Os motivos que levaram cada uma das quase duas mil pessoas às ruas do Centro de Salvador no primeiro dia de fevereiro eram diversos, mas uma vontade parecia ser unânime ali: ver João Henrique fora da prefeitura da capital baiana. A indignação podia vir da sanção da Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo (Louos), do asfalto esburacado, do abandono da orla sem barracas nem nada, da sujeira inundando a cidade, do trânsito insuportável, do não-metrô… O que valia era botar pra fora o desejo do “Desocupa, João!”.
Por volta das 16h, a movimentação em frente ao Teatro Castro Alves, no Campo Grande, já era intensa. Pouco menos de uma hora depois, os participantes do movimento seguiram pela Avenida Sete em direção à prefeitura. No percurso, o carro de som mandava um pagode classe A dedicado especialmente ao prefeito com versos como “Sai pra lá, seu fanfarrão!” e os manifestantes se revezavam no microfone com suas reivindicações. Um grupo de moradores do Quilombo do Rio dos Macacos (região próxima a Salvador) estava presente e chamou atenção para situação crítica que eles enfrentam: a Marinha do Brasil instalou no local um condomínio de sub-oficiais e, desde então, as famílias da área tem sido desalojadas e perseguidas. É uma guerra silenciosa a um grupo de famílias negras descendentes de escravos que já viviam ali muito antes da chegada da Marinha. O revoltante caso da comunidade de Pinheirinho (SP) também foi lembrado diversas vezes nas palavras de ordem ao microfone ou longe dele.
O rolé pela Avenida Sete seguia tranquilo, até que, ao chegar próximo à praça Castro Alves, os participantes foram surpreendidos pela Polícia tentando atrapalhar o fluxo da passeata. Mas… surpreendidos? Qual a novidade em encontros hostis entre Polícia e manifestantes? Acontece que, na noite anterior, a Polícia Militar havia declarado greve na Bahia. Ah! Mas pra proteção da prefeitura sempre haverão cidadãos exemplares dispostos a trabalhar independente de greve da categoria, né! Mas, num gesto lindo de se ver, geral ignorou a presença dos homens da lei e a marcha seguiu firme seu percurso. O carro de som e seu pagode ficaram pra trás impedidos pela viatura, mas isso não mudou lá muita coisa. Chegando na prefeitura, a recepção foi feita por mais militares (e a greve?) cercando e bloqueando a área à frente do prédio, junto com mais alguns engravatados e membros do Grupo de Operações Especiais (GOE) sem as devidas identificações em seus fardamentos – porque será? Esqueceram?
O barulho foi grande e seguiu incomodando por quase duas horas, inclusive estendendo a discussão para cobranças ao governador, vereadores e presidente, mas, em sua covardia característica, a prefeitura e seus representantes fingiram não estar vendo nem ouvindo nada daquilo. Aliás, o secretário de comunicação, Diogo tavares, até já declarou que “não falarão sobre o Movimento”. Não se sabe até quando eles vão ignorar o “Desocupa, João!” e o estado lamentável em que Salvador se encontra, mas os efeitos colaterais desse descaso continuam a surgir e se espalhar. E, pelo visto, não vai parar!
Leia aqui sobre a manifestação que aconteceu no dia 20 de janeiro.
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Tiozão mandando o verbo
Fernando Gomes

Mulecada participando da passeata
Fernando Gomes

Tendeu, né! Se saia!
Fernando Gomes

Vaza!
Fernando Gomes

Viatura impedindo a passagem do carro de som
Fernando Gomes

Mas só tentou
Fernando Gomes

Polícia cercando a prefeitura
Fernando Gomes

Indiganação, revolta ou coisa que o valha
Fernando Gomes

Anonymous?
Fernando Gomes

Realmente, o problema é bem maior
Fernando Gomes

Identificação? Hein?
Fernando Gomes

Aquela coisa né… jogue o lixo no lixo
Fernando Gomes
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