Joias Feitas de Gente Morta

Não sei porquê, mas existem vários designers de joias que acham que usar ossos de animais, penas e taxidermia nos seus trabalho é a coisa mais revolucionária de sempre. O que eles não percebem é que só um pequeno contingente de estudantes pseudo-hippies e bloggers de moda sem noção da realidade é que gosta desse tipo de coisas. Revolucionário mesmo é usar ossos humanos a sério e transformá-los em colares, pulseiras e anéis. Columbine Phoenix toca uma empresa chamada Sunspot Designs, especializada em joalheria gótica, com um aspecto assustador. Mas foi a sua linha Churchyard—feita de restos humanos—que nos chamou a atenção. Conversei com a Columbine pra tentar saber onde é ela arranja os ossos e quem costuma comprar esses tipos de peças.


Columbine exibindo um colar com um osso metacarpal e um brinco com um osso do dedo de uma mão.

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VICE: Olá Columbine. Tudo bem?
Columbine:
Muito bem, obrigada. Estou tirando o fim de semana de folga, o que, nessa altura do campeonato, é um grande luxo.

Ainda bem. Então, quando você começou a se interessar por joalheria?
Bem, ainda quando criança, adorava coisas brilhantes. O meu irmão e eu costumávamos brincar de piratas, e roubávamos a coleção de botões com brilhantes da minha avó. Na época do colégio, aderi a todas as modas: aquelas pulseiras da amizade feitas com fios coloridos, pulseiras de missangas com bordados intrincados e coisas assim, mas logo deixei de me interessar pelo tipo de coisas que todo mundo fazia. Comecei a fazer joias com conchas, penas, tudo o que conseguia encontrar na natureza. Sempre gostei mais de pormenores e de dar atenção à beleza que já existe nas coisas, em vez de andar por aí fazendo lírios dourados.

Então assumo que os ossos humanos eram, logicamente, o passo seguinte, não?
Sim. Um amigo meu que estava na faculdade de Medicina me disse que o departamento dele estava tentando renovar a sua coleção e me perguntou se eu queria comprar alguns ossos para o meu trabalho. Me mostrou eles, e foi amor à primeira vista. Marfim feito em casa! Foi como ver as primeiras fotografias que os astronautas tiraram da Terra vista do espaço. Fiquei pensando: “estes somos nós, somos todos nós. Cada um de nós é um milagre vivo, um milagre que respira.”

Então você diria que as suas peças são uma celebração da vida e não da morte?
Sim, definitivamente. Apesar de eu não encarar a vida e a morte como opostos. A morte é uma parte da vida. Ninguém morre a não ser que esteja vivo e, se não acabássemos todos eventualmente morrendo, muitos de nós não chegaríamos a viver.

Ah, sim. Isso é verdade. Você sempre gostou dessas coisas assim mais assustadoras ou os ossos são uma paixão recente?
Cresci do lado de um cemitério muito antigo, e adorava tirar fotos e colecionar pedaços de túmulos antigas. Escrevi canções e poemas sobre sereias, gárgulas e fantasmas—sempre fui apaixonada pelo supernatural, mas de uma forma respeitosa. Acho que é de mau gosto perseguir fantasmas e incomodar os nossos ancestrais só pela farra.

Você era gótica ou do black metal, ou algum desse tipo de coisas que geralmente associamos às pessoas que curtem visitar cemitérios?
Fui definitivamente gótica. Cheguei a promover shows durante alguns anos, mas, devido ao meu sentido de honra Klingonesco—sim, também sou apaixonada por ficção científica—não conseguia lucrar nada com isso porque teimava em fazer jogo limpo. Sempre me interessei pelo lado mais etéreo e neoclássico do gótico, apesar de também apreciar certas bandas mais rock. Também gosto de música antiga: barroca, eclesiástica e assim. Quem não gosta de ouvir Hildegard von Bingen, não é?

Sim, suponho que sim. Mas de volta aos ossos, de onde eles vêm? Você não anda por aí roubando túmulos, né?
Não, não! Eu compro de fornecedores específicos que, por sua vez, os compram das faculdades de Medicina e dos museus que precisam angariar dinheiro e atualizar as suas coleções, ou que decidiram optar por modelos acrílicos mais uniformes e que custam menos pra serem mantidos. É ótimo doar o nosso esqueleto à universidade onde vamos, mas se tivermos fraturado o tornozelo andando de skate quando tínhamos 12 anos, poderá não ser o melhor exemplo para um calouro de Anatomia.

Ah, então assumo que não existe nenhum registo de a quem pertenceram os ossos?
Exato. Existem pessoas que costumam perguntar: “Sabe quem era essa pessoa?” Mas nem sei se era homem ou mulher. A única coisa que posso dizer é que provavelmente vinham de uma família que não vivia mal, uma vez que tiveram a oportunidade de seguir uma educação superior.

Como assim? Só as pessoas com formação é que doavam o corpo à ciência?
Não, esses não foram doados à ciência, mas sim à educação. Quer seja universidades ou museus. Portanto, suponho que a maioria tenha sido exposta a boas fontes de aprendizagem.

Reparei que as joias que você põe nos ossos são todas, de certa forma, simbólicas. Qual é a que tem mais significado para você?
Bom, pra ser honesta, não costumo planejar isso. Por vezes um osso me sugere um tipo particular de pedra preciosa, ou uma joia me mostra que quer fazer parte daquele osso. Se não nos apressarmos, se formos respeitosos e silenciosos, acabamos descobrindo que a beleza tem uma linguagem própria que se manifesta através do toque e da imagem. Apesar de que uma das minhas peças preferidas de todas era uma pedra de turmalina melancia—uma das minhas joias preferidas, que se cristaliza em anéis concêntricos de cores lindíssimas—suspensa no centro de uma vértebra, onde a medula deveria estar. Batizei Signal, e estou pensando em fazer outra peça deste tipo em breve. Me faz pensar na mensagem primordial da vida, que passou da sobrevivência à consciência, a outras coisas como a dança e o trabalho. Coisas que, como seres humanos, todos partilhamos.

Certo. Quem é que costuma comprar as suas peças? Você tem alguns clientes mais fiéis?
Acho que a maioria da minha joalheria feita com ossos é comprada por médicos, especialistas em raio-x e outras profissões relacionadas com Medicina, porque apreciam o corpo humano como a maravilhosa obra-de-arte da engenharia que realmente é. Mas já tive outros clientes, tipo um soldado que queria assustar uns mauzões e claro, algumas pessoas que querem usar esse tipo de jóias em discotecas góticas.

Sabe se esse tipo de joalheria é popular nos círculos pagãos?
Não, acho que não. Muitos pagãos se sentem desconfortáveis com isso. As peças em osso não são as mais populares entre as que faço, e é preciso uma pessoa especial para saber aprecia-las. É como aquela citação famosa nos túmulos da Nova Inglaterra—”Assim como eu estou, também tu estarás”. Nem todo mundo consegue aceitar. Nem todo mundo tem a capacidade de viver apenas para o dia de hoje, e muita gente não se sente confortável com isso.

Alguma vez você teve pedidos especiais? Pessoas que te mandaram os ossos dos entes queridos, ou algo assim?
Só uma vez. Uma amiga minha queria brincos com os dentes do siso do seu ex-namorado e, na verdade, essa foi a única vez em que soube alguma coisa sobre o dador. Pusemos os dentes num caldeirão com sal, enquanto eu fui à procura de algum incenso. Demos um bom banho de fumo para liberar as energias negativas. Os dentes não tinham sido extraídos amigavelmente. Mas quando ficaram limpos, deram uns brincos bem bonitos.

Você tem que limpar a energia de todos os ossos que recebe antes de os transformar em alguma coisa?
Não, essa foi a única vez que eu senti necessidade de fazer isso. Já me ofereceram ossos a um preço mais barato, mas eu nunca os aceito porque muito provavelmente foram roubados de túmulos. Esses ossos, suspeito eu, podem estar embebidos em energias seriamente negativas, e é óbvio que eu não quero encorajar esse tipo de comportamento. Mas, na sua grande maioria, os ossos que recebo pertenceram a médicos, enfermeiros, cientistas e professores—pessoas que, provavelmente, não eram supersticiosas o suficiente para se transformarem em fantasmas. Com os ossos que recebo dos meus fornecedores de confiança, nunca senti a necessidade de libertar as energias negativas.

POR JAMIE CLIFTON VICE ST
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR

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