É Consenso?

Na quarta-feira fui conhecer as (nem tão) facilidades do 15.O.SP, braço paulistano do festival de ocupações apartidárias não piramidais e pacíficas por uma Era de Aquário na qual peixe nenhum vai ficar fora d’água. Já era o quinto dia que o levante contra a vida-como-ela-não-deveria-ser tomava de alojas o vão do Viaduto do Chá, no centro de São Paulo. Pelas redes sociais da militância avatar, a impressão era a de que forças opressoras marionetes da mão invisível tentavam a todo custo desvalidar e castrar e indeferir, sempre à revelia da grande mídia, aquela revolução em curso simultâneo com outros vários países. Isso era preocupante porque muito feio, daí a necessidade de registrar essa afronta antes que aniquilada e — ia rolar um show do Ordinária Hit!!!

Cheguei lá por volta das 16h30. Já do metrô dava pra ouvir apitos e gritos, e também enxergar sirenes de viaturas e motos da Polícia Militar (uia!). É que mais ou menos 30 manifestantes bradavam trollagens e rimas indignadas contra o Sistema na alça de retorno em cima do túnel do Anhangabaú.

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E avenida 23 de maio.

Desde que meu Canal Combate foi cortado que estou ansioso pra ver porradaria. Mas os guardas começaram pedindo aos inconformados que saíssem do meio da ruas.

Reforçaram com revistas e solicitações pra que alguns fornecessem seus RGs para “procedimento padrão de identificação”.

(O que no telefone sem fio da revolta se transforma em “fulano vai ser preso”, “não vou pra camburão nenhum”, “tão prendendo o jornalista!”, culminando na catarse gestual para registro perpétuo do “se for prender um, que prenda todo mundo”).

Até a PM se fazer entender com: “A partir de agora quem obstruir a via vai levar voz de prisão”.

“Pessoal, vamos sair da rua. Colabora com a polícia que a polícia colabora com a gente”, terminou um manifestante sugerindo. Daí que o embate acabou não sendo muito diferente dos que acontecem em clássicos do campeonato paulista — só que sem prisão nenhuma –, mas suficiente pra que no retorno ao acampamento os indignados começassem a tuitar sobre os louros da subversão à repressão.

E olha que bonito: “Muitos de nós gostaríamos de estar aí, mas de farda pega mal”, me disse esse policial. Fiquei convencido de que ele era gente boa.

Só que a atmosfera de tensão tinha certo motivo. Alguns dias antes a Guarda Civil Metropolitana gerou estresse, segundo os manifestantes, quando “demoliu” as barracas ali montadas e ordenou que o único banheiro seco do acampamento fosse desmantelado alegando “ocupação ilegal do solo”, além da recolha e proibição da ostentação de faixas e cartazes por causa da “Lei Cidade Limpa”. Ou seja: eles têm que cagar e mijar em banheiros de estabelecimentos próximos ou casas de conhecidos — e os que se preocupam com banho vão pras suas próprias residências.

Mas a Justiça já se manifestou sobre isso. Na quinta-feira (20), depois de já ter indeferido anteriormente, foi deferido parcialmente um mandado de segurança impetrado pela galera do movimento, autorizando a “utilização de carros de som, faixas, cartazes ou qualquer outra manifestação escrita” — sem que a polícia possa dizer o contrário –, porém exigindo a recolha das “fogueiras aventadas” e entendendo que a “permanência de barracas no local refletem a descaracterização do ato da reunião para o ato de ocupação de espaço público”. Ou seja: eles ainda têm que se virar no sereno pra mijar e cagar, mas agora com o papel mais escasso pra ter o suficiente na hora de expressar a indignação geral.

Às 18h30 começou o show. Já adiantando, foi a parte mais legal da excursão e, por acaso, a hora em que o vão do viaduto mais encheu. “A gente veio tocar aqui porque desde o começo estamos envolvidos com esses tipos de manifestações, que são importantes”, me disse o baterista. O clima virou tipo o de uma Virada Cultura, só que mais vazio e sem os bêbados e crackeiros chatos da porra — por consenso os manifestantes decidiram não permitir o consumo de bebidas e drogas nas dependências, mas nesse mesmo dia rolou o primeiro problema com um mendigo bêbado. Normal, ruas. (Ainda não foi levada à análise comunitária a presença de e transudos das artes circenses que não transam).

Aliás, artistas não arteiros, o espaço está aberto pra vocês.

Só depois de tudo isso é que de fato fui começar a conhecer o funcionamento da comunidade e o perfil da galera que estava por lá. Tem hacker, velho, morador de rua, autônomo ou partidário, gays — mas a média etária é de 20 e tantos anos. Na organização, tudo é dividido por comissões: a comissão de comunicação, segurança, cultura, infra-estrutura, cozinha… Nenhuma delas tem um chefe, que isso é coisa do filho bastardo do diabo com a Angela Merkel (lembrar que é tudo horizontal).

Daí vêm as assembleias, nas quais as coisas são decididas e comunicadas oficialmente.

Mas então, já falei que é tudo horizontal e sem líderes? Pois é, daí que não existe votação, e sim “consenso” pra cada pauta proposta, que são várias (porque o mundo não tá só ruim nem muito ruim, tá muito muito ruim, e apesar de se apresentarem como “indivíduos”, há entre eles membros de movimentos sociais e filiados a partidos — inclusive ouvi uma história de que uns Anonymous derrubaram o site de uma dessas agremiações partidárias depois de um desentendimento no sábado 15). Daí que os assuntos podem ir desde a legalização das drogas e aborto, passando por #foraRicardoTeixeira e NÃO à Copa do Mundo no Brasil, fagocitando também a tarifa zero pro transporte público e esbarrando na proibição do uso de armas na contenção de manifestações públicas.

Pelo menos era o que se dizia no que eu tinha lido por aí (alguns dias antes eles se manifestaram contra a construção da usina de Belo Monte com a participação de gente ligada ao movimento indígena). Mas na assembleia das 21h de quarta-feira os assuntos transitaram desde o balanço do dia até a diferenciação por faixas coloridas de cada comissão. “Nós ainda estamos nos organizando, aprendendo a viver em comunidade, vendo como vai funcionar nossa estrutura. Acho que talvez seja meio cedo pra começarmos a discutir temas com profundidade”, me disse uma manifestante.

Mas então, é tudo horizontal e sem lideranças, o que pode fazer com que uma discussão simples se arraste por um bom tempo. É que a regra é a seguinte: proposta a ideia, quem concorda deve levantar os braços pra cima e mexer as mãos emanando energias positivas; quem discorda deve cruzar os antebraços sobre a cabeça como um praieiro-solteiro-guerreiro-em-Salvador e, caso a plateia não esteja ouvindo o palestrante, deve fazer movimentos circulares com uma das mãos em frente ao rosto ao estilo surdo-mudo “Você. Mãit. Bonit.” Tem também um outro gesto de rodar os antebraços como se numa discoteca, mas que não lembro pra que servia — acho que pra redundância do interlocutor.

Pra infra-estrutura, funciona tudo pela doação, inclusive esse gerador — ainda que já tenha rolado uma caixinha uma vez pra comprar comida. Na terça-feira eles ganharam um fogão, e todo dia atualizam uma lista de necessidades divulgada no site, que já relacionaram desde alimentos a modens 3G — pra bancada de imprensa deles, que eles têm uma bancada de imprensa pra ter certeza que uma revolução não é uma revolução sem hashtag.

Enfim, fora tudo isso, é meio que isso. Saí de lá pelas duas da manhã, quando mais ou menos umas 30 pessoas ainda estavam aguentando aquele vento frio do cacete (meu celular dizia 22ºC). Por tempo indefinido, então, eles vão ficar ali. Dormindo ao relento, se aquecendo na companhia um do outro, cozinhando, fazendo artesanato, lendo. Tocando percussão, trocando ideia e dando cigarros pra moradores de rua. No sopão e malabares contra o pão e circo. Sendo vanguarda. Se ocupando com a ocupação.

Nesta segunda-feira eles completam dez dias de acampamento. O que prova que nenhum dos 300 manifestantes que circulam por ali durante um dia é Deus, que se fosse já teríamos descansado num divino edredom e despertado num mundo mais justo. Um mundo menos rude e mais plebe. Um mundo em que a farra (só dos banqueiros, tomara) acabou. Uma Terra de prosperidade e poder para o povo preto, pardo, amarelo branco, ruivo e de cavanhaque… Mesmo que ainda com mono-ciclos.

Mas enquanto a santíssima trindade não der as graças, talvez essas mudanças ainda demorem um pouquinho pra acontecer. E daí? “Não tem por que ter pressa. Não tem por que correr. A ideia aqui é debater e amadurecer ideias”, me contou um dos presentes em espírito que não Santo, dormindo lá, sobre o rio dos maus espíritos (é isso o que significa Anhangabaú em tupi, nome do rio que passa ali embaixo, do lado da prefeitura), desde o princípio.

Enfim, dá pra assistir ao show completo do Ordinária Hit no YouTube. Tá dividido em seis partes: 1, 2, 3, 4, 5 e 6. No sábado também teve discurso seguido de apresentação, não sei se exatamente nessa ordem, do Gog. E hoje, pelo jeito, tá rolando uma parada muito bonita e cinza, “ensaio de formatura” da PM, com uns 3 mil soldados do Xuxú bem na cara dos 300 de esperto.

Agora, se a revolução vai sair de lá ou do Céu, acho que ainda não há um consenso. Bom é que a primavera brasileira tá rolando bem lado do metrô, bem no centro da capital do capitalismo das capitanias hereditárias, na tentativa de minar os alicerces da infra-estrutura desigual de um país que — é verdade que o Criolo e o Dead Fish vão aparecer por lá algum momento em breve?

PS: Também já estão sob ocupação o Rio de Janeiro e Salvador.

TEXTO POR BRUNO B. SORAGGI
FOTOS POR MATHEUS CHIARATTI

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