiores influências são experiências, filmes, coisas que eu leio e a minha relação com as pessoas e comigo mesmo. Não quero bancar o profundo, mas eu não me sentiria satisfeito se a minha única premissa para fazer música fosse soar como outras pessoas. Faço isso porque me faz sentir bem, então as influências aparecem depois, eu acho.
Body Pill são só duas palavras que eu juntei e soaram meio engraçadas. Imaginei que, se eu visse um disco chamado Body Pill, talvez me interessasse por ele porque é um título muito ridículo.
Você já disse que gosta de fazer perguntas quando está gravando um single para alguém, que precisa de um foco para o projeto. O Four Tet te deu algum conselho a respeito do disco? As faixas foram gravadas com o objetivo de se encaixarem numa unidade coerente?
O disco já estava pronto quando o mandei para o Kieran. Na verdade, eu ia lançá-lo apenas como uma espécie de mixtape e queria que ele ouvisse para ver se estava tudo certo, então ele me disse que eu devia lançá-lo como meu primeiro LP e rapidamente enviou outro e-mail dizendo que ia lançá-lo pelo Text, e foi isso.
Você foi rotulado como um artista de ‘outsider house’, mas já disse que acha que não pertence a essa categoria. Isso o torna um outsider do outsider house?
Não, significa que sou um insider. Não sou tão ingênuo quanto dei a entender a princípio. Fiz um curso de engenharia de som neste lugar chamado Berklee por um tempo e fui estagiário no estúdio onde o Oneohtrix Point Never, entre outros, gravou seus LPs, então definitivamente tenho uma boa noção de como ajustar o controle de ganho e tudo mais. Acho que no começo era mais divertido só fazer uma barulheira desgraçada. Depois decidi tentar fazer algo mais impressionista dentro do padrão da house music. Agora não sei bem o que estou fazendo, haha. Acho que só estou tentando fazer todo tipo de música e produção e aplicando devagar o que aprendi ao processo todo.
Você só começou a frequentar a noite lá por 2008. Imaginamos que já tenha visitado um bom número de clubes, agora. Ter sido exposto a uma grande variedade de lugares onde a sua música pode ser tocada afetou a maneira como você faz música?
Bem, em 2008 eu tinha uns 17 anos, ninguém ia me querer perambulando pelos clubes naquela época, né? Acho que tocar em todos esses lugares me fez perceber que eu provavelmente devia arranjar melhor as minhas músicas, mas no geral eu não gosto de seguir as convenções que a maioria dos discos que eu tenho seguem em termos de arranjos e coisa do tipo. Gosto que, às vezes, quando vejo um DJ tocar uma música minha, um dos kicks está meio fora e ele parece não conseguir mixá-la perfeitamente. Uma vez, o Gerd Janson me mandou um e-mail para me dizer que riu com uma das minhas “armadilhas para DJs”, como ele as chamou, que é quando, na metade do groove, eu simplesmente paro a gravação e coloco um fade para outro beat que fiz perto do fim da faixa. Não esperava mesmo que alguém fosse tocar as minhas músicas na pista, porque as faço com a ideia mais básica de house em mente, mas as intros de bateria, os breaks, os drops e tudo mais não entram nesse esquema.
No passado, você disse que não tinha muitos amigos que faziam música. A carreira como produtor e DJ não foi algo planejado?
Eu não diria que foi um acidente. Desde que me conheço por gente, sempre quis fazer algo dentro da música. Eventualmente, ficou claro que eu era melhor atrás da mesa, mexendo nos botões e produzindo coisas (depois de um show de talentos na escola em que toquei numa banda como vocalista e guitarrista), e desde muito novo eu era o cara que os meus amigos chamavam quando queriam gravar suas demos em fitas de 1/4 usando um gravador de rolo da Tascam ou me passar as stems para mixar suas faixas e coisa do tipo.
Mas, de certa forma, tocar ao vivo foi um aspecto totalmente surpreendente da coisa toda. Um agente do Reino Unido me falou no Twitter algo tipo ‘Você quer tocar na Europa?’, e eu só disse: ‘Claro!’. Mas não estou bravo com isso de forma alguma, tem sido muito divertido. Além disso, é legal tocar para pessoas que você investiu tempo e dinheiro para achar, e com as quais, em muitos casos, teve uma conexão profunda. Então você sai e vê outra pessoa ter a mesma reação que você – nada supera isso! Nunca vou me esquecer de quando vi esta garota surtando com “Go Bang” na primeira vez que toquei no Panorama Bar. Foi tão incrível, ela parecia não caber em si de felicidade em ouvir aquela música naquele momento, e eu me identifiquei totalmente. Uma dessas coisas esquisitas é que nós todos podemos nos comunicar através do sentimento, não só das palavras.
A sua música soa analógica, apesar de ser quase toda feita digitalmente. Você brincou uma vez que estava dando um upgrade no seu estúdio por ter comprado um mousepad. Já foi mais longe do que isso em termos de equipamento? Você de fato se esforça para fazer a sua música soar antiga e empoeirada ou isso é só uma consequência do processo de sampling?
Bem, eu minto o tempo todo sobre esse tipo de coisa. O meu som nunca foi 100% digital. Em algumas das faixas eu usei alguns elementos similares, mas geralmente eu só compro algumas coisas, faço umas músicas e depois as devolvo para a Guitar Center dentro da política de devolução de 45 dias. “Mad Disrespect” foi feita com um SP-303 e Logic Pro, mas eu também já fiz coisas usando só um aplicativo no meu celular chamado Sunrizer e um Octatrack, ou só no MPC2000XL e um mixer muito bom da Tascam. No fim, tudo é jogado no computador para ser mixado e tudo mais, mas no geral o processo é uma bagunça. Eu só uso o que tenho à disposição no momento. Eu poderia usar só o meu computador, mas a quem interessar, as três constantes têm sido: Space Echo, Boss SP-303 e qualquer guitarra elétrica com este programa chamado ‘MIDI to Guitar’, que permite que você toque uma guitarra como se fosse um teclado midi.
Quais são as novidades do Proibito para 2015?
Mais Huerco S, Hank Jackson, DJ Wey, algumas coisas minhas e, espero, alguns discos em parceria e de artistas novos. Com sorte alguns LPs também, mas isso provavelmente só deve acontecer em 2016.
Siga o Anthony Naples no Twitter ou confira o site do Proibito para mais informações.
Joe está no Twitter: @joerobots
Tradução: Fernanda Botta
More
From VICE
-

Illustration by Reesa -

Photo: moodboard / Getty Images -

Illustration by Reesa -

WWE via Getty Images