
E existe mesmo. Essa criatura submarina tá no
Se você perdeu a primeira parte dos filmes-catástrofe brasileiros, clique aqui. Afinal de contas, é sexta-feira, ninguém quer trabalhar e o post anterior tem mais vídeos que esse aqui.
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PARADA 88 (1977)
Direção: José de Anchieta.
Parada 88 é tipo uma daquelas coisas que você quer gostar. Primeiro, é um filme de ficção científica brasileiro com ciborgues e tudo. Segundo, é do fim dos anos 70, quando o circo andava pegando fogo e muita coisa firmeza era feita. Terceiro, e mais importante: a trilha sonora é de ninguém menos que Egberto Gismonti, que além de tudo bancou parte do filme junto com a Regina Duarte, então namoradinha do Brasil. Ou seja, não tem como torcer contra.
Por uma contaminação bizarra causada pelo vazamento de gás de uma indústria cosmética, o ar da cidade é infectado. Isso obriga os habitantes da paulistana “Parada 88” a viverem soterrados na pouca luz subterrânea da cidade de plástico que, de tão convincentemente claustrofóbica, rendeu um prêmio de cenografia. O clima já é sinistro, mas a cereja do bolo do mal estar é a cobrança de uma “conta de ar”, executada por burocratas mascarados que podiam ter saído do Brazil de Terry Gilliam. Lá fora, dias antes do Réveillon, uma festa da pesada anuncia que “O século XX vai acabar”. A impressão, obviamente, é de que o século XX vai acabar, junto com todo o resto da história humana, porque daquele jeito não dá pra viver.
A catástrofe é tamanha que, não bastasse viver em uma cidade de plástico e ser pai de Regina Duarte – cega, a personagem de Joel Barcellos, ainda por cima, não tem dinheiro para pagar pelo ar que respira. É assim que ele se transforma num ciborgue: aceita o desafio de um programa de TV de se expor ao ar contaminado para resolver algum problema em troco de ar encanado e comida. Obviamente, ele se fode. Ganha pulmões biônicos e volta para casa, encontrando a filha estuprada pelos fiscais do ar. O pior é que ela gostou (tinha de ser a Regina Duarte). É aí que aparece a moral anti-moderna da história: o pessoal de Parada 88 – talvez do Brasil de ’79 – sofre de uma espécie de síndrome de Estocolmo, tomando seus malfeitores por protetores e aceitando o “progresso” às custas da própria dignidade. Então Joel Barcellos – pai, ciborgue e herói – resolve estourar os túneis de proteção para reencontrar o “ar livre” como quem diz: FODA-SE A INDÚSTRIA, QUEREMOS RESPIRAR. Goste você ou não deste discurso meio ambientalista, meio retardado, o filme é levado a sério e fica longe de um desastre.
A REVOLTA DE OCEANO ATLANTIS (1993)
Direção: Francisco de Paula
Por causa de chuvas incessantes e cabulosas — imagino que do naipe daquelas que aconteceram nesse ano –, o Rio de Janeiro de Oceano Atlântis ficou submerso, deixando só as pontas pra fora. Ou seja, só sobrou favela no mundo. Lembrou do Mike Davis? Pois é, eu também. Então, por causa da falta de espaço, a galera precisou começar a comer “algumas espécies de cachorro”, que nunca aparecem, e alimentos líquidos que “enfraquecem a população” . O rango firmeza mesmo – no filme, enlatado – ficou debaixo d’água, então Nuno Leal Maia, nosso herói, vai mergulhar para resolver o problema. Para isso, ele precisa fugir do hospício onde foi internado como esquizofrênico por tretas políticas com a marinha, que “naturalmente” se aproveitou da situação de alagamento para assumir o comando da cidade.
Apesar de ser o filme com mais proximidade com o gênero filme-catástrofe desta lista, você precisa de um pouco de boa vontade pra comprar a ideia do alagamento, já que o cenário é construído só com uns takes caretas de praia e uma ou outra imagem submarina. Mas isso se resolve quando Nuno cai na água e descobre que os “sem educação e sem cultura” não são os únicos sobreviventes. Enquanto vai atrás de resolver a fome dos favelados que ficaram para fora, o herói descobre que não só existe vida debaixo d’água, como é lá que ficaram preservados o bom gosto e a tradição — o clã descende de uma figura mítica x. Se a premissa meio Planeta Favela te deixou com comichão pra ver como os filhos da puta da marinha iam resolver a treta, a decepção não poderia ser maior. O chefão do fundo do mar conta que deus mandou um dilúvio querendo acabar com a depravação e aquela mesma papagaiada moralista de Ninfetas do Sexo Selvagem.
Francisco de Paula parece reconhecer a tosqueira de seu filme e estar bem puto com a situação geral, já que logo no começo rola um close no jornal onde se lê “Cinema – Trajetória no Subdesenvolvimento”. Vale lembrar que era 1993, e o governo Collor tinha acabado de acabar com a Fundação do Cinema Brasileiro, a Embrafilme e a Cocine tinham ido pro saco. Com o baixo nível geral da coisa, Dercy acabou papando um prêmio de atriz coadjuvante, e A Revolta de Oceano Atlântis escapou de passar completamente desapercebido.
CÉSIO 137 (1990)
Direção: Roberto Pires
Mesmo com todo o pavor inspirado pela instalação das usinas nos anos 70, o único acidente nuclear que tivemos foi muito menos “filme catástrofe” e muito mais Brasil: em Goiânia, catadores de sucata encontram no lixo hospitalar uma peça misteriosa, cheia de “pedrinhas brilhantes” que seduziram os catadores e acabam matando uma galera pela vizinhança. A história você já conhece, e o filme de Roberto Pires é um “docu-drama” baseado nos relatos de vítimas da região.
Césio 137 – O pesadelo de Goiânia, foi o último longa de Pires, que morreu de câncer logo depois. Coincidência ou não, o pioneiro do cinema baiano tinha noiado com a temática nuclear desde os primeiros rumores sobre a instalação das usinas brasileiras. Sua primeira investida no assunto foi um filme de ficção, Abrigo Nuclear. Infelizmente não conseguimos botar as mãos na maldita cópia, mas temos certeza de que é bom. Isso porque Pires foi um rei do artesanato e conseguiu, em 59, produzir o primeiro longa-metragem baiano. Então – ainda bem – Césio 137 não sofre de tosqueira ou amadorismo cinematográfico. Pelo contrário. Mesmo sendo um docu-drama (gênero maldito) com a presença de atores globais, ele presta, e muito.
Pires não estava para brincadeira e aparentemente temia uma catástrofe. Se meteu com cientistas de verdade, produziu vários documentários sobre os perigos da energia atômica e foi fazendo história por onde passou. Querendo ou não, o cabra acabou falando não só do “mau uso da energia nuclear”. Mais de uma década depois, Césio 137 – O pesadelo de Goiânia parece ter mais a ver com o descuido com a população goiana em geral que com um acidente pontual dos anos 80. O absurdo do fato real pode ter sido só a coincidência perfeita.
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