
Float
High Times Records / Nature Sounds
8/10
Um bom álbum de hip-hop deve ter o seu território bem definido, mas longe de estar absolutamente garantido. Inevitavelmente, um MC conformado com as suas conquistas não tem o instinto (e o rendimento) de um outro com motivos para olhar por cima do ombro. Leva isso também a que os discos de hip-hop aburguesados sejam geralmente bem mais entediantes do que aqueles centrados num MC ainda à procura de qualquer tipo de afirmação. Reparemos, por exemplo, em como, na maioria das rimas de The Blueprint 3, Jay-Z acreditava que era o rei incontestável do game e como isso contribuiu para que o disco fosse um verdadeiro desastre (exceptuando, é claro, “On to the next one” e mais uma ou outra). O muito diferente Jay-Z do primeiro Blueprint lutava ainda pelo seu lugar entre os gigantes de Nova Iorque e, como se sabe, aí temos um clássico absoluto com toda a força de uma tomada de posse.
Apesar de andar no hip-hop há mais de dez anos, Styles P continua a perseguir objectivos e isso muito favorece o tipo de energia que se sente no seu mais recente álbum Float, inteiramente produzido por Scram Jones (também ele longe de ser um novato nestas andanças). Entre todo o tipo de verdades que pudesse ajudar a provar, Float acaba por confirmar a mais significante: Styles P merece muito mais do que ser reconhecido apenas como aquele tipo que aparece a rimar ao lado de Jadakiss, em remisturas de alto perfil para Jennifer Lopez (“Jenny from the block”) e Mariah Carey (“We belong together”).
É essa a verdade: Float não parece nada o mais recente disco de um MC principalmente conhecido pelas participações em canções de divas e pelos fretes feitos para Puff Daddy, quando os singles da sua Bad Boy Records precisavam de mais uma voz. Embora o papel de servo pareça injusto e enganador, quando associado a Styles P, terá sido a vontade de se livrar desse estigma que o levou a dar o melhor em tantas das malhas deste sexto álbum de estúdio: como é o caso de “I Need Weed” (o hino stoner ideal para rebentar esse charuto) ou de “Reckless”, duelo lírico com Raekwon sobre uma produção que aproveita o rasto de “Flash”, dos Queen.
Styles P transcende-se — tanto mais quando um MC, chegado ao seu sexto disco, corre o risco de não ter muito para dizer até porque já não há muito para ganhar ou perder. Felizmente, Float é tudo menos um quilo de hip-hop cinzento para preencher o calendário ou fazer número (apesar de algumas rimas lançadas em nome do bom espírito “que sa foda”). Com alguma sorte, este seria o fôlego certo para dar a merecida promoção a Styles P e colocá-lo uma divisão acima daquela em que se encontra.
More
From VICE
-

Illustration by Reesa -

Illustration by Reesa -

Illustration by Reesa -

Illustration by Reesa