Filmes de Bolso



Vacas, Conde Ferreira, Airway to Steven, Autophobia, Conversa Mole, Castelo, Neuer Fruhling, Scratch, Friendly Fire, Light Travel, For Plus – X e Adormecido. São Filmes de Bolso e fizeram uma paragem por Guimarães.

Caso estejas a ser apanhado desprevenido, Filmes de Bolso são pequenas curtas experimentais em super 8mm, onde se exploram técnicas como o time lapse, o stop motion, a película riscada e pintada, a antítese musical, com efeitos irónicos, anestésicos  e hipnóticos. Descrição suficientemente interessante para nos arrancar do sofá e nos fazer arrastar os pés até à sala de projecções do CAAA.

O Barba, que anda a açambarcar prémios por esse mundo fora, também esteve por lá. Conta a história de um trio de personagens pré-históricos que habita ao redor de uma anta. Um deles, hiperactivo, tenta despertar emoções aos seus companheiros, através de invenções e obras de arte. Um estranho objecto em osso, que reenquadra a realidade, vai despoletar a cobiça e a inveja entre eles. Esta realidade soa-te familiar? Paulo Abreu é realizador deles todos.  E eu fui falar com ele.

VICE: A primeira vez que ouvi o teu nome foi pela boca de uma malta ligada ao cinema que te tem como um guru da 7.ª arte…
Paulo Abreu: Fico muito lisonjeado, mas não sou, de maneira nenhuma, guru de coisa nenhuma. Penso que eles acham piada a alguns filmes em super 8, com dois ou três cartuchos de película, que fiz e que passaram aí nos Filmes de Bolso.

Por falar nosso, há dias trouxeste a Guimarães, mais propriamente ao CAAA, os Filmes de Bolso. Pelo nome está-se mesmo a ver que são curtas e são várias. Que filmes de bolso são esses? Para além do tamanho exploram alguma temática em comum?
São filmes muito curtos que fiz com uma Super 8 e uns quantos (poucos) cartuchos de película. Exploram vários temas desde a religião, a guerra, a arte e Portugal.

Na descrição desta iniciativa li o seguinte: “[são] filmes experimentais em Super 8mm, onde se exploram técnicas como o time lapse, o stop motion,  a película riscada e pintada, a antítese musical, com efeitos irónicos, anestésicos  e hipnóticos.” O que queres dizer com isto?
É usar sons ou músicas que, aparentemente, não teriam nada a ver com a imagem, mas que acabam por a ilustrar ou comentar de maneira irónica, ou mesmo cómica.



Como andamos de cinema em Portugal? O Morangos Com Açúcar foi dos filmes que mais público teve nos últimos anos. Podemos tirar alguma conclusão disto?
Podemos tirar a conclusão que o grande culpado desse fenómeno é a intragável televisão que temos. Felizmente, quando era criança, o Fernando Lopes era programador no canal 2 e o Seixas Santos também foi, por isso houve uma geração que viu excelente cinema na TV, ao contrário de agora. Este tipo de filme ter muito público é uma coisa que me entristece, mas esses filmes nunca passarão de Badajoz, ao contrário de outros filmes de autor que fazemos. Não tenho nada contra que se faça filmes comercias (que esses sim, não deviam ser apoiados pelo Estado), mas deprime-me a qualidade dos que se têm cá feito.

E como andamos de cinema em Guimarães? 2012 fez desta cidade uma espécie de Guimallywood?
Guimarães é uma cidade muito fotogénica. Com os concursos parados e os incumprimentos do ICA aos filmes já apoiados, diria que Guimarães foi, este ano, a tábua de salvação para muita gente que trabalha em cinema. Além disso, é excelente para a cidade estar a ser filmada por tantos realizadores diferentes, com estéticas e linguagens completamente distintas

Trabalhaste em alguma destas produções CEC 2012?
Vou trabalhar em Novembro no filme do Bruno de Almeida.

Estás nas bocas do mundo com o Barba, um filme sobre homens das cavernas. O filme é uma alegoria do estado do país?
O Barba é uma alegoria sobre Portugal e a maneira como os portugueses se comportam colectivamente. Digamos que poderá ser uma espécie de cartoon.

O filme anda a arrecadar uma série de prémios por esse mundo fora…
Até agora ganhou o prémio do público no Festival Luso Brasileiro, ganhou também o prémio Melhor Fotografia e Melhor Direcção de Arte no Curta 8 em Curitiba. Esteve no Indie Lisboa e no Panorama Curtas Vila do Conde. Vai agora para o Recife, Montpellier e Dresden. Infelizmente, também deveria ir para outros festivais portugueses, como o do Faial, que foram cancelados por falta de apoios e cortes na cultura. O Pedro Bastos, vimaranense, é actor no filme Barba, assim como Jorge Quintela, director de fotografia, André Gil Mata e Frederico Lobo, realizadores. O Rodrigo Areias foi o produtor e o incansável Ricardo Freitas fez múltiplas funções.



Associo o teu nome ao cinema, mas também já andaste pela televisão e tens um projecto ligado à ilustração…
Fazia câmara há muitos anos, quando esse trabalho não era pago a preço de escravo, num programa sobre arquitectura e artes plásticas no Canal 2, que eram realizados pelo Luís Alves de Matos e o Edgar Feldman. Tenho uma dupla com o João Pedro Gomes e fazemos tiras de BD e animações satíricas (ele desenha, eu escrevo). Somos os daltonic brothers.

Se te quisermos pedir um autógrafo, quando e onde te poderemos ver por Guimarães?
Autógrafos é para as estrelas de rock e actores, não tenho nada contra, mas acho um pouco ridículo. Tenho estado aí volta e meia, gostava até de estar mais vezes também pelos pregos do Júlio, as malgas de vinho da Tasca Expresso e as caipiroskas do Danúbio. Eu moro em Lisboa, onde, infelizmente, já não há nada disso, pelo menos com essa qualidade e preço, espero que volte a haver.

Pergunta do milhão: qual o filme sem o qual o mundo não teria sido o mesmo?
Amarcord, pelo menos eu não seria o mesmo.

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