Os auto-retratos de Beatriz Mariano são uma janela para o poder da mulher sem concessões às normas
Todas as fotos cortesia Beatriz Mariano
Fotografia

Os auto-retratos de Beatriz Mariano são uma janela para o poder da mulher sem concessões às normas

"Para mim, a forma feminina é mais impactante. Não apenas visualmente - é poderosa por ser tão fluída".
9.3.18

Abre-se a sua página de Instagram e são só fotografias de mulheres. Olha-se melhor – não são mulheres, é uma mulher. A mulher, a própria da artista. Ela fotografa, é a modelo da fotografia, a maquilhadora, é quem faz e montagem dos cenários e quem edita tudo no fim. Um verdadeiro one woman show – mais apropriado para esta altura em que se assinala o Dia Internacional da Mulher era impossível.

Nas suas fotografias vemos uma mulher forte - e para alguns, se calhar, até intimidante - pela sua confiança, alternativa pela sua maquilhagem escura e perucas de cores, mística pelas ocasionais orelhas de elfo e olhos brancos ou pretos, potente (e poderosa) pelo desafio à norma social. Uma mulher que transmite tal confiança na sua feminilidade que esbate as barreiras de género, indo muito além do que poderíamos estar à espera de encontrar no Instagram de uma fotógrafa de 23 anos.

Para além do sucesso global das suas imagens - e dos 133 mil seguidores no Instagram e mais alguns milhares noutras redes sociais - Beatriz é também vocalista de uma banda metal. Sempre estudou e trabalhou ao mesmo tempo, ouvindo comentários como "Mas então e ninguém te ajuda? Tens força para montar aquilo tudo? Não tens um homem na equipa?". Segundo ela, não tem nem precisa - ser mulher não implica condições ou limitações e o seu trabalho é prova disso. Falámos com ela.

VICE: Com que idade é que percebeste que a fotografia era a tua paixão?

Publicidade

Beatriz Mariano: Desde sempre tive um fascínio por fotografia e vídeo. A minha família tem cassetes em que apareço eu, com cinco anos, frustrada porque em vez de ser filmada queria ser eu a filmar. Mas, foi no Secundário, quando fui introduzida ao Photoshop pela minha professora de desenho, que tive a certeza da minha paixão.

A principio a minha reação foi que nunca precisaria de usar o Photoshop (o que agora é bastante irónico), mas quanto mais explorava o programa mais o interesse crescia. E nunca mais parei de explorar todas as vertentes e componentes da cultura visual, a mexer com tudo o que envolve fotografia e vídeo. Só depois de aprender a fazer tudo sozinha é que me foquei na fotografia, no 12º ano. Tive a sorte de ter uma família e professores que sempre me apoiaram – bem, só a partir do Secundário, antes disso o processo para descobrir a minha área foi um pouco traumático.

Quando é que começaste a fotografar e editar com uma estética tão própria?

Desde sempre que foi esta a estética com que trabalhei. Rejo-me pelo lema “be yourself, go big or go home” e, por isso, sempre me dediquei a desenvolver-me, literalmente, a mim própria. Passo horas e horas a explorar tudo o que está relacionado com a imagem, mas sempre com o objectivo de me poder afastar o máximo possível de tudo aquilo que já foi feito. Focar-me em desenvolver os meus gostos, as minhas influências, para que o meu trabalho reflicta exclusivamente a minha identidade visual e artística. Todos nós, artistas, procuramos o nosso próprio caminho. Num meio em que tudo já foi feito, onde tudo já existe, conseguir afastarmo-nos do status quo parece quase impossível – mas eu não sou de me ficar.

Publicidade

O que mais te atrai nesta estética mais gótica?

Não descrevo a minha estética como gótica, o meu estilo pessoal enquadra-se mais no alternativo metalhead. Se bem que também faço trabalhos que puxam mais para o gótico, mas é sobretudo a pedido dos clientes para quem faço as imagens. Acho que uma das características do meu trabalho é ser camaleónica, adaptar-me ao que me pedem e ao que se procura no mercado de trabalho.

Qual a mensagem que pretendes transmitir através das tuas fotografias?

Não tenho necessariamente uma mensagem a passar, no sentido em que não faço as minhas fotografias para espalhar algum tipo de lição. Faço-o para me expressar a mim e ao que me dá mais gozo, faço o que faço pelo prazer que me dá. Contudo, algo em que acredito e que aconselharia sempre é o “faz por ti”. Disseram-me tantas vezes que nunca iria conseguir chegar a lado nenhum, que ser artista não é nada, que devia concentrar-me numa “carreira a sério” (whatever the fuck that means).

Mas, consegui pegar nestas críticas e usá-las para me fazer mais forte. Não só segui o meu sonho, como o faço completamente sozinha: fotografo, sou a modelo e ainda edito. O meu trabalho é 100 por cento meu, por isso se tiver algo a dizer ao Mundo é exactamente isso: não se deixem ir abaixo, lutem e mantenham-se fiéis a vocês próprios.

És a modelo e a fotógrafa, um verdadeiro one woman show. Como é que só te fotografares a ti própria marca o teu trabalho?

Publicidade

Neste momento acho que marca mais o meu trabalho comercial que o conceptual – não que não seja igualmente apreciado, mas reconheço que as minhas imagens têm maior projecção no âmbito comercial. Tenho trabalhos - como por exemplo o meu auto-retrato vestida de freira com os olhos pretos, que fiz em colaboração com a Dolls Kill - que chegam aos milhões de reblogs/reposts entre Instagram, Facebook, Tumblr e até Youtube.

É uma sensação esmagadora, a ponto de nem conseguir processar como é que o meu trabalho chegou a tanta gente – sei de mais de 50 pessoas que têm a minha imagem tatuada! Há partes más, claro, como perfis falsos e marcas de roupa a roubarem-me as imagens [Nota do editor: é por isso, e a pedido expresso da Beatriz, que todas as imagens que publicamos neste artigo têm a sua marca de água].

Mas, o lado positivo é o do reconhecimento - cada vez mais tenho quem proteja o meu trabalho, quem me avise de possíveis roubos e cada vez mais gente a seguir e a apreciar o que faço. Não há palavras para descrever o que sinto quando recebo apoio de mulheres influentes, como Kat Von D ou a Sónia Tavares, o meu coração até salta! Dou por mim a pensar “Calma, então ao concentrar-me em mim própria acabei por chegar a pessoas que sempre me inspiraram?!”.

És fotógrafa mas também és vocalista numa banda. Como é que a tua música e a tua fotografia se ligam?

Acabam por se ligar, porque ambas são a expressão das minhas ideias, ainda que na música seja mais através da construção de pontes comuns com os outros elementos da banda. Sempre tive um estilo que costuma ser descrito como visualmente agressivo e obscuro e, na música, acaba por ser exactamente o mesmo.

Adoro death e black metal, sou muito influenciada por bandas como Morbid Angel, Obituary, Death, Demonic Christ… podia ficar o dia todo a falar disto. A nossa banda, Okkultist, surgiu num momento em que estava a precisar de uma ruptura como artista. Na fotografia expresso muito sensações como raiva e ódio – isto no meu trabalho conceptual – e na música acaba por ser o mesmo, falamos muito sobre a nossa repulsa ou desprezo pelos dogmas sociais. Não nos regemos por leis nem dogmas - no gods, no masters!

Para além das redes sociais, onde mais expões o teu trabalho?

Quando, inicialmente, comecei a expor o meu trabalho era completamente anti redes sociais. Tinha um telemóvel Nokia antigo e recusava-me a aceitar que precisaria desse tipo de plataformas. Tinha um pensamento old school nesse aspecto. Mas, com o tempo, com os trabalhos que fui fazendo e as pessoas que fui conhecendo, comecei a perceber que, na era que vivemos, estar offline é quase como não existir. Aí virei as metodologias e passei a aproveitar as tais plataformas sociais como portfólio, como exposições online.

Publicidade

Ainda só tens 23 anos, por isso muito estará para vir de certeza. Alguma ideia de que caminho queres seguir na tua arte?

Honestamente, não faço ideia. Não sou pessoa de criar muitas expectativas para o futuro, sou mais de me focar a 100 por cento no aqui e agora. Invisto tudo o que sou e tudo o que posso dar em qualquer coisa que faço, seja fotografia, vídeo, ilustração, maquilhagem, construção de cenários, ser modelo ou música. Sou uma workaholic, comecei a trabalhar muito cedo e estudava ao mesmo tempo. Tenho no currículo mais de 50 nomes com quem trabalho ou trabalhei em apenas cinco anos, em que apenas três deles são portugueses e posso dizer que, ainda assim, concluí o mestrado no final do ano passado sem nunca deixar nada para trás. Sempre achei: para quê fazer uma coisa só, quando podemos fazer mil?

Segue o trabalho de Beatriz Mariano no Instagram, no Facebook, no Youtube, no seu site e onde mais a apanhares. Abaixo podes ver mais algumas das suas fotos.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.