Juro que tenho um problema com shows de rap. É que não consigo me sentir moralmente avalizado pra entoar as rimas e levantar as mãos na comunhão de flows que são esses eventos. A não ser, claro, que as músicas tratem das farras ou orgias ou quaisquer outras situações que de fato vivenciei, aqui e ali, ao longo dos anos nessa quebrada que é o planeta Terra. Mas vida louca não é vida loka — o que não tem nada a ver com o “vou ficar no fundo da pista. Não vamos esquecer que a gente é branco” que escutei de um conhecido (vulgo Pagode) encontrado por acaso no ônibus de chegada ao Anhembi.
Sou, sim, tipo italianinho, quase herdeirinho, falo bonitinho e moro aqui dobrando, bem pertinho, mas a verdade é que não tô aí pra chamar ninguém de mano. Posso colar, mas sem — né? Além disso, há quem coreografe ao som de mil tretas mal tendo largado das tetas — e o faça em plena paz interior –, então quando apareci anteontem, domingo, pra assistir aos shows dos Racionais, Method Man e Redman, tentei curtir ao máximo. Ainda não sei dizer se consegui, mas aproveitei e agilizei entrevistas com um pessoal que tava lá. Com sua licença:
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Wellington, 32;
Tá aqui por quem em especial?
Wellington: Vim aqui pra ver o Naughty by Nature, o Method Man e o Redman.
E os Racionais?
Ah, sim, o Racionais, lógico…
André, 30
André: Tira uma foto de nóis aí também. A minha mina é a única careca do rolê.
Beleza.
É nóis! Qualquer coisa é só me trombar lá na Adidas da Oscar Freire. Tava trabalhando lá, mas agora abriu uma Asics perto e vou trabalhar na Asics.
Asics…
Andréa, 32
Oi. Você tá sozinha?
Andréa: …
É que eu queria conversar com você. Fazer uma entrevistinha. Rapidinha. Pode?
Sobre o que que é?
Você vem sempre aqui? Digo, em shows de rap?
É, eu gosto. Sou do hip-hop.
E hoje, veio ver alguém em especial?
Racionais, Method Man e Redman. Também queria ter vindo ontem, pra ver o Public Enemy. [Method Man e Redman se aproximam bem da plateia, num andaime ao lado do palco]. Aêêêê! Espera aí, vou lá. Já volto.
Vai lá, tranquilo. [A gente se encontra por aí].
[Anotei o nome dele, mas a letra tá um garrancho e eu não consegui entender agora na transcrição. Mal aí, velho. Mesmo. Quem souber me avisa. Começa com XM, e ele tava no palco durante o show do Racionais], 35
Essa bicicleta é sua?
XM(?): É.
E como você chama ela?
É uma lowrider, um modelo que começou no…
Não, não. Qual o nome que você deu pra ela? Tipo nome de mulher, carinhoso…
[Risos] Pô, cara, não tem. Orra.
Orra mesmo.
Do Corre, 26
Veio ver quem aqui hoje?
Do Corre: Hoje eu vim ver o Mano Brown, vim ver ele dar uma ideia pra galera, passar uma política. Hoje vim acompanhar a ideologia dele.
E acha que o público que tá aqui entende e é o foco pra mensagem dele?
Cara, tem muita gente que tá aqui que talvez não conheça o rap dele, sacou, mas isso é bom e ruim. Bom porque nego vai se ligar no que ele tá falando, e ruim porque muita gente não tá nem aí.
A palavra é playboy?
Não é nem isso. Playboy pra mim não tem nada a ver com essa coisa de pele ou de status. Na favela também tem playboy, tá ligado? Sempre tem alguém que se acha superior. O importante é a mensagem e o respeito.
Maya, 24 (à direita)
Veio aqui por quem?
Maya: Eu não sou do rap. Tô aqui só acompanhando minhas amigas e meu marido, que é DJ de rap e produtor.
Ah, é? Quem é ele?
DJ LX. Ele já trabalhou com a Flora Matos e um pessoal.
Você namora um DJ que trabalha com rap e não é do rap?
É, [risos].
Legal. Bom flow pra vocês.
Fióti (direita) e o Kuririn (esquerda)
Evandro: Pô, entrevista nóis também!
Cara, você tá com um menor de idade. Aliás, cadê seu irmão?
Evandro: Orra, ele não veio. Ficou na função papai hoje [risos].
Boa. Fala pra ele que eu também fico feio careca, então.
[Risos].
Tenente Cléber (“a gente prefere que não tire fotos, pode ser?”, então, obviamente, ele não é o da foto)
Boa noite.
Tenente: Boa noite.
Gostou do show?
[Risos nervosos] A gente prefere não dar entrevista sobre isso…
Mas você gosta de rap?
A gente prefere não dar entrevista sobre isso, mas pode falar que o evento transcorreu com segurança, o policiamento foi bem sucedido.
Ok. Mas eu fiquei com a impressão de ter bastante policial andando pela plateia — em grupos, fardados e armados –, o que não é muito comum em shows particulares…
O evento ocorreu com normalidade, o policiamento foi bem sucedido.
Mas houve aumento do efetivo por ser um show de rap?
… a gente aumentou o efetivo sim, pra garantir uma segurança maior pro governo.
Ok. Obrigado senhor tenente.
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Photo Credit: Athima Tongloom / Getty Images -

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