Turnê Literária

[Nota do editor: conheci o Paul alguns meses atrás num evento sobre narrativa, mas ele já fez algumas coisas para a VICE antes. Ele é um desses punks sorridentes e excessivamente otimistas da Flórida que têm o corpo coberto de tatuagens e são sempre legais com todo mundo, então, achei que ele nunca tinha estado “na merda”. Depois ele me contou uma história sobre ter sido feito refém por bandidos brasileiros armados num assalto malsucedido a um ônibus e calei a boca rapidinho. Ele acabou de mandar pra gente as fotos que fez na turnê de lançamento do And Every Day Was Overcast, seu romance ilustrado sobre crescer entre apetrechos de pesca e drogas em Loxahatchee, Flórida. Quem já fez alguma turnê de lançamento de livro sabe que essas coisas são regadas a queijos, vinhos e drogas feias, então, parabéns ao Paul por ir até o limite dessa responsabilidade chata. Divirta-se!]

Rainelle, Virgínia Ocidental

Videos by VICE

Kelly tenta tirar uma foto de uma borboleta que ficou presa no limpador para postar no Instagram. Quando ela está prestes a clicar, espirro água no para-brisa. Isso vai me valer outra hora de silêncio. Estou dirigindo de Nova York para Mineápolis, onde começo a turnê de lançamento do meu livro, mas a primeira parada é na Virgínia Ocidental, para deixar a Kelly na casa da tia.

Gosto de pessoas que sabem quando diminuir suas expectativas. A Kelly é o tipo de garota que ajuda a pagar a gasolina com as notas de US$20 enroladas e amassadas contra sua bunda. Em Nova York, fizemos sexo só uma vez e nunca mais. Ela disse que minhas mãos eram muito frias e que era nojento eu dormir de meias.

Hoje somos parasitas mutualistas. Ocasionalmente, quando todos os nossos amigos somem, a gente recai um sobre o outro. Não há um círculo de amigos em comum entre nós, então podemos fazer qualquer coisa juntos e não há repercussões.

Viagens de carro são o grande teste de qualquer amizade. Fico aliviado quando a deixo na casa da tia.

Hoje fico num quarto com temática de nicotina num hotel em Rainelle. A noite inteira assisto ao único canal que pega, ID: Investigação Discovery. Uma rede inteira de entretenimento sobre crimes reais, composta exclusivamente de reconstituições escabrosas, filmagens de julgamentos, ligações para o 911, tecnologia de ajuste de tamanho de imagem, fotografias de cenas de crime, apresentadores macabros, vídeos caseiros e álbuns de família cheios de lembranças. Nos anos 1990, o protótipo para todos esses programas era o America’s Most Wanted. Isso foi meu filtro de infância para a topografia social da Flórida — como uma série de stills granulados de pornô amador e fotos de criminosos.

Saint Paul, Minnesota

Dirigindo pelos subúrbios razoavelmente luxuosos de Saint Paul, não consigo deixar de imaginar um episódio do programa 20/20 chamado “Merlot pela Manhã”:

O segredo é revelado: Mães que passam o dia com a pequena ajuda de uma garrafa.

Elizabeth Vargas reconhece a coragem dessas mulheres em abrir suas casas e permitir serem filmadas bêbadas e vulneráveis. Há uma pausa quando ela menciona que elas podem ter aparecido para as entrevistas chapadas.

O público vê então uma série de imagens matinais se dissolvendo, uma cerca branca, azaleias pink e casas suburbanas. Enquanto uma das mães travessas está tirando o carro da garagem, Elizabeth fala sobre como essa hora do dia devia ser um momento feliz. Vemos outra montagem de fotos pessoais da mamãe como política e esposa funcional no passado. As fotos se distorcem como se estivessem numa bola de cristal.

A vida de uma mãe e dona de casa vai do pinot no parque ao merlot pela manhã.

A mãe número um pergunta: “Por que tento lutar contra esse desejo de beber vinho logo de manhã?”.

Novamente, Elizabeth interfere. A verdadeira pergunta é: Por que vinho e não uísque? As garrafas são menos vergonhosas.

Elizabeth nos lembra que não é somente uma mãe safada — mas um bando delas. Uma conspiração se desenrola.

FADE OUT

Mineápolis, Minnesota

Estou em Ramada pela primeira vez, uma parte do país onde nunca estive antes. A periferia de todas as cidades americanas é igual: nem cidade nem condomínio, um ponto de partida, um armário de vassouras industrial aonde as coisas nunca são encontradas. Da minha janela, vejo uma estrada industrial chamada Estrada Industrial. Os caminhões são filtrados através de uma estação de carregamento, depois emergem de volta na rodovia. Os únicos prédios são postos de gasolina e Burger Kings. Sinto como se já tivesse estado aqui antes.

No térreo, há uma piscina e um espaço adjunto de escritório remodelado como academia. Espio pela porta de vidro entreaberta. Sentado na beira de um banco está um cara que me lembra uma versão mais marginal do Billy Bob Thornton em 2003, mas pós-Angelina. Ele tem uma pele bem cuidada com um ar afeminado, uma barbicha desenhada, aquele tufo de barba embaixo do lábio e um brinco de diamante. Não consigo deixar de imaginá-lo como um músculo trêmulo rosado usando uma máscara inexpressiva de lixo europeu. Mantemos o contato visual enquanto recuo e ando até o elevador.

Hoje é o primeiro dia em que falarei com o público e estou nervoso. Engulo um Xanax com doses de uísque no bar vietnamita vizinho à livraria. Evito os rostos apáticos da plateia deixando de usar meus óculos. Tudo que vejo é um borrão de massinha rosa indo da primeira fileira até a porta. Depois de ser apresentado, apago. Eu sei que deveria haver uma lista de reflexões: fatos, ficção, realidade, memórias e inseguranças da infância. Em vez disso, murmuro um non sequitur sobre tomar ácido no Epcot quando era moleque. Espero que o público esteja chapado o suficiente para entrar nessa onda esfarrapada.

São Francisco, Califórnia

Este quarto cheira a ácido sulfúrico e musgo. O muro diretamente em frente à minha janela é de uma clínica de AIDS. Adoro que as partes divertidas e decadentes de São Francisco estão direcionadas à arte. Imagino que a cidade inteira tenha sido criada por um gay bombadinho nervoso gritando em um megafone com um elenco de crust punks, fodidos, hippies residuais, vagabundos, mendigos e baladeiros que mal sobrevivem à diversão. “Vamos precisar de, tipo, mais uns quatro caras fumando crack ali perto do Burger King. Cadê o cara loiro de dreads? Isso, Aaron — cadê o Aaron, porra? Uma sugestão minha, preciso que todo mundo aja 50% mais espírito livre!”

Estou fazendo uma apresentação juntamente com o escritor e fotógrafo Scot Sothern sobre conteúdo explícito na literatura e fotografia, seguido por uma sessão de perguntas abertas ao público — em geral, a deixa para um silêncio desconfortável. No final, a sala lotada se esvazia tão rápido que não faço a menor ideia para onde todo mundo foi. Na sala ao lado, onde eu deveria autografar livros, uma garota quase bonita do público quer saber se pode me fazer uma “pergunta pessoal”. Se sou circuncidado e, se sim, se isso torna o sexo mais prazeroso. Os irmãos delas nasceram no México e não são. Digo a ela para não passar tanto tempo pensando no pau dos irmãos.

É difícil não ficar chapado em São Francisco. Depois de duas semanas, já entendo perfeitamente quando as pessoas começam a falar de energia negativa e sobre não se sentir preso à terra. Algum dia, São Francisco vai se desancorar, se soltar de suas fundações. Partes da cidade vão descascar, flutuar para longe da costa e ascender a altitudes catastróficas.

Los Angeles, Califórnia

Estou num YMCA em Palisades tentando fazer passar o efeito de um brownie de maconha que alguém me deu numa festa numa casa em Venice ontem à noite. Como não tenho o grau de atenção necessário para correr lá fora, tento correr agarrado numa esteira em frente a um espelho, me olhando nos olhos. As pessoas realmente gostam de se ver correndo? A única direção para onde posso desviar o olhar é para uma fileira de televisores acima. Todos estão passando outro programa do Investigação Discovery chamado Desaparecidos. O episódio de hoje é sobre uma garota negra chamada Mitrice Richards que foi presa em Malibu depois de um surto psicótico, que acabou com ela tentando fugir de um restaurante sem pagar a conta. Naquela noite, ela é liberada de uma delegacia isolada e remota, batizada muito apropriadamente de Lost Hills Sheriff Department. Ela desaparece.

Relatos de possíveis avistamentos começam a aparecer. Alguns dizem que a viram dormindo num pátio em Malibu Canyon e cerca de 70 pessoas dizem tê-la visto em Las Vegas. Não há provas definitivas de seu paradeiro, até que seus restos parcialmente mumificados foram descobertos um ano depois, espalhados por uma ravina a 12 quilômetros de onde ela foi liberada. O caso dela se torna um fracasso nacionalmente reconhecido da polícia e um subsequente banquete para a mídia. São tantos pontos para ligar que eles formam setas apontando para direções opostas. Alguns culpam a polícia; outros dizem que foi um acidente de doença mental só esperando para acontecer. O caso dela permanece sem solução.

Quando canso de correr, fumo um beck em meu carro no estacionamento e assisto a um vídeo de Mitrice no celular. Ela está num palco, falando com o apresentador de um concurso de beleza. O apresentador pergunta que avanço tecnológico ela gostaria que nunca tivesse sido inventado.

“Celulares”, diz Mitrice, “apesar de eles ajudarem quando você está preso em algum lugar e precisa contatar sua família, eu queria que eles só pudessem fazer chamadas de emergência”. Quando foi liberada, à uma da manhã num bairro que não conhecia em Western San Fernando Valley, ela estavam sem sua carteira e seu celular.

Na cena seguinte, ela anda pelo palco usando um vestido de gala branco cintilante, brilhando cubisticamente na minha tela pixelada.

Malibu, Califórnia

É uma questão de física. O ar do deserto se afunila através dos cânions cobertos de arbustos, aquecendo o ar através de compressão. Aqui, estou insulado pelas Montanhas Santa Mônica. As cidades são uma dimensão paralela em que estou tendo problemas para reentrar.

Minha turnê de lançamento acabou em Los Angeles depois que minha exposição numa galeria foi cancelada. Vou ficar um mês em Malibu vivendo do dinheiro que ganhei vendendo minhas impressões para um colecionador de arte. Fora o adiantamento do livro, essa é a primeira grana que faço com arte. Sinto como se tivesse me safado de alguma coisa. A culpa tem vida curta.

A ideia de me afastar da depressão sazonal, alugando um pequeno apartamento de um quarto em Malibu, parece uma boa ideia. Posso sublocar meu apartamento no Brooklyn para europeus de férias pelo dobro do que pago. Eu realmente posso ganhar dinheiro ficando aqui, fazendo nada?

A aclimação a Los Angeles é mais difícil do que eu esperava. Raramente saio do meu apartamento. As ruas cheias de vento de Malibu me dão tontura. Minha mente nunca está clara. Para contrabalancear a náusea, bebo muito. Olá, merlot matutino! À noite, não consigo dormir e dou caminhadas bêbadas pela Piuma Road através do vale. De dentro do cânion, o pacífico soa como uma respiração pesada. A falta de restrição da natureza aqui é paralisante.

Para me recompor, fumo embaixo das pontes da lagoa. Elas me lembram os viadutos da Flórida onde eu costumava ficar com meus amigos. Os grafites parecem inspirados em Mitrice. As autoridades tentaram limpar as pichações, mas ainda é possível ver as imagens: versões idênticas de uma mulher negra de cabelo afro — similares à foto de Mitrice na noite em que foi presa. Não consigo dizer se foi apenas um artista ou vários. As imagens são sexualizadas, brutas como arte pop rupestre retratando uma deusa negra.

Em algumas delas, ela emerge de sua própria vagina. Em outras, os corpos femininos estão torcidos em letras: JOIF. Procuro por “joif” no Urban Dictionary; significa “ser atingido violentamente” ou “pular dentro rápido”.

Na minha cabeça, reconstituições ao estilo Desaparecidos se misturam com murais e filmagens de concursos de beleza. Partes dela se juntando, convergindo num todo.

Encaro sua figura distorcida, esperando que, se eu olhar tempo suficiente, a imagem se rearranje numa mensagem.

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Paul Kwiatkowski

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