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Vodka, mijo, cocaína e putaria

A história começa a ganhar contornos de romance de espionagem, em modo telenovela/reality show. O mundo de Trump está próximo. Estamos prontos?

É engraçado como a vida real (começo a duvidar se isso existe) se mistura cada vez mais com o mundo da ficção e vice-versa.

Ah… os Estados Unidos! Mesmo com a sua breve história e fresca cultura, o país colaborou muito na minha formação, através do cinema, dos comics, da literatura, da música e, obviamente, das artes plásticas. Mesmo sabendo hoje, que o êxito do mais genuíno movimento de arte norte-americano, o "Expressionismo Abstracto", foi um projecto secreto da CIA, não há mal. Ainda me emociono ao ver de frente um Phillip Guston, Franz Kline, Jackson Pollock e o resto da turma, que na altura, acreditavam ser subversivos. 

Mas, admito, tenho também um lado obscuro e até meio perverso, que se tem divertido bastante com os eventos relacionados com a eleição de Donald Trump e a sua chegada à Casa Branca. Abstenho-me de ter que repetir a performance do "Oh, meu Deus!", "Como isso pôde acontecer!?", "Estamos fodidos!", exaustivamente proferida por inúmeros jornalistas, artistas, especialistas, ou comentadores de redes sociais… Como brasileiro, confesso que ver os Estados Unidos sofrerem interferências da CIA e outras agências do género nos seus assuntos de Estado, dá-me imenso gozo.  

"Este folhetim barato, narrado em  jornais, televisões e internet, começa a ter ares de romance de espionagem".

Estão a provar do seu próprio remédio amargo, que tantas vezes empurraram goela abaixo de outrem, na sua truculenta praxis de política externa. Será que vão sobreviver a isto? Ou precisarão da astúcia do Senhor Henry Kissinger para se desenrascarem! Aguardem os novos capítulos desta novela reality show, na qual todos nós participamos, querendo ou não, remunerados ou não. E, posso dizer seguramente, que a parte não remunerada, representa a imensa maioria, já que mais de 98 por cento da população do Planeta não será compensada em nada por ter as suas vidas arrasadas por causa de um dia de maus humores e decisões equivocadas em Washington, Moscovo ou Pequim. 

Este folhetim barato, narrado em  jornais, televisões e internet, começa a ter ares de romance de espionagem. A tensão entre as agências de segurança e o Presidente eleito só se agravam... Segundo informações reveladas por um ex-espião britânico do MI6, Vladmir Putin, ex-agente do KGB, que deu asilo a Edward Snowden, ex-agente da NSA, teria também em seu poder informações sigilosas sobre Trump, da época em que este curtia largo em Moscovo. Supostamente, estas informações poderiam ser usadas para chantagear o líder da maior potência do Ocidente. Ora, com todo o respeito para com a senhora Melania Trump, que o velho Donald tem uma queda por prostitutas do Leste europeu, não é nenhuma novidade… 

Surge-nos então a dúvida: que tipo de ameaça para a CIA e para o mundo, representa a amizade entre os "Bad Boys" Donald e Vladmir, outrora forjada em noitadas de jogo, vodka, urofilia, cocaína e putaria. Seria Donald Trump a versão encarnada do agente adormecido do romance "The Manchurian Candidate"? O livro de Richard Condon é sobre o regresso de combatentes americanos aos Estados Unidos, que secretamente sofreram lavagem cerebral por parte do inimigo, colocando assim em risco a segurança nacional. 

"Toda a gente sabe que Donald Trump é um autêntico gangster, chamá-lo de crápula, xenófobo, misógino, "thug" entre outros predicados é chover no molhado. A imprensa liberal adora, ainda mais porque amamos odiá-lo sem culpa…"

A história foi adaptada para o grande ecrã pela primeira vez em 1962, pelo competente olhar do realizador John Frankenheimer, com Frank Sinatra, Laurence Harvey e Janet Leight no elenco. Há também uma versão de 2004 dirigida por Jonathan Demme, com Denzel Washington, Liev Schreiber e ninguém menos que a super laureada, Meryl Streep! Que, ironicamente, na noite dos Golden Globes, proferiu o mais bombástico, eficiente e emocionado discurso anti-Trump, até agora. Entretanto, apesar da contundente e justificada crítica ao estilo "bullying politics" de Trump, Meryl esqueceu-se, ou ignora, o quão nociva foi para o "Mundo Livre" a política externa de "Mister Nice Guy Obama". 

Toda a gente sabe que Donald Trump é um autêntico gangster, chamá-lo de crápula, xenófobo, misógino, "thug" entre outros predicados é chover no molhado. A imprensa liberal adora, ainda mais porque amamos odiá-lo sem culpa… Mas esquecem-se que o elegante e eloquente, Presidente Obama também nunca foi um santo quando tomava decisões capitais no salão oval. Pouco se fala, mas a administração Obama foi uma das mais bélicas da história dos EUA. 

Podem pôr na conta dele: espionagem massiva com interferência na soberania de vários países, inclusive aliados, revelada por Edward Snowden e Julian Assange. Além da desestabilização da Venezuela, o golpe parlamentar no Brasil, o surgimento e fortalecimento do ISIS, a escalada crescente na guerra da Síria, a crise económica global que atravessamos, que muito tem a ver com o "dumping" do preço do combustível, acordado pelo governo americano e as sete irmãs do petróleo, a crise migratória sem precedentes na história da humanidade, o final do acordo de acolhimento dos imigrantes cubanos e o assassinato de milhares de inocentes em bombardeamentos estratégicos executados por drones americanos, ou em acções coligadas com potências europeias… 

A lista estende-se… Por isso, não me venham com tangas! Nesta mesa de póquer, onde as apostas são altas, paga-se com a vida, ninguém é inocente. 

Sama nasceu numa montanha em Minas Gerais, mas cresceu em lugares perigosos como São Paulo e Rio de Janeiro... É o irmão mais novo de uma matilha de 8 canalhas... Não acredita muito na sorte, mas sobreviveu ao crime, ao exército e à família. Tem formação em teatro e jornalismo, mas prefere fazer cinema e BD. No seu trabalho é notório o interesse por política e sacanagem. É autor dos livros: "A Balada de Johnny Furacão", "A Entrevista", "Xmas Thing" , entre outros... É ainda o criador do " Motel Sama", uma obra de teor erótico  noir, que se desdobra em séries, filmes, etc... que realiza com a sua cúmplice, Luísa Sequeira. De há uns anos para cá tem vivido em Lilliput, na Europa como refugiado intelectual...